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A falta de vitamina D virou realidade para muitas pessoas que ficaram enclausuradas durante a pandemia. Passar algum tempinho sob os raios de sol em local aberto foi um privilégio invejável para quem estava se adaptando ao home office e clicava, mesmo sem querer, nas lives nas redes sociais.

A poeta e cantora britânica Arlo Parks catalisou essa energia radiante em seu primeiro álbum, composto e gravado no lockdown. Também fez muitas performances ao vivo pela internet (colaborando com nomes do naipe do Glass Animals e Eddie Bryan, guitarrista do Radiohead), apresentou o documentário musical “The Year the Music Stopped”, na BBC Radio 4, e se jogou no line-up de festivais online, como o Glastonbury Experience.

Encerrou 2020 no Gucci Fest, ao lado de Harry Styles e Billie Eilish. Nada mau para quem, aos 20 anos, já circula pelas listas de apostas que interessam.

“Collapsed In Sunbeams”

Arlo começa 2021 com o lançamento de “Collapsed In Sunbeams” (absorvido por raios de sol, em tradução livre) – seu álbum debut, cheio de significados. “Como se o Sol fosse uma espécie de força para todos, algo que você passa na pele e se sente melhor”, explica à Bazaar. “Queria ilustrar a ideia de se render às emoções e vivenciar as coisas profundamente.”

O título soa ambíguo para que cada um tire a lição, já que ela quer que a música toque de diferentes formas. “Olho para pontos fracos da vida, visando curá-los”, conta. Expoente da Gen Z, Arlo é um blend de música indie, R&B com o lo-fi.

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As letras são carregadas de mensagens de amor e superação com um quê de nostalgia, pautadas por histórias à sua volta e aprendizado. “Sou obcecada pelo modo de as pessoas se apaixonarem e esquecerem um amor, como aquilo serve de combustível.”

A maior parte desse trabalho foi feita em seu apartamento no East London. “Fala sobre ser adolescente e o significado de amadurecimento”, explica a artista, cuja escrita faz parte da sua rotina há dez anos. A inspiração pode vir como um relâmpago, quando escreve por cinco horas seguidas; outras vezes, fica semanas com bloqueio criativo.

Para evitar isso, mantém um diário em que deposita um pouco desses sentimentos todos os dias. Durante a quarentena, investiu em hobbies, como filmes e leitura, além de tirar um tempo para cozinhar. “Gosto de preparar comida mexicana, como fajitas e enchiladas. E tenho praticado comida japonesa”, diz ela, que ama filmes do estúdio Ghibli, como “A Viagem de Chihiro”.

Emotiva

Massa e vinho enquanto lia seus antigos diários também faziam parte dessa sentimental volta ao passado. Emotiva declarada e um ser humano sensível, brinca que não vai às lágrimas tanto quanto gostaria. “Deveria chorar mais porque é uma sensação boa e catártica. As lágrimas vêm quando estou ouvindo uma música do Sufjan Stevens ou Phoebe Bridgers (com quem já colaborou), ou revisitando um sentimento que sempre me leva a essa emoção.” Empatia é a palavra de passe para quem gasta muito tempo ao telefone, testemunhando a dor e tentando ajudar os amigos a resolver problemas.

Era disco

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Musicalmente, o novo trabalho acena para a era disco, tão explorada no último ano, com flerte para o pop francês à la Daft Punk. “Diria que este álbum não se enquadra em uma caixa específica. É um pouco de tudo”, garante. Depois de reunir o material por quase um ano, foi finalizá-lo em uma sessão no The Church Studios, com o produtor Paul Epworth (com assinatura em trabalhos de Adele, Bruno Mars, Florence and the Machine e Rihanna). “Sou muito inspirada por pessoas e grupos musicais como Mf Doom, Beach House, Radiohead e Frank Ocean e até mesmo jazz e soul”, enumera.

A única participação no disco é a da cantora Clairo, que apesar de todo o processo ter clima caseiro, foi criado para ser tocado ao vivo.

A assinatura vintage de Arlo vai além das letras e melodias. Em sua videografia, nota-se que cores e elementos visuais conversam. “Quando estou compondo, penso sobre a situação como o desenrolar de um filme. Sou muito interessada na ideia das cores e detalhes, de como retratar uma emoção e fazê-la realmente íntima para quem está assistindo ou ouvindo a música.”

Moda é outra forma de expressão que ajuda a reforçar sua assinatura. “”Sempre fui uma pessoa muito visual, minha paleta de cores sempre gravitou por uma ordem específica. Acredito que dá para brincar com a moda. É algo que adoro, colocar as peças e juntar acessórios.”

Não fosse a pandemia, Arlo estaria com shows lotados e dando o nome em burburinhos cool, com Brasil na agenda. País que só conhece pelos relatos de familiares. Do bisavô apaixonado por bossa nova, herdou o nome Marina. Sua mãe veio uma única vez para o Rio de Janeiro para a celebração de um casamento: amou de cara e até considerou ficar de vez. “Consigo imaginar uma cidade muito vibrante, e o Brasil, como um todo, imagino colorido, quente e cheio de vida.”

Quando a vacina chegar, esperamos todos ficar debaixo do sol, esperando Arlo subir ao palco com sua vibe boa e energia para lá de solar. São votos para além de 2021.