por Luísa Graça

Primeiro foi Lena Dunham, depois Amy Schumer. O estrelado diretor e produtor Judd Apatow gosta de apadrinhar garotas que falam abertamente sobre sexo e de retratar personagens femininas com camadas e vida sexual progressiva. Eis que o produtor de Girls e diretor de Descompensada, nome quente em Hollywood, tem uma nova protégée. Em Love, comédia romântica original da Netflix (que já está filmando a segunda temporada e deve estreá-la em fevereiro de 2017), co-criada por Apatow e pelo ator principal dela, Paul Rust, Gillian Jacobs encarna Mickey, uma verdadeira hot mess, programadora de rádio e metade de um improvável casal junto com Gus (Rust), tutor de atores mirins em sets de filmagem, meio nerd, meio neurótico. Uma espécie de Brad Pitt e Angelina Jolie do mundo bizarro, onde tudo o que pode dar errado vai dar.

Jacobs tem no currículo uma porção de personagens desastrosas e equivocadas – mas você ainda torce por elas, sempre, em mérito total da atriz. Assim como Britta Perry, da cultuada Community, e Mimi-Rose, de Girls, Mickey é também sexualmente liberada, sai com um monte de caras e, ao contrário da narrativa comum, nada muito terrível acontece com ela por causa disso. “São as regras antiquadas da TV que nos impedem de ver retratos realistas da sexualidade feminina”, pondera Gillian, em entrevista à Bazaar, em Los Angeles, cidade onde mora há dois anos. Sorte a nossa, a TV tem explorado mulheres e relacionamentos tais como eles são. Confusos, falhos e inconstantes.

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“Essas personagens são bastante humanas e honestas. Não sou tão bem ajustada. Quando interpreto alguém assim, sinto que podemos ser amigas e que ela não vai me julgar [risos].” Los Angeles é também o pano de fundo para os desencontros e desastres de Mickey e Gus, millenials sofisticados e sem desculpas, desesperados para encontrar o tal love. “LA é uma cidade difícil para ‘namorar’. Você passa tanto tempo sozinho dentro de um carro. É preciso um baita esforço para conhecer gente nova. Quando eu morava em Nova York, sentia que tinha mais oportunidades de conhecer pessoas naturalmente. Mas, pensando bem, namorar e encontrar o amor é difícil em qualquer lugar”, pondera. “Já tive muitas experiências ruins, porque não confiei na minha intuição e saí com gente que sabia que não era para mim, só para ver no que ia dar.”Gillian, 33 anos, soa tão verdadeira como as personagens que descreve. “Mas bem mais entediante”, diz. Não bebe, não fuma, não gosta de sair. Define uma palavra densa como amor com outras cheias de leveza: “É empatia e bondade”. Não é piegas ao dar conselhos; não é mimada quando diz que deseja mais da vida do que tem no momento. É feminista sem sermão – sonha dirigir filmes sobre mulheres e tecnologia (já fez um, o curta The Queen of Code). Aliás, não tem vergonha de dizer que tem sonhos ou que já alcançou alguns, nem mesmo o mais bobo deles: “Quando me mudei de Pittsburgh para NYC, ia a lojas de departamento só para provar roupas que jamais poderia comprar”, relembra, poucas horas antes de surgir embonecada na première da série, a bordo de um vestido Peter Pilotto, citando como estilistas favoritos Delpozo, Maison Kitsuné e a amiga Rachel Antonoff (irmã de Jack Antonoff, namorado de Lena Dunham – sim, Hollywood é uma bolha). Pelo que há de ameaçador e frágil, de bobo e ácido, em suas personagens e nela mesma, Gillian Jacobs, cheia de empatia, é a nova padroeira das jovens mulheres disfuncionais.