Foto: divulgação
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por Raphael Fonseca

Em Boi Neon, longa-metragem lançado há pouco por Gabriel Mascaro, os personagens são mostrados diversas vezes a travar diálogos um tanto longos. A direção não enquadra seus corpos nem com planos muito abertos, que os colocariam como parte da paisagem, nem com imagens muito próximas e detalhadas. A câmera observa, então, algo que acontece ali, nem perto, nem longe do público, mas calcada num movimento muito sutil de zoom. Quando percebemos essa vagarosa entrada perspectiva nas narrativas, nos sentimos um pouco parte dos diálogos, mas o corte para a cena seguinte nos coloca outra vez naquele ponto de vista não muito distante. Observo a pesquisa em cinema de Mascaro nessa mesma perspectiva entre a proximidade e o estranhamento.

Boi Neon, por exemplo, é uma narrativa em torno das vaquejadas, as festas de enlaçar e derrubar bois, parentes das também criticadas touradas. O personagem central, Iremar, um dos responsáveis por cuidar dos bois e também por preparar os bichos para suas apresentações, deseja ser estilista de uma grande confecção. É apresentado sempre em contraste entre o arquétipo do rústico vaqueiro e a sua coleção de manequins, pedaços de tecido e recortes de jornal de mulheres únicas quanto ao vestir. Essa tensão me parece ser a mesma dos enquadramentos e movimentos de câmera –Iremar nem é apresentado em uma trama monumental em torno de sua testosterona, nem exotizado como peixe fora d’água. É as duas coisas –e por que não o seria?

Essa fuga das grandes narrativas que inventaram os arquétipos do que seria o Brasil e o Nordeste –tão bem estudados por Roberto DaMatta e Durval Muniz– parece caracterizar a pesquisa artística de Mascaro. Em “Boi Neon” suspeitamos que o enredo se dá no Nordeste pelo sotaque de seus personagens, mas esse universo é apresentado como pano de fundo para as ações do filme e nunca como tema central e folclórico. Os ambientes se sucedem de modo nada transcendente, e o corpo humano é mostrado com frieza semelhante às imagens dos bois –sem pudores e sem trilhas sonoras emotivas. O filme começa e termina sem a construção objetiva de um clímax dado por uma estrutura com claros início, meio e fim. A câmera passeia pela vida desses personagens, compartilha suas ações com o público e se despede do mesmo modo seco como aí entrou.

Foto: divulgação
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Essa linguagem também está em “Ventos de Agosto”, de 2014, em que dois jovens de uma comunidade ribeirinha sentem a passagem do tempo e a presença da morte. Retratando a coleta e o transporte de cocos, as imagens estão distantes do célebre verso de Ary Barroso –“esse coqueiro que dá coco” precisa do trabalho braçal de muitos homens e mulheres para chegar aos consumidores.

Já no documentário “Doméstica”, realizado há quatro anos, ao pedir que adolescentes filmem suas empregadas por uma semana, Mascaro apresenta a relação trabalhista entre patrão e subordinado também a partir de diferentes simetrias. Se o espectador espera a denúncia social panfletária, ele se surpreende ao ver que as relações podem ser mais afetivas do que o imaginado –ou seriam esses depoimentos encenações para a câmera? Por fim, “Um Lugar ao Sol”, documentário de 2009 sobre moradores das coberturas mais caras do Brasil, o discurso elitista e preconceituoso (muitas) vezes esbarra na filosofia do banal e em divagações existenciais. E quem poderia imaginar que essas pessoas ricas teriam algo a dizer?

Voltando a Ary Barroso, creio que os coqueiros que Gabriel Mascaro nos apresenta dão cocos, mas metade tem um néctar tropical e a outra parte é dura e seca. É nessa tensão entre a grande narrativa e a micro-história, entre a minha calçada e a sua calçada do outro lado da rua, que reside a potência.