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Foto: Divulgação

por Luísa Graça

“Acredite ou não, estilo não é tudo para mim”, atesta Tom Ford, responsável por fazer a Gucci ressurgir da beira da falência, nos anos 1990, e fundador de uma das marcas de luxo mais expoentes do século 21, que veste de Julianne Moore a Beyoncé. Sendo o renaissance man que é, uma das figuras mais exigentes da moda tem um faro fino para estética e seria difícil acreditar em tal afirmação, não fosse sua mais recente empreitada: uma viagem tão emocional e pessoal (ainda que cheia de estilo) como é Animais Noturnos, filme que estreia este mês e marca o segundo trabalho de Ford como diretor e roteirista

Baseado no best-seller de Austin Wright, Tony e Susan, o longa gira em torno de Susan, interpretada por Amy Adams, uma galerista e marchand de sucesso em crise de meia-idade que vive uma experiência impactante ao ler o manuscrito do livro do ex-marido, Edward (Jake Gyllenhaal), sobre um homem (também Gyllenhaal) cuja família é brutalmente atacada numa estrada no oeste do Texas. É uma trama dentro da trama, um vaivém entre três mundos: o ápice da frivolidade glossy da cena artística de Los Angeles; um contexto inóspito e assustador no meio do deserto; e um passado romantizado em Nova York, que Susan visita em flashbacks.

“São faces de uma única jornada emocional”, explica o diretor durante entrevista coletiva no Festival de Veneza, onde o filme teve sua badaladíssima première mundial e ganhou o Grande Prêmio do Júri. “O livro retrata a dor que esse homem de família sentiu e que, por sua vez, reflete a dor que Edward sentiu quando Susan o deixou.”

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Ao focar em Susan – sempre com o cabelo esticado, roupas exuberantes e dona de uma casa de vidro e concreto em Hollywood Hills com um Jeff Koons à beira da piscina –, Animais Noturnos explora o vazio e os perigos da sociedade materialista. Uma ironia, levando-se em conta que Ford está no topo da cadeia de uma indústria que reforça essa cultura. “Na minha outra vida, sou um dos responsáveis por incitar a ideia de que, se você tiver isso e aquilo, será feliz”, assume, referindo-se ao seu papel como estilista e brand developer. “Sinto-me dividido. Cresci no Novo México, com um estilo de vida muito simples”, relembra. “É meu conflito pessoal, importante também para compreendermos Susan e o mundo dela. Ela é uma personagem bastante autobiográfica.”

O filme, entretanto, não é uma sequência de Direito de Amar (2009), seu début no cinema também com pessoas belas, bem-sucedidas, cultas e queixosas. Animais é muito mais ambicioso, principalmente na estrutura narrativa, que é quase um quebra-cabeça sobre perda, arrependimento e ressentimento em forma de thriller e melodrama. Mal estreou e causou frisson na mídia, ganhando um posto de forte concorrente na temporada de premiações.

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A abordagem pessoal de Ford foi o que atraiu o elenco estrelado. “É um dos melhores roteiros que já li – extasiante e assustador. Dizer a uma pessoa o quanto ela te machucou é uma expressão de amor”, defende Gyllenhaal, em papel duplo e vulnerável. “Não tem a ver com vingança”, conclui. “Dou todo o crédito ao Tom por ter confiado que o silêncio e a quietude da minha personagem seriam preenchidos pela história”, diz Adams, brilhante em cena. “Posso soar antiquado, mas acho importante ter uma mensagem. Se você deixa a sala e o filme não fica com você, não te assombra… não vale a pena”, arremata Tom Ford. “Ao menos, que sirva a um propósito e ajude a contar uma história. Estilo não importa no cinema. Substância, sim.”