Foto: Vicente de Mello/ Fernando Ferro/ Divulgação

Por Adriana Lerner

Um dos maiores nomes da arte brasileira contemporânea, Anna Bella Geiger, de 88 anos, vive no Rio de Janeiro e é representada por galerias de arte nacionais e internacionais. De origem europeia, é uma das pioneiras da videoarte no País e uma das grandes expoentes da primeira geração de artistas conceituais latino-americanos.

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Sua trajetória, marcada por rupturas e pela multiplicidade de meios e assuntos, começa na década de 1950 e nos primeiros anos da década 1960, ligada sobretudo ao abstracionismo informal. Nos anos 1970, sua produção assume um caráter experimental e ingressa radicalmente nas práticas contemporâneas. Passa, então, a se valer de muitos outros meios, como as fotomontagens, fotogravuras, fotocópias e o vídeo.

Formada em filosofia, é artista, professora, esposa de Pedro Geiger (geógrafo de 98 anos), mãe de quatro filhos, avó, bisavó, mentora de vários artistas e, por muitos, chamada de “Musa das Artes Brasileiras”. Aos 16 anos, teve seu primeiro contato com a teoria e prática da arte no ateliê de Fayga Ostrower (1920 – 2001), que frequentou entre os anos de 1949 e 1953. O aprendizado na Faculdade Nacional de Filosofia sempre serviu de acervo cultural para o que realiza nas artes.

Anna em frente à New York University (NYU), onde estudou, em foto de 1953. Foto: Vicente de Mello/ Fernando Ferro/ Divulgação

Suas obras, presentes em diversas coleções e museus ao redor do mundo, marcam a fértil contribuição para o debate cultural brasileiro e seus desdobramentos futuros. Antes da pandemia, suas aulas presenciais lotadas na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, terminavam às 23h – momento em que a professora descia com a maior jovialidade as escadarias do palacete para retornar a sua casa. Agora, via Zoom, estas aulas não duram menos de 3 horas sem intervalo. No passado, estudou e lecionou em Nova York, em escolas como a Columbia University.

A agenda de Anna Bella Geiger inclui projetos, aberturas de exposições, viagens e aulas marcadas para os próximos dois anos. Está com duas exposições solo: uma na Bélgica e outra no Japão. Participa de cinco coletivas, como a exposição ”Brasilidade – Pós Modernismo”, que acontece no CCBB Rio de Janeiro. Teve obras expostas na ArtRio deste ano.

Anna Bella em seu ateliê. Foto: Vicente de Mello/ Fernando Ferro/ Divulgação

“Sempre que encontro Anna Bella Geiger me lembro das palavras de Caetano Veloso: ‘o tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece’”, diz o crítico de arte, curador e jornalista Marcos Lontra. Para ele, “a artista é, antes de tudo, um espírito inquieto, um jorro de criatividade”.

Geiger conta que sua maior motivação é a vontade de viver. Sua fonte de energia é o desejo de criar, transformado em um permanente processo em renovação. “Nada é natural e, sim, fruto de muito esforço e intuição”, diz. “Tenho necessidade de trabalhar em observações políticas, como se fosse estrábica: um olho direcionado para a situação presente que vivencio e o outro observando como transformar este momento em técnica para minha arte.”

“O entusiasmo é inerente a mim”, diz Anna Bella, e é alimentado pelas críticas ao seu trabalho e por alunos com capacidade para se tornarem artistas.

A artista trabalhando, em 1966. Foto: Vicente de Mello/ Fernando Ferro/ Divulgação

Como professora e mentora, sempre demonstra um enorme interesse em desenvolvê-los. Ao longo de sua carreira, existiram momentos de depressão que demandaram muita paciência. Sempre se sentiu muito sozinha por ser mulher atuante na arte e testemunhou a desistência de vários amigos artistas que deixaram o metiê por falta de coragem. Anna Bella vive se indagando sobre a arte e a natureza de suas obras. Entendeu há muitos anos que seu destino é trabalhar.

A artista tem seu ateliê dentro de seu apartamento no Rio de Janeiro, completamente tomado por suas obras históricas e criações ainda em desenvolvimento. Cada canto é destinado a diferentes técnicas, como pintura e cera. Eles são testemunhas de que segue trabalhando ativamente e sempre com novo frescor, produzindo obras em diferentes mídias que revisitam e exploram seus principais temas.