Rita GT na casa do rei de Uíge - Foto: Divulgação
Rita GT na casa do rei de Uíge – Foto: Divulgação

Por Victor Drummond, de Lisboa

O sentimento de pertencimento da artista plástica portuguesa Rita GT transpõe a barreira do tempo e do espaço presente. Ele é quântico, e através de suas obras, Rita propõe levar o espectador a entender a origem das coisas, das relações humanas, da riqueza étnica. E promove um “agradável-desconforto” interno ao questionar inclusive os cruéis estigmas da escravidão, trazendo à tona a riqueza do povo africano.

A Casa Dell’Arte, um belíssimo casarão em Lisboa no charmoso bairro de Alfama, construído em 1783 e que funciona como hotel boutique e galeria de arte, abre suas portas para receber essa força questionadora antropológica de Rita na exposição solo “Returning in Time/Uíge”, que está em cartaz até o 18 de junho de 2019.

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Uma da obras de Rita GT: completa imersão cultura do povoado Uíge. As casas de pau a pique e a forte relação com a argila, levou Rita a questionar a origem das coisas - Foto: Divulgação
Uma da obras de Rita GT: completa imersão cultura do povoado Uíge. As casas de pau a pique e a forte relação com a argila, levou Rita a questionar a origem das coisas – Foto: Divulgação

Rita GT fez uma residência artística em Angola, que lhe serviu de base e inspiração para as obras ali expostas. Neste contato com um povoado muito simples (Uíge, que dá nome à exposição), desprovido de recursos dos tempos modernos como eletricidade, mas completamente conectado com as riquezas da Terra, como a argila (matéria-prima das casas de pau a pique ali erguidas), – elemento presente na história de muitas religiões e filosofias como o princípio e o fim das coisas – Rita criou fotos-artes repletas de informação de identidade étnica: retratos da consciência cultural afro que se perdeu ao longo dos séculos de escravidão.

A supremacia física e cultural dos povos negros que aparentemente se enfraqueceu – sim, o Egito Antigo teve faraós africanos, por exemplo – levou Rita a fotografar o neto do “rei” deste povoado em que Rita morou, sentado em seu “trono” – um sofá coberto de tecidos em uma casa simples, mas cheia de muitos coloridos – cercado por cartazes e publicidade da cultura pop e da iconografia cristã de santas brancas protegendo em seus braços, uma criança também branca.

Nesta obra de Rita, o neto do rei de Uíge senta-se ao “trono” cercado por ícones da cultura pop e branca: crítica à invasão e à escravidão - Foto: Divulgação
Nesta obra de Rita, o neto do rei de Uíge senta-se ao “trono” cercado por ícones da cultura pop e branca: crítica à invasão e à escravidão – Foto: Divulgação

Onde tudo se perdeu? Qual o papel destrutivo das colonizações e escravatura na pulverização da força da cultura africana? Por que a imposição católica em detrimento aos símbolos e religiões de matriz afro?

A inquietude de Rita é tamanha que se reflete num inteligente deboche provocativo (em tempo, todo deboche é inteligente e promove provocações): nesta mesma obra da artista, o neto negro do rei de Uíge, sentado ao trono. Enquanto Rita, uma artista branca nascida no país que vendeu povos africanos para o mundo, serve apenas de elemento cênico, um vaso decorativo com o rosto tapado pelos adornos, servindo aos caprichos do líder local.

A arte realmente tem o poder de remontar nossas origens. E para quem não ainda aceita, pelo menos funciona como um elegante pedido de remissão ou pagamento de penitência pelas atrocidades cometidas por todos nossos ancestrais. Voltemos sempre ao passado como faz a arte de Rita para respeitarmos a riqueza de outros povos e de nosso futuro.

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