Jean-Pierre Léaud e Claude Jade sendo dirigidos por Truffaut em Domicílio Conjugal (1970). Foto: reprodução
Jean-Pierre Léaud e Claude Jade sendo dirigidos por Truffaut em Domicílio Conjugal (1970). Foto: reprodução

por Carolina Vasone

Um personagem obcecado por todas as pernas femininas que caminham pelas ruas, acompanhadas pelo movimento de suas saias, alongadas por saltos altos. Figurinos pensados para refletir o estilo dos anos 60 e que marcaram época, assinados por Yves Saint Laurent e usados por Catherine Deneuve em A Sereia do Mississippi (1969), ou feitos por Pierre Cardin para Jeanne Moreau, então mulher do estilista (e de quem Truffaut a “roubou”) em A Noiva Estava de Preto (1968). François Truffaut passa longe da definição de fashionista, mas sua paixão pelas mulheres o aproxima da moda, um dos pretextos para interessados por cinema e comporta¬mento fashion anotarem na agenda o dia 14 deste mês (não coincidentemente, data da Queda da Bastilha, marco mais im¬portante da França), quando abre no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, a expo Truffaut: um Cineasta Apaixonado.

Cena clássica do filme Jules & Jim (1961). Foto: reprodução
Cena clássica do filme Jules & Jim (1961). Foto: reprodução

“Em geral, Truffaut era muito clássico na sua abordagem em relação à moda, justamente porque ele não queria estar na moda. O figurino, na maior parte das vezes, era discreto. A nou¬velle vague reivindicou a liberdade dos códigos do cinema fran¬cês dos anos 1950. Suas atrizes, então, se vestiam de maneira livre, como se andava nas ruas”, ressalta, em entre¬vista à Bazaar, o francês Serge Toubiana, diretor da Cinemateca Francesa, responsável pela organização da mostra, que comemora os 30 anos de um dos pais da nouvelle vague com mais de 600 itens, entre correspondências, fotos, roteiros e trechos de filmes. Biógrafo do cineasta (ele é coautor do excelente François Truffaut, uma Biografia, lançado no Brasil pela editora Record), Toubiana aponta, porém, uma obsessão do ci¬neasta por essa relação entre roupas e mulheres, sugerida em O Homem Que Amava as Mulheres, de onde vem o personagem ci¬tado na primeira frase deste texto. “Uma das mulheres da histó¬ria tem uma loja de roupas. O herói, interpretado por Charles Denner, aparece várias vezes em frente à vitrine, onde para, a fim de admirar as moças e suas pernas. Há uma dimensão feti¬chista neste filme, que indica, talvez, uma obsessão do próprio Truffaut com esse tema.”Movimento francês do qual é um dos expoentes, ao lado de nomes como Jean-Luc Godard, Alain Resnais, Eric Rohmer e Claude Chabrol, a nouvelle vague em si é um ícone fashion dos anos 60. Marco do gênero, Acossado (1960), de Godard (cujo argumento foi escrito por Truffaut), cravou para o mundo a imagem da sedução despretensiosa à francesa com a atriz Jean Seberg de calça preta, mocassins e ca¬miseta listrada gritando New York Herald Tribune enquanto ven¬dia jornal na Champs-Elysées. Essa atmosfera da nouvelle vague poderá ser sentida tanto nas peças exibidas como na cenografia, feita exclusivamente para a versão brasileira da mostra.

“Esta é uma exposição não só para cinéfilos, mas para inte¬ressados em cinema e em François Truffaut de maneira geral. A montagem traz, por exemplo, uma sala dedicada exclusiva¬mente às mulheres importantes na obra do cineasta. Também disponibilizará trechos do áudio da famosa entrevista que Tru¬ffaut fez com Alfred Hitchcock na época em que trabalhava na [revista francesa] Cahiers du Cinéma”, conta André Sturm, dire¬tor e curador do MIS, lugar escolhido por Toubiana como o primeiro no mundo a receber a exposição depois do término de sua montagem na Cinemateca Francesa de Paris, em feve¬reiro passado.

+ de 14 de julho a 18 de outubro :: mis-sp.org.br