Barbara Paz veste Louis Vuitton – Foto: Bob Wolfenson, com styling Larissa Romano

O primor da direção, na opinião de Bárbara Paz, se compara ao reger de uma orquestra, equilibrando diferentes habilidades e tons, além da curiosidade e paixão pelo ser humano. “Sempre tive um olhar fotográfico, só não virei fotógrafa porque caí para a carreira de atriz. Fotografei, pintei, gosto de música e pintura. Então, para mim, foi a junção das coisas que mais amo e sei fazer”, conta à Bazaar a atriz e diretora, a caminho de sua casa em Outeiro das Brisas, na Bahia, na companhia de Federico Fellini, seu golden retriever, de 5 meses.

A vida toda ela sonhou em fazer um longa, mas não imaginava que o primeiro seria sobre o marido, o cineasta Héctor Babenco – que por 30 anos conviveu com um câncer e morreu aos 70 anos, em 2016. “Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”, que estreia domingo (21.02) no Canal Brasil.

Dos últimos nove anos em que esteve ao lado do diretor, Bárbara capturou sete deles sob olhar íntimo perante o argentino naturalizado brasileiro. Conseguiu condensar, em 73 minutos, a luta diária em continuar sobrevivendo. “Muitas pessoas passam a vida atrás do escudo. Demoram para se aceitar ou serem elas mesmas, só com poucas pessoas. Tentei deixar o mais cru possível”, conta ela, que aparece em alguns takes para deixar o personagem mais real e humano.

Barbara Paz veste Louis Vuitton – Foto: Bob Wolfenson, com styling Larissa Romano

De certa forma, perpetuar outro olhar do diretor sisudo, conhecido por trabalhos como “Pixote, A Lei do Mais Fraco” e “Carandiru”. Em uma das cenas mais belas, que tem esse tom visceral, Bárbara ganha de presente uma câmera de Babenco, que ajuda a manusear. Espécie de troca de batuta, pois une a vontade dela em aprender e a dele em ensinar como maestro. “Vou me transformando nessa cineasta durante o filme”, explica sobre o roteiro construído ao lado de Maria Camargo.

A diretora estreante tinha acordado com Babenco em não fazer um filme de entrevistas ao conceber a obra, até porque ele estava vivo. Bárbara se distanciou do papel de mulher, seguiu a intuição e deixou a criatividade falar mais alto sem se prender à linha do tempo ou script de vida e obra, muito apoiada pela amiga, a também diretora Petra Costa, que assina como produtora associada ao lado do amigo do casal Willem Dafoe, a primeira pessoa a ver o corte final. “Ele me via no set e também me distanciando para fazer esse filme. Ficou muito tocado quando assistiu.”

A ideia inicial era desbravar vários trilhos de trem, tanto na Argentina quanto em Los Angeles, além do Brasil. “Continuar esse trem, sabe? Na vida, ele sempre foi um andarilho, um cara do mundo, sem raiz como ele falava”, compara. Inspirada por Agnès Varda e Wim Wenders, sua preocupação era saber se as pessoas iriam entender a narrativa.

Barbara Paz veste Louis Vuitton – Foto: Bob Wolfenson, com styling Larissa Romano

Foram três anos com algumas mudanças até chegar a Cao Guimarães como montador. Nas gravações, Bárbara não percebeu que Babenco estava partindo, envelhecendo, se despedindo. Compara as horas na ilha de edição com o envelhecer do vinho. “Tem que decantar, se afastar, olhar de novo. Por isso que em um filme de arte como esse, pessoal, você não pode ter pressa.” Durante o processo, intercalou trabalhos de atuação. Pausas essenciais para voltar mais madura. “Não se termina uma montagem, desiste”, ri. Muitas vezes disse que não ia deixar de fora uma parte da vida dele. E teve de optar. “O melhor fotógrafo não é o que faz o melhor registro, mas aquele que sabe editar, dizer qual fica.”

Babenco assistiu apenas ao promo e deu o aval para que ela seguisse. “Ele chorou muito, foi emocionante”, recorda. Estava indo fazer exame para descobrir se o câncer tinha se alastrado, pois estava tendo lapsos de memória. Queria ter registrado quando o amado conversou por telefone com Jack Nicholson, amigo de longa data, pela uma última vez – no Natal que antecedeu sua morte. O que deixou de fora pode ser consultado no livro de memórias “Mr. Babenco: Solilóquio a Dois Sem Um: Hector Babenco e Bárbara Paz”.

Sem apoio do governo, Bárbara recorreu ao crowdfunding para se jogar na temporada de premiações americanas. “Esse governo é contra a cultura, acha que nós somos os vilões, que não tem sentido para um país. Isso é muito triste”, desabafa. Ano passado, Karim Aïnouz também não recebeu apoio na corrida com “A Vida Invisível”. “A gente sabe que está sendo apedrejado há muito tempo”, diz ela, que conseguiu o apoio da SPcine (agência ligada ao Governo do Estado de São Paulo, com Laís Bodanzky na presidência), entre colaboradores. “A gente tem que sonhar e acreditar, ser utópico. Senão, não faz o sonho acontecer. É preciso torná-lo possível. Para mim, ganhar o Festival de Veneza (com o prêmio de melhor documentário) já tinha sido o ápice, incrível, maravilhoso e único.”

Hora da colheita

Barbara Paz veste Louis Vuitton – Foto: Bob Wolfenson, com styling Larissa Romano

Em tempos de solidão pós-pandêmica, uma mulher oferece um serviço para dormir de conchinha e sem sexo, apenas sua companhia. É a proposta do curta “Ato”, gravado em outubro passado, em Ouro Preto, Minas Gerais, com Alessandra Maestrini e Eduardo Moreira, e direção da própria Bárbara.

A ideia é que ele corra os festivais este ano e, em uma segunda etapa, se transforme em longa. “As pessoas estão muito solitárias nesse mundo em suspenso”, diz ela sobre o prelúdio da história que pretende contar. Em curso, também dirige o longa “Silêncio”, com produção de João Queiroz e roteiro de Antonia Pellegrino. Fala de uma artista que perdeu a audição e tem temática semelhante ao aclamado “O Som do Silêncio”, de Darius Marder.

Como atriz, Bárbara Paz deve voltar às novelas ainda este ano, na trama “Além da Ilusão” (escrita por Alessandra Poggi), folhetim das 18 horas, da Globo. Outro projeto de ficção envolve o filme baseado em sua vida, que está desenvolvendo aos poucos. “Tenho muitas coisas para contar. Boa parte da infância e adolescência. Eu mesma quero fazer”, finaliza a primeira vencedora de um reality brasileiro, “Casa dos Artistas”, em 2001. Quando a pandemia acalmar, Bárbara ainda voltará a rodar o filme “A Porta ao Lado”, de Júlia Rezende, com Ícaro Silva e Leticia Colin, no Rio de Janeiro.