As ambiguidades abordadas por Elena Ferrante invadem as telas
Dakota Johnson e Olivia Colman em “A Filha Perdida” – Foto: Divulgação/Yannis Drakoulidis/Netflix

Ninguém sabe quem ela é, mas quem já leu suas histórias se sente próximo da autora. Isso ainda é pouco para resumir a intensidade dos livros de Elena Ferrante. Escrevendo livros potentes sob um pseudônimo, a escritora conquistou diversos leitores ao redor do mundo, que compartilham teorias sobre quem realmente é a mente por trás dos livros.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

Enquanto muitos acreditam que Elena possa ser, na realidade, Anita Raja, tradutora da mesma editora italiana que publica seus livros e esposa do escritor napolitano Domenico Starnone (conhecido como Nino, nome de um dos personagens centrais de sua tetralogia), algumas teorias afirmam que o próprio Starnone pode estar por trás das palavras que carregam as histórias fortes. Mas a verdade é que isso pouco importa.

Na humilde opinião da repórter por trás desse texto – apenas mais uma fã das obras de Ferrante -, só uma mulher pode captar com tanta voracidade a intensidade das experiências femininas narradas pela autora. A amizade visceral de Lenu e Lina, protagonistas da tetralogia napolitana iniciada pelo livro “A Amiga Genial”; as mudanças na vida de Giovanna, em “A Vida Mentirosa dos Adultos” e a ambiguidade da maternidade, em “A Filha Perdida”, são alguns dos assuntos abordados pela autora em suas obras que unem literatura, entretenimento e reflexões através de uma escrita fluída.

As adaptações

As ambiguidades abordadas por Elena Ferrante invadem as telas
Olivia Colman em “A Filha Perdida” – Foto: Divulgação/Yannis Drakoulidis/Netflix

A complexidade dos contos de Ferrante são tão sedutores que as páginas dos livros, as discussões literárias e as indicações entre amigas não foram suficientes para abrigar a amplitude dos tópicos: eles contagiaram a indústria cinematográfica. Nesta sexta-feira (31.12), a adaptação de “A Filha Perdida” chegou ao catálogo da Netflix e já se tornou um dos tópicos mais comentados da semana – ofuscado apenas pela briga sem resposta correta sobre a qualidade da distopia “Não Olhe Para Cima”.

O filme levantou discussões em diversos níveis e sobre diferentes tópicos, como a verossimidade da personagem principal, Leda, interpretada por Olivia Colman; o fim da romantização da experiência da maternidade; as ambiguidades presentes no ato de “ser mulher”.

A obra pode pegar de surpresa quem nunca havia consumido Elena Ferrante, mas a verdade é essa: elas são indigestas e não foram feitas para serem analisadas de forma rápida. Não por acaso, o trabalho da autora é conhecido como “mergulho na alma feminina” e foi feito para gerar aquela ressaca literária gostosa e desconfortável, em que ao final de um livro, as personagens fazem parte de você, você faz parte delas e leva dias para que reflexões internas sobre os tópicos abordados esfriem – se é que algum dia elas esfriam.

As ambiguidades abordadas por Elena Ferrante invadem as telas
Maggie Gyllenhall, Olivia Colman e Dakota Johnson – Foto: Divulgação/Yannis Drakoulidis/Netflix

O filme também marca uma série de estreias, entre elas a de Maggie Gyllenhaal como diretora. “Quando terminei de ler o livro, senti que algo secreto e verdadeiro havia sido dito em voz alta. E fiquei perturbada e confortada com isso ao mesmo tempo. Imediatamente pensei o quão mais intensa seria a experiência em um cinema, com outras pessoas por perto. E comecei a trabalhar nesta adaptação. Acho que o roteiro atraiu outras pessoas interessadas em explorar essas verdades secretas sobre maternidade, sexualidade, feminilidade, desejo. E estou emocionada em continuar minha colaboração com atores e cineastas tão corajosos e emocionantes”, conta a atriz em entrevista à Bazaar UK.

A produção também marca a primeira vez em que uma obra de Ferrante é adaptada por uma mulher – “Amor Molesto” (1995) é dirigido por Mario Martone, “Dias de Abandono” (2005), por Roberto Faenza e a série “A Amiga Genial” por Saverio Costanzo. O fato acrescenta ainda mais valor ao filme e coloca sob o holofote três mulheres fortes e talentosas: Maggie, Olivia e Dakota Johnson.

Por isso, deixe de lado pressupostos e fantasias e se jogue nas palavras – ou encenações – de Ferrante. Mas já deixo avisado: é um caminho sem volta.