Foto: Reprodução Bazaar Art/Abril 2015
Foto: Reprodução Bazaar Art/Abril 2015

Por Kenya Zanatta

À primeira vista a pergunta parece ingênua, mas se revela extremamente difícil de responder.“O que é um artista?”, repete incessantemente a jornalista canadense Sarah Thornton a algumas das maiores celebridades da arte contemporânea. O britânico Damien Hirst, pintor e escultor milionário que cultiva a pose de bad boy, compara a arte ao crime. Já a sérvia Marina Abramovic, sacerdotisa da performance, afirma que o artista é “o oxigênio da sociedade”. Para o chinês Ai Weiwei, que chegou a ser preso devido ao conteúdo político de seu trabalho, o artista “é um inimigo das sensibilidades gerais”.

Depois de quatro anos de pesquisa e 130 entrevistados, Sarah Thornton selecionou 33 nomes para compor um inventário das diferentes maneiras de ser artista hoje. Seu livro, que será lançado no Brasil durante a SP-Arte, coloca em cena figurões do mundo da arte, como Cindy Sherman e Gabriel Orozco, em eventos mundanos ou na intimidade de seu ateliê. A obra também permite ao leitor descobrir artistas ainda restritos a um círculo de conhecedores, como o chileno Eugenio Dittborn e a americana Tammy Rae Carland.

O livro funciona por contrastes e comparações. A mais simbólica é entre Jeff Koons, um dos artistas vivos mais caros do mundo, e Ai Weiwei, proibido de deixar seu país devido ao ativismo político. Enquanto o chinês enfrenta o desafio de driblar a censura e organizar de maneira remota exposições ao redor do mundo, o americano administra a produção e a venda de suas obras com invejável tino comercial, evitando qualquer menção à política. A frequência com que se fala de dinheiro pode surpreender o leitor. Para Sarah, é quase impossível ser artista hoje sem estar, em maior ou menor medida, inserido no sistema.

Foto: Reprodução Bazaar Art/Abril 2015
Foto: Reprodução Bazaar Art/Abril 2015

“Sem o aval de galeristas, curadores, críticos e vendas, pode ser difícil ser percebido como artista, mas não significa que você não seja um. Essas marcas exteriores são importantes para que os artistas acreditem em si mesmos e continuem trabalhando. Muitos abandonaram a arte porque não as receberam”, analisa. Esse mesmo sistema, por sua vez, alimenta a obra de alguns dos personagens do livro. Damien Hirst “fez do dinheiro o tema fundamental de sua arte”, enquanto a americana Andrea Fraser critica a dinâmica do mercado em performances ousadas e satíricas.

Única brasileira perfilada no livro, Beatriz Milhazes, artista viva mais cara do país, compara seu ofício ao de um caixa de banco: “Venho cinco dias por semana ao estúdio e faço o meu trabalho. Presto atenção aos detalhes e tento não cometer nenhum erro”. Sarah Thornton elogia seu rigor e sua cultura, notando que a pintura de Beatriz é menos tradicional do que parece, “devido à sua maneira única de aplicar a tinta”.