Bárbara Colen – Foto: Luiza Ananias

A atriz mineira Bárbara Colen, 36 anos, vive atualmente a ex-modelo Rose, em “Quanto Mais Vida, Melhor!”, da TV Globo, personagem que contracena diretamente com o médico Guilherme, papel de Mateus Solano. Ela já passou poucas e boas com a ex-sogra, vivida pela atriz Ana Lucia Torre, e tem um romance mal resolvido com Neném, Vladimir Brichta, ou seja, há muita coisa acontecendo na trama. 

Aliás, sobre contracenar diretamente com Solano e Ana Lucia, Bárbara diz: “São duas pessoas incríveis, generosas, bem-humoradas, além de atores impecáveis, extremamente profissionais. Dei muita sorte porque em uma primeira novela tem um mundo de coisas para se aprender.” Quando a um final feliz com Neném, ela prefere deixar para o público, pois não quer dar spoiler.

Dona de inúmeros papéis no cinema, como exemplo a incrível Teresa, de “Bacurau”, Bárbara é uma atriz de peso, e faz sua principal personagem na TV agora, no horário das 19h. “Para mim, o cinema é como meu habitat natural. Não sei muito bem porque a minha carreira aconteceu assim. Comecei a fazer filmes e passaram a me chamar mais e mais e, nesses seis anos, a coisa não parou.”

Formada em direito, antes de ser atriz trabalhou no Ministério Público, em banco, na Prefeitura de BH e na companhia energética da mesma cidade. Mas ela também se formou em um curso de Belo Horizonte chamado Cefar (Centro de Formação Artística) e que é do Palácio das Artes, o maior teatro da cidade. Era um curso intenso de três anos, de segunda a sexta, quase uma faculdade. “Depois fiz uma pós-graduação de cinema, em Barcelona. Foram os cursos oficiais. E fiz muitas oficinas também, na maioria de audiovisual.” Aos 25 anos decidiu que sua vida devia dar uma guinada, e partiu para a atuação. Sua estreia foi no longa-metragem “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, daí em diante não parou mais de fazer cinema. E vem mais filme por aí. “Fizemos um filme em Goiás, em 2019, chamado “Fogaréu”, e que acabou de ter sua premiére no Festival de Berlim”, conta orgulhosa. 

Bárbara Colen – Foto: Luiza Ananias

Feminista de carteirinha, Bárbara diz que “qualquer mulher do nosso tempo, que deseje ser vista como um indivíduo autônomo, dona da sua ação e desejo, é uma feminista”. “Acho que sou feminista desde que nasci. Não consigo aceitar um mundo em que preciso me sentir inferior, em que tenha que estar subordinada a um sistema patriarcal e limitar minha ação no meu trabalho, na minha vida, pelo fato de ser mulher”, afirma.

Leia a seguir entrevista de Bazaar com a atriz.

O que estudou?

Eu me formei em um curso de Belo Horizonte chamado Cefar (Centro de Formação Artística) e que é do Palácio das Artes, o maior teatro da cidade. Era um curso intenso de três anos, de segunda a sexta, quase uma faculdade. Depois fiz uma pós-graduação de cinema, em Barcelona. Foram os cursos oficiais. E fiz muitas oficinas também, na maioria de audiovisual.

Trabalhou com outras coisas senão como atriz?

Eu me formei em direito e trabalhei anos no Ministério Público. Antes disso, já tinha trabalhado em banco, na Prefeitura de BH e na companhia energética de lá. Eu era uma especialista em concursos públicos (risos). Durante um tempo, me ressentia por ter começado tão tarde a estudar e trabalhar como atriz porque já sabia que era o que queria fazer… Mas hoje em dia estou conciliada com isso. Acho que cada um tem seu tempo, ainda mais na profissão de atriz. As experiências de vida que vamos acumulando são mais importantes que muitos cursos.

Como começou sua carreira? Ou seja, como você se descobre atriz?

Apesar de ter começado o curso aos 25 anos, considero que minha carreira começou realmente quando tinha 29. Vem o retorno de Saturno e a sensação de que já não se é tão jovem mais. Essa foi uma idade que mudou minha relação com o tempo. Já não podia mais ficar abrindo possibilidades e sentia que precisava me decidir, focar para que acontecesse. Foi um momento decisivo para mim porque foi quando decidi me dedicar exclusivamente à atuação. Tinha marcado a demissão para a semana seguinte e, na semana anterior, o Kleber Mendonça me chamou para fazer o “Aquarius”. Foi uma sincronicidade daquelas decisivas.

Quais foram os papéis mais marcantes na sua carreira?

É muito difícil, realmente, escolher um mais marcante. Durante esse tempo, tive processos muito intensos no cinema e cada personagem tem um pedaço da minha história. Mas acho que, em termos de carreira e projeção, diria que foram a Teresa, de “Bacurau”, e agora a Rose, em “Quanto Mais Vida, Melhor!”.

Como surgiu o convite para “Quanto Mais Vida, Melhor!”?

Foi muito inesperado. Um dia, no meio da tarde, recebo uma ligação do Gui Gobbi, produtor de elenco, me falando que iriam fazer a novela e tinham pensado em mim para um papel. Mas já estava super em cima porque ele me ligou em setembro e as gravações estavam previstas para novembro. Fiquei bem surpresa, mas, no fundo, achava que não seria possível fazer por uma questão de datas. Mas mandei um self-tape e eles gostaram. Aí o Allan [Fiterman], diretor, entrou em contato comigo, fiz uma segunda leitura com ele e deu certo!

Bárbara Colen – Foto: Luiza Ananias

Com você se inspirou para o papel, a ex-modelo Rose?

Eu tive pouco tempo para fazer uma preparação para a Rose e ainda tinha a questão da pandemia que, na época, ainda estava com muitas restrições. Mas já tínhamos uns 40 capítulos escritos – o que me possibilitou chegar mais perto da personagem, entender melhor o arco dela e as suas nuances. O fato da Rose ser uma ex-modelo me trouxe elementos para a composição corporal e para o seu estilo, por exemplo. E, nesse sentido, acho que a Gisele foi uma boa inspiração. Além disso, a Rose tem esse quê de heroína romântica, em uma novela que é do gênero comédia, então, passei a ver muitas comédias românticas também para entender melhor os tempos e a linguagem.

Que tal contracenar com Mateus Solano e Ana Lucia Torre?

São duas pessoas incríveis, generosas, bem-humoradas, além de atores impecáveis, extremamente profissionais. Dei muita sorte porque em uma primeira novela tem um mundo de coisas para se aprender. Coisas técnicas realmente. A gente começa meio perdido. Então, é muito importante ter colegas dispostos a estar junto, a ajudar. E ambos me ajudaram em todos os sentidos possíveis.

Você vê um final feliz para Rose e Neném, na trama?

Difícil responder essa pergunta sem dar spoiler! Eu acho que, independentemente do que acontecer entre eles, seja estando juntos ou separados, são personagens que têm uma generosidade e um carinho com os outros que fazem deles pessoas felizes.

Quais são os próximos projetos? Vem cinema por aí? Se sim, o quê?

Vem cinema por aí! Fizemos um filme em Goiás, em 2019, chamado “Fogaréu” e que acabou de ter sua premiére no Festival de Berlim. Estou muito feliz pelo filme estrear em um festival tão importante! E ansiosa para ver!

Como o cinema se insere na sua carreira, porque você fez vários filmes.

Para mim, o cinema é como meu habitat natural. Não sei muito bem porque a minha carreira aconteceu assim. Comecei a fazer filmes e passaram a me chamar mais e mais e, nesses seis anos, a coisa não parou. Acho que, no cinema, encontro mais essa possibilidade de ter personagens que me permitem dizer exatamente o que quero dizer como artista. E gosto muito do processo também. O cinema tem essa coisas mais próximas, principalmente o cinema independente e com equipes menores. Eu adoro a sensação da empreitada, de um grupo de pessoas reunido e apaixonado por uma história.

Você é feminista, como vê o feminismo nos dias atuais?

Qualquer mulher do nosso tempo, que deseje ser vista como um indivíduo autônomo, dona da sua ação e desejo, é uma feminista. Acho que sou feminista desde que nasci. Não consigo aceitar um mundo em que preciso me sentir inferior, em que tenha que estar subordinada a um sistema patriarcal e limitar minha ação no meu trabalho, na minha vida, pelo fato de ser mulher. Sei que, muitas vezes, sou silenciada e passo por situações em que o machismo me oprime, mas, enquanto eu estiver viva e sã, vou lutar e gritar para mudar esse sistema. E sou uma otimista e acho que já avançamos muito. Vejo as meninas mais jovens com outra postura em relação à sua individualidade e independência. Mas… vivemos em um País com um índice brutal de feminicídio e é evidente que temos muito caminho pela frente ainda.

E a causa preta, acha necessário um discurso antirracista permanente?

Outro dia liguei a televisão e, no mesmo telejornal, vejo um video do espancamento de Moïse Kabagambe e outro do assassinato de Durval Teófilo Filho, que chegava em casa com a sua mochila. Sem entrar no mérito da exibição desses vídeos, tema que por si já me parece bem complicado, mas o fato é que vivemos em uma sociedade que normaliza o genocídio das pessoas pretas. A principal pauta da causa preta no Brasil ainda está centrada na preservação do direito mais básico de um ser humano, que é a vida. Isso demonstra o quão distantes estamos de uma sociedade igualitária em termos raciais.

Como você cuida da beleza, é ligada em rituais?

Eu sou curiosa nesse sentido. Me considero bastante vaidosa, mas sempre tive pouca paciência para me dedicar aos rituais de beleza. Mas é fato que, à medida em que o tempo foi passando, fui me dedicando mais ao tema. Hoje, tento manter uma rotina diária de cuidado com a pele e com o cabelo. Sem muita neura também. Tento levar como um momento meu, de carinho para mim.

E do corpo?

Eu sempre me exercitei. Estar ativa fisicamente é algo fundamental para me sentir tranquila e equilibrada: eu durmo melhor, como melhor, penso melhor. Há uns oito anos, descobri o ioga e foi algo bem importante na minha vida, reduziu demais minha ansiedade. Aí tento manter um ritmo regular, ainda que seja difícil conciliar quando estou trabalhando.

O que tem lido?

Tenho lido Ailton Krenak e uns livros de psicanálise. É um tema que tem me interessado cada vez mais. Acabei agora uma biografia do Jung.

O que gosta de escutar?

Eu sempre fui muito eclética no quesito musical. Minha retrospectiva do spotify é uma loucura! (risos). Ultimamente tenho ouvido Belchior, Giovani Cidreira, Billie Eilish Leon Bridges.

Bárbara Colen – Foto: Luiza Ananias

Como lida com as redes sociais? Acha que as redes são uma forma de expressão importante?

Ainda tenho uma relação distante com as redes sociais. Não é algo que faço com naturalidade. Sou muito imersa no momento presente, sou daquele tipo de pessoa que esquece o telefone em algum canto da casa e pode ficar horas sem ver. Então, pra mim, é difícil pensar “tenho que tirar uma foto” ou “vamos fazer um vídeo para postar depois”. No processo de estreia da novela, por exemplo, foi uma tristeza porque, depois que estreou, pensei que poderia ter feito muito mais material de bastidores. Mas tenho consciência da importância das redes sociais, principalmente na carreira de um ator, então tento me esforçar para dominar melhor a linguagem. Mas não acho que seja uma evolução em termos da nossa autoexpressão. Acho que os aplicativos têm um formato e regras que atendem aos interesses de empresas específicas e somos muito mais monitorados do que imaginamos. Além disso, até o debate tem se reduzido, cada vez mais, a posições maniqueístas e extremadas, que não conseguem abarcar a profundidade e complexidade de muitos temas importantes. Quando todo mundo precisa falar, cria-se um problema na qualidade da escuta. E sem escuta é difícil construir novos lugares de pensamento.