Foto: Ludgero Paiva

Passando a pandemia em Brasília, com a família, mas prestes a voltar para São Paulo, onde mora sozinha, Antonia Morais está cheia de planos e pronta para trabalhar forte em seu novo álbum, que está sendo lançado nesta sexta-feira (18.09), “Luzia 20.20”, com sete músicas.

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Com uma sonoridade calma e tranquila, o novo trabalho, todo autoral e em português, é muito diferente do anterior, “Milagros”, também autoral mas escrito em inglês e com uma pegada de trip hop e indie pop rock. Um álbum com som “agressivo e sujo”.

Antonia, agora, aparece suave, com a voz suave, e com letras que remetem à natureza, suas belezas e assuntos que despertam reflexão, como a própria artista define. “Eu acho que é uma música reflexiva, existencialista. Que traz uma reflexão sobre vários conflitos existenciais, mais do que romântica.”

Ela prefere não nominar o resultado de seu trabalho, deixando aos ouvintes uma livre interpretação e uma classificação individual das música. Para ela não é MPB, tampouco qualquer outro gênero, mas uma coisa é certa, Antonia vem para mostrar uma jovem que escreve letras, compõe melodias, produz e que tem no pai, o músico Orlando Morais, um grande ídolo

Eclética, a moça ama Caetano Veloso, mas escuta muita coisa mais pesada e psicodélica também, gosta de se inspirar na sonoridade diversa. Na literatura, a exemplo da música, tem uma inspiração: Antonio Cícero – compositor, poeta, crítico literário, filósofo, escritor e irmão de Marian Lima.

Leia a seguir íntegra da entrevista de Antonia com a Bazaar. Ouça as músicas aqui enquanto lê!

Foto: Divulgação

Como usou seu tempo livre na quarentena?

Nessa quarentena eu tive o privilégio para prestar atenção na finalização desse álbum, ter esse cuidado, esse carinho extra com ele. Isso a quarentena, a pandemia, me proporcionou. Talvez se não tivesse tido a quarentena o processo teria sido um pouco mais corrido.

Como nasce a Antonia cantora, compositora?

Eu nasci envolta na música, cresci em um ambiente musical, numa casa de músico. Eu tinha estúdio em casa, então isso sempre foi muito natural para mim, minha brincadeira era essa, de me apresentar, de fazer show. Vendo meu pai nesse meio, de fazer show, eu era a filha que gostava de acompanha-lo. Então isso sempre foi muito presente e fundamental na minha vida.

Eu ia para o estúdio que tinha em casa todos os dias, aquilo estava muito na minha cabeça. Eu ia para os shows, via a passagem de som, o camarim, os artistas, aquele mundo era muito presente para mim, é muito vivo na minha cabeça.

E eu, com uma alma de artista, muito criativa, desde sempre, brincando de me apresentar e sempre delirando nesse mundo. Então comecei a compor muito cedo, com oito anos de idade, mas era um hobby, que ia e voltava, comecei a fazer participações nos álbuns do meu pai esporadicamente. Mas sempre ficou muito claro para todo mundo que eu ia fazer isso [música]. Mas isso só veio a se concretizar mesmo quando eu comecei a produzir “Milagros”, eu tinha 19 anos, que foi um álbum composto e produzido por mim, e que foi um trabalho que foi um grito de rebeldia, de independência de autonomia, de tudo, de muita coragem, porque é um álbum muito velado, ele é  contracorrente, contracultura, mas foi pensado para ser desse forma. Ele foi feito em um quarto que eu transformei em um estúdio, quando saí de casa.

Foi uma época muito conturbada da minha vida e que ficou muito explícito no som que a gente escuta em “Milagros”, é um som muito poluído, muito violento, agressivo, e que é fiel à fase que eu estava vivendo naquele momento. Foi meu primeiro rompante. Depois disso eu acho que esvaziei muita coisa, e precise de um tempo para preencher esse lugar.

Mas essa vontade de fazer um novo trabalho sempre existiu, e pensei que o próximo projeto eu ia querer fazer em português, numa outra vibe, e foi isso o que aconteceu, passou e veio o “Luzia 20.20”.

Foto: Divulgação

E quanto tempo levou entre o “Milagros e o “Luzia”?

Uns cinco, seis anos.

Como você se inspirou para as músicas de “Luzia”?

Eu me inspirei em fazer algo que tivesse uma sonoridade bem próxima do Brasil, que fosse muito inspirado nas paisagens que existem aqui, na natureza, na nossa terra, na ancestralidade. Eu queria desta vez fazer algo muito oposto a “Milagros”. Queria fazer algo em português, que minha voz estivesse mais em evidência, me arriscar nas minhas próprias poesias escritas em português, algo mais melódico, mais orgânico, algo que remetesse aos sons e à sonoridade do nosso País.

Então isso aconteceu de forma espontânea. Essas vontades existiam, mas foram se organizando de acordo com que as poesias foram surgindo.

Foto: Ludgero Paiva

Eu estava em Bonito (MS) quando comecei a escrever. Aí, eu voltei para São Paulo, conheci a Barbara Ohana, que foi quem produziu o álbum junto comigo, e o Gaspar Pini também. E fomos entendendo para onde esse álbum ia, encontramos músicos incríveis, com muito bom gosto, e fomos dando uma roupagem e entendendo qual seria a estética sonora, a identidade, em como deixar a minha personalidade ali presente. Então acho que essa foi toda a referência, tudo muito dentro de mim, de forma bem brasileira.

Você é uma mulher muito ligada à natureza, certo? Como a natureza se aplica a seu trabalho?

Eu me inspiro no movimento da natureza, na forma como ela se manifesta, como ela se compõe, se decompõe, no movimento dos bichos. Isso está muito representado nas letras, em “Gaivotas” e “Serpente”, principalmente. Existem movimentos da natureza nos quais eu me sinto muito representada.

Como o quê, por exemplo? 

Ah, quando a gente estava em Bonito, eu descobri que os crocodilos atravessam as águas com o rosto semimergulhado na água, ou seja, usando meia respiração, e eu achei isso uma prova de resistência tão grande, e eu me identifiquei com isso e falo isso na letra: “quantos pântanos atravessei com meia respiração, fui tão longe e não conquistei, fui tão alto e voltei para o chão”.

Também visitamos uma gruta chamada Lago Azul, que há muitos e muitos anos abrigava um oceano. E foram feitos pela própria natureza rejuntes ali, estrias, então você vê formas anatômicas do próprio corpo humano feitas na rocha, nas estalactites. Nós somos quase uma extensão dos movimentos da natureza.  Quando você faz uma imersão dessas, a gente se sente muito conectado, e isso me inspirou muito na hora de compor.

Foto: Divulgação

Você acha que sua música, hoje, tem uma pegada mais romântica?

Não sei se romântica é a palavra, talvez.

Porque eu acho que você fala de amor de qualquer forma, amor pela natureza e tal.

Eu acho que é uma música reflexiva, existencialista. Que traz uma reflexão sobre vários conflitos existenciais, mais do que romântica. Porque o amor em si não é uma pauta muito recorrente quando eu estou escrevendo. Mas isso está muito aberto para a interpretação de cada um. Eu não tento controlar o que cada um entende do que ouve. Eu deixo livre para que cada um absorva o que quiser daquilo. É uma coisa bastante pessoal. Acho que é uma música bem filosófica.

“Luzia” tem sete músicas, todas compostas por você. Pretende fazer parcerias, pensa nisso?

Sim, claro.

Mas acha que seria fácil?

Acho, sim. Acho que quando você está compondo sozinho, é um universo seu. E quando você está fazendo uma parceria, tem que estar aberto a criar junto. São dois modos de operar diferentes.

E que artistas gostaria de gravar? 

Há vários artistas incríveis. Tem várias músicas do meu pai que eu amo e que amaria gravar. Mas tem várias do Caetano [Veloso], da Gal [Costa], músicas do Kanye West.

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Como você pretende fazer o lançamento do álbum [as sete música serão lançadas simultaneamente]?

Deixa-me te explicar por que vai ser o álbum todo. “Luzia 20.20” é muito mais do que um álbum, é um conceito. A identidade visual dele está muito ligada ao que você vai escutar, uma música está muito ligada à outra. O universo dele é muito fundamental em uma coisa para a outra, está tudo muito amarrado, o conceito dele é muito completo. É quase que se uma coisa precisasse da outra para existir. A identidade visual, das músicas, a ordem das canções. O que as pessoas vão ouvir é quase uma experiência completa. Então um single não faria sentido.

Qual a diferença do “Milagros” para o “Luzia”, exceto o idioma e sua “explosão”? 

Eu acho que é uma maturidade, uma calma. Passaram-se seis anos, eu sou uma pessoa muito intensa, que tem muitos questionamentos, muita coisa acontece em mim, em minutos, segundos, muitas mudanças acontecem em mim. Então houve um amadurecimento de uma menina para uma mulher, e isso é explícito no som. Mas isso é só uma das minhas facetas. Isso não significa que eu não vá voltar a fazer um som agressivo, poluído, porque eu gosto, eu me vejo ainda naquela menina, eu tenho essa ousadia ainda, ela é muito presente em mim e eu preciso dela para viver. “Luzia 20.20” é só a fase que eu estou vivendo neste momento.

Tem alguma música do álbum que você lança como carro-chefe?

Não, não tem, não. Porque eu acho que todas as músicas são igualmente importantes. Tem “Luzia” que dá nome ao álbum, mas se você me perguntar qual eu prefiro, ou qual eu destaco, não tem como responder.

Por que o fóssil Luzia te inspirou para o nome do álbum?

Porque quando o fóssil pegou fogo com o incêndio do Museu Nacional, eu achei um descaso com a nossa cultura, com a nossa história, não só eu, o Brasil inteiro, fiquei muito impactada com isso. Mas achei muito forte o fóssil ter sido reconstruído depois, e me identifico com esse movimento, porque eu acho que estou sempre fazendo isso na minha vida, eu estou sempre me reconstruindo, renascendo.

O nome ia ser só “Luzia”, mas aí teve essa pandemia, um ano todo diferente, e eu nunca tinha visto alguém colocar o ano do lançamento no nome, e achei interessante colocar “Luzia 20.20”, que representa essa nova era. Mas eu nunca imaginei que 2020 fosse ser um ano tão desafiador para a humanidade, e acho que isso tornou o nome ainda mais simbólico.

O que você gosta de ouvir?

Eu gosto muito de Caetano Veloso, é uma pessoa que não sai da minha vida. Strokes, Kanye West, blues, gosto muito de Nirvana, Boogarins, que é uma banda brasileira, Monchat Doma, Julian Casablancas, Orlando Morais. Meu pai é uma influência para mim, o que ele compõe, a forma como canta, a forma como se apresenta no palco. Ele está passando o som aqui agora porque nós temos uma live, e eu estava assistindo à passagem de som entre uma entrevista e outra, e eu estava vendo como o show dele é fundamental para mim, como ele me inspira.

Como o trip hop e o indie pop rock se casam com o som que você faz hoje?

Olha, eu não sei, mas de uma forma muito espontânea, não é pensado, é de uma forma autêntica. Eu, para ser muito sincera, não sei nem definir a minha música, eu deixo isso para os especialistas. Quando eu estou fazendo música eu não penso, hoje são tantos gêneros, se misturam tanto, que é difícil a gente entender o que a gente está fazendo quando estamos criando. Eu deixo que as pessoas criem uma categoria para isso.

Foto: Divulgação

Mas você acha que a sua música é mais MPB hoje? 

Então, eu não sei, eu deixei que as pessoas classificassem. Na minha cabeça, eu digo que é uma música melódica, orgânica, sensorial, calma, contemporânea e poética.

Você como multiartista tem alguma das artes que lhe encanta mais?

Não. Todas as coisas são muito importantes para mim. Eu me sinto muito realizada fazendo as duas coisas [música e representação]. Quando estou no palco cantando, eu me sinto muito feliz, quando estou compondo no estúdio eu me sinto tão feliz. E ao mesmo tempo quando eu estou em um set de filmagem eu também me sinto super feliz. São lugares diferentes, mas felicidades igualmente grandes. Eu já entendi que na minha vida eu vou ser uma pessoa de carreiras. É isso o que você falou, essa palavra me define mesmo, eu sou uma pessoa multi, porque a criatividade, a arte e a expressão não têm limites. Então, se você tem várias ferramentas, várias possibilidades de se expressar, por que não?

Tem alguém da literatura que te influencia? 

Sim, Antônio Cícero.

E você pretende fazer lives?

Sim, vou fazer em novembro.