Foto: Christian Gaul e cortesia
Foto: Christian Gaul e cortesia

 

Por Silas Martí para o Artsy

No inconsciente coletivo o Rio manteve-se um paraíso sensual feito de areia, vento e belos corpos de rapazes e moças que desfilam pela praia. Mas na corrida para os Jogos Olímpicos do próximo ano e em meio às convulsões de uma complexa crise econômica, uma realidade mais preocupante surgiu, com bairros inteiros deslocados e desenraizados por uma profunda remodelação urbana. Em resposta às mudanças provocadas pelos canteiros de obras, a cena criativa do Rio transformou-se, ganhando força em locais menos tradicionais, longe dos enclaves mais ricos, como Leblon e Ipanema, e mais próxima às origens da cidade, como na região do antigo porto, onde novos museus surgiram.

Poucos dias antes da abertura da ArtRio, o site Artsy (plataforma on-line para pesquisa e colecionismo, que pretende fazer a arte acessível para qualquer pessoa com uma conexão de internet) publica artigo com perfil de 10 moversandshakers cariocas. Eles são indivíduos que têm sido fundamentais na promoção da cena local: artistas, curadores e agentes do mercado que comentam sobre o atual “stateofart” no Rio.

A BazaarArt, em parceria com o site, publica em primeira mão parte desse artigo, que inclui a artista Adriana Varejão capa de nossa edição de setembro, que chega às bancas no próximo dia 8.

​O artigo completo você confere diretamente no site do Artsy, que lança hoje também um hotsite em que você pode conferir com antecedência e exclusividade as galerias e obras que estarão na feira carioca.

Foto: Christian Gaul
Foto: Christian Gaul

Adriana Varejão, artista

Uma das maiores estrelas da arte do Brasil, Varejão ancorou suas atividades artísticas em terrenos muito mais profundos do que a superfície sedutora do Rio e suas florestas exuberantes. Prova de que a cidade é  lugar de muitas vozes, a obra de Varejão é uma profunda investigação de como as relações raciais estabelecidas no passado colonial brutal do Brasil ainda emergem em conflitos da vida cotidiana em pleno século 21. Suas pinturas com carnes que escoam através de fissuras em azulejos tradicionais portugueses brancos e azuis são um golpe deliberado contra a escola construtivista que dominou a vida artística do Rio por décadas. “A coisa interessante sobre Rio é que muitos artistas vivem aqui e se conhecem”, diz ela. “Somos todos amigos.” A artista, que se tornou colecionadora após o início da ArtRio, também reconhece a força da recém descoberta cena artística da periferia do Rio de Janeiro. “As coisas estão se afastando do tradicional lado sul”, diz a artista. “É uma das vantagens do Rio, uma cidade que consegue ter uma rica cena cultural e é, ao mesmo tempo, suficientemente afastada do circuito internacional, uma condição que lhe dá uma vantagem. Nós não estamos tão imersos em uma situação global. ”

 

Foto: cortesia
Foto: cortesia

Raphael Fonseca, curador 

O curador emergente Raphael Fonseca ganhou destaque pela primeira vez na nova cena do Rio em 2014, com o projeto “Deslize”, um programa centrado na estética do surf e skate, no então recém inaugurado Museu de Arte do Rio – um instituição cuja sigla é, muito apropriadamente, “MAR”. Com essa exposição, Raphael chamou a atenção para uma geração de artistas livres do que ele considera a influência quase traumática por Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape – os heróis de o movimento neoconcreto, primeiro movimento artístico de vanguarda a colocar o Rio no mapa mundial das artes. “O Rio sempre foi sobre esse tipo de gangorra, oscilando entre os estereótipos do que a arte carioca seria e outras vozes distintas”, diz Fonseca. “Eu tento desconstruir esses clichês, e, mesmo que ainda prevaleça um paradigma hegemônico aqui, é interessante ver que novas formas de investigação emergem, mais em preto-e-branco e menos tropicais, menos hedonistas e mais ruinosas, mais precárias.”