Bárbara Paz estreia como cineasta com filme sobre Héctor Babenco

Premiado em Veneza, o documentário estreia hoje na 43ª Mostra Internacional de Cinema SP

by redação bazaar
Foto: Leo Cestari

Foto: Leo Cestari

Por Mariane Morisawa

Bárbara Paz é mais conhecida por sua carreira nas telas e nos palcos. Mas sua estreia como cineasta, o documentário “Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”, não poderia ter sido melhor. Ela ganhou o prêmio de melhor documentário da seção Veneza Clássicos no Festival de Veneza, em setembro e, agora, o longa vai ser exibido na Mostra de São Paulo neste domingo (20.10), no Theatro Municipal.

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O filme nasceu da necessidade de registrar as memórias de Héctor Babenco (1946-2016), diretor de clássicos do cinema brasileiro, como “Pixote, A Lei do Mais Fraco”, e indicado ao Oscar por “O Beijo da Mulher Aranha”. Babenco foi marido de Bárbara de 2010 até sua morte. “Eu prometi que ia terminar este filme”, disse a atriz e cineasta, de 44 anos, à Bazaar, recém-chegada do festival.

Foto: Divulgação

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O que significou ter ganhado o prêmio em Veneza?
Foi uma surpresa linda, porque era um filme muito pessoal, de amor, feito com amor, sobre uma despedida, e que tocou as pessoas – muitas que nem conheciam o Héctor. Ter deixado essas pessoas com paixão e vontade de conhecer esse homem e seus filmes já valeu a pena. Fora que o Brasil ganhou poucas vezes prêmios no Festival de Veneza, eu fui a primeira mulher brasileira. E isso é tudo muito importante por causa do momento em que estamos vivendo no País.

Sempre quis ser cineasta?
Sim! Por isso casei com um cineasta! Sou cinéfila. Fiz vários curtas. Mas não tive condições de parar para fazer um longa. O Héctor me deu força, me disse que eu tinha de fazer o primeiro para fazer o segundo.

Seu foco no documentário é o homem, mais do que seus filmes. Por quê?
No início, eu queria fazer um filme de memória, porque a memória dele estava indo embora, e ele não queria esquecer das coisas. A ideia era revisitar alguns lugares, reencontrar algumas pessoas, mas não deu tempo, ele morreu antes. Demorou um tempo para encontrar o filme, porque poderia ser muito triste, só hospital. Acabou sendo uma costura minha de memória, de imagens e sonhos.

Foto: Divulgação

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Ele teve alguma resistência a ser tema de um documentário?
Nenhuma, pelo contrário. Termina logo essa m…, ele falava. Só que, toda vez que a gente começava, ele caía no hospital. A única coisa foi que tentei colocar uma equipe dentro de casa, não deu. Ele só queria falar comigo, queria que fosse uma coisa íntima. Comigo ele não era o Héctor que era para os outros. Porque tinha o Héctor público, o personagem. Então a gente estava fazendo tudo junto, de comum acordo. No último ano, ele estava com mais urgência, porque a doença piorou.

Ser tão próxima do objeto do seu filme foi difícil?
Muitas coisas eu sofri bastante em filmar e depois ver, quando ele já não estava mais aqui. Ele tinha me pedido para registrar. Mas no final pensei: Deixo isso? É justo? Então, mesclei. Deixei o filme mais leve. Tem um tom de despedida, mas de que a vida é boa se você faz o que ama até o fim. Foi o que ele quis fazer, filmar até o fim. Muita gente duvidou de você por ser atriz, mulher do Héctor, mulher? E ainda uma mulher mais jovem! Claro, mas isso só me dá mais força para continuar. Se eu fosse parar para escutar tudo o que falam, não faria nada na minha vida. Foi muita luta para terminar esse filme, por ser mulher, por ser mulher mais jovem, por ser mulher do Héctor e por ser atriz. Mas eu sei do que sou capaz.

Lançar o filme significa o fim do luto?
Luto é esquisito para mim. Passei minha vida inteira em luto, se for assim. Não penso em luto. A gente vai digerindo. Perder o Héctor foi diferente de tudo o que passei. Não tenho essa pausa para o luto. A minha pausa, preencho com criação. Estou pronta para tudo. O Héctor estava vivo esse tempo todo, enquanto fazia o filme, e agora o entreguei lindamente. Agora ele é do mundo. E eu continuo minha jornada aqui nesta Terra.