De volta ao Brasil, cantora lança o inédito “Agora”, disponível nas plataformas (Foto: Luigi & Iango)

Depois de mais de duas décadas morando em Nova York, Bebel Gilberto voltou ao Brasil no início do ano com um álbum inédito debaixo do braço. “Agora” ([PIAS] Recordings) renova a parceria com o produtor musical Thomas Bartlett (que entre outros trabalhos assina a melancólica trilha sonora de “Call me By Your Name” ao lado de Sufjan Stevens). O sexto trabalho de estúdio é resultado de uma viagem a Puglia, na Itália, para onde a cantora foi sozinha, sem conhecer ninguém. “Acabei dando mais atenção às ideias. Às vezes, a gente tem e não as organiza”, conta ela em conversa via Zoom, enquanto brinca com a cachorrinha Ella (sim, uma homenagem à diva do jazz Ella Fitzgerald).

Por aqui, ocupa um apartamento cuja vista emoldura o Leblon, o Morro Dois Irmãos, o mar e o morro do Vidigal, no Rio de Janeiro. “Dá pra me exibir um pouco”, ri. Sobre o novo trabalho, ela taxa como “fora dos padrões” e relata: “Pegou de mim uma Bebel mais ousada, mais louca, mais madura, que se deixa errar, que tem os barulhos no fundo”, comenta. Tem até o primeiro take vocal de quando estava compondo a música. “Até isso tem no disco. Acho um barato porque você se permite, sai daquela tortura que é gravar um disco e a faixa perfeita, a voz perfeita. Tipo: olha, a emoção é essa, é isso que eu quero mostrar.”

Nas 11 faixas, Bebel aparece cantando em português e inglês (sua marca) e ainda arrisca o espanhol em “Bolero”. A primeira composta é a que abre o disco, “Tão Bom”, enquanto “O que Não foi Dito” dedica ao pai. Depois da viagem com tudo organizado, pré-gravado, com nome, voltou para Nova York e foi encontrar com Thomas para compor. O ensaio de capa foi clicado nos Estados Unidos antes de voltar ao País, sob direção criativa de Giovanni Bianco. Seu antecessor, “Tudo”, foi lançado em 2014. Este é o primeiro após a morte dos pais, que deixaram o plano físico com seis meses de diferença. Miúcha morreu em dezembro de 2018 e João Gilberto, em julho de 2019. Leia a íntegra:


O disco demorou três anos para ser construído. Como foi esse processo?
O legal é que ele foi feito em várias fases. Tem as composições de 2017, em 2018 a gente praticamente pegou o shape, o jeitinho que ia ser, do que eu queria falar. Musicalmente, também, e a gente acabou escrevendo 17 músicas. A gente teve que fazer uma pré-seleção e começamos em 2018. Mal sabia que em 2019 ainda ia estar compondo. E tem também tiveram as temporãs… Então, foi super bacana porque você acaba compondo mais e curtindo mais as novas, namorando as antigas. É muito legal.

E você tem alguma faixa favorita?
“Clichê” é uma música que gosto muito, é uma das minhas preferidas. Gosto do “Essence”. Gosto de todas, mas no momento acho que “Bolero”. Vou começar a falar de todas as músicas (risos).

Qual é a cara que quis dar para álbum, já que ele tem um quê de melancolia, de solitude. Mas ao mesmo tempo te mostra mais madura musicalmente.
Então, em Puglia eu ainda não tinha ideia, só as melodias. A partir do momento que a gente começou a compor, te garanto que já tinha cara porque o Thomas é uma pessoa que já imprime muito essa coisa do teclado. Acho que tudo isso está no disco, com certeza, mas tem um lado brincalhona também que aparece no “Agora”, que aparece no “Deixa”, no próprio “Na cara”. Acho que ele tem, que é uma coisa bem da minha personalidade, é um lado divertido, o lado melancólico e um lado tipo: vou falar sério. Estou abrindo meu coração em “O que Não Foi Dito” [que é uma homenagem a João Gilberto]. Até “Tão Bom”, que é uma música super sincera, só que mais suave.

É a primeira vez que você vai lançar um disco sem a bênção dos seus pais. Eles chegaram a ouvir o disco?
Minha mãe ouviu o disco todo. Ela estava bem presente nesse processo. Eu nunca pensei nisso, realmente. Acho que se começar a pensar assim, não vai ser bom. Sobre essa coisa da perda, que estou sofrendo, foi tanta avalanche, ainda veio a pandemia. Resolvi combinar comigo mesma que não vou me levar (tão) a sério. Estou lançando para os meus fãs, para pessoas que não me conhecem e quem está a fim de ouvir a nova música de Bebel. Quem está perto de mim, está sempre escutando. O que mais quero é que as pessoas tenham curiosidade. Tanta gente que está esperando por uma música nova… Agora, vamos ter.

Como disse, seu pai não teve a oportunidade de ouvir o álbum. Como ele era presente na sua vida? Quais as melhores recordações dele?
Não, ele não ouviu o álbum, infelizmente. Ele não era uma pessoa de ficar ouvindo. Tenho contado essa história do “Wave”, que é muito boa. Papai tinha esse poder. Você planejava ir embora tipo duas da tarde e quando percebia eram oito da noite e ainda estava lá (com ele)… Às vezes, até deixava de voltar para Nova Iorque para ficar com ele. Tudo era possível. Mas nesse dia (há cerca de quatro anos), estava no Rio, tinha de sair, estava com pressa. Disse a ele que ia passar rápido (em sua casa), pois realmente tinha que sair tal hora. Na despedida, ele disse: ‘quero mostrar coisa muito especial, volte aqui’.

Ele pega o violão e canta: “Da primeira primeira vez era a cidade, da segunda, o cais e a eternidade. Agora eu já sei da onda que se ergueu no mar”. Ele: ‘você entendeu?’. Eu: ‘mais ou menos’. Ele não é ‘A’ primeira vez (em tom agudo). É… ‘a primeira vez era a cidade… (mais grave). Entendeu?’. Aí quando eu entendi, falei: ‘obrigada, obrigada por ter me chamado. Obrigada por ter me mostrado que você ainda está procurando uma forma incrível de cantar “Wave” 50 anos depois de estar cantando a mesma música’. Acho que mostra muita dedicação do papai com fraseado, com a forma de cantar. E também, graças a Deus, de poder me passar isso porque pode ter certeza que toda vez que cantar essa música, nunca vou cantar a segunda parte alto. Essa coisa do cantar mesmo, de ser mais suave, de sussurrar, de brincar com o tempo. É uma coisa que sempre me lembro dele e, com certeza, foi o que melhor peguei convivendo (com ele), às vezes calada, vendo ele tocar a tarde inteira. Entende?

Depois de 27 anos morando em Nova York, cantora está de volta ao País (Foto: Luigi & Iango)

Como se deu o encontro com a Mart’nália para a música “Na Cara”? Vocês já eram amigas?
A gente se conheceu na infância, não lembro exatamente em qual situação. Mas o Martinho (da Vila, pai da Mart’nália) fez mil viagens para a África, que minha mãe participou. Tinham aqueles encontros de música, Brasil x Angola. Toda essa troca muito bacana de culturas. A Martnália estava sempre (me) rondando. A gente foi ficando mais amiga no começo dos anos 2000, dois mil e pouco. Temos muitos amigos em comum. Ela é muito divertida, muito musical. Tivemos vários encontros. A gente se encontrou no Festival de Berlim, onde cantamos juntas.

A gente se encontrava sempre em Nova York porque temos uma grande amiga, que os afilhados são dela. Ela sempre vai lá visitar. Numa dessas cantei para ela a melodia de ‘Na Cara’. Já tinha a melodia, mas não estava gravando ainda com o Thomas (aliás é um dos exemplos de músicas que nascem, às vezes, da melodia antes da voz ou a letra). Cantei, nunca mais falamos, ela viajou de volta para o Brasil. Um ano e meio depois, falei: vamos gravar. Cantamos um pouco, ela viajou (de volta) e não terminou a letra. Aí eu mandei uma mensagem por WhatsApp. Falei: Mart’nália, quero gravar tô aqui precisando da sua letra, ai ela mandou. E aí ficou essa letra com bom humor e com uma pitada de agora, do que a gente está vivendo, de tudo isso né. Foi meio que uma coincidência.

E quem são os artistas da nova geração que você gosta ou tem ouvido…?
A Letrux é muito incrível. Aliás, essa eu mandei um recado (nem sei se ela respondeu). Falei: quero ser sua amiga. Achava que era paulista, descobri há pouco que ela é carioca com cara paulista. (risos) Porque ela é tão assim especial, inovadora e ousada… Aqui (no Rio) é todo mundo meio hippie, aquele clima. Gostei muito dela e também da Dora Morelenbaum, que tem uma voz linda. Tem muita gente legal.

E você pensou em não lançar o disco por conta da pandemia?
Olha, quando começou (a pandemia), fiquei muito doente. Tive Influenza B. Entrei numas de me cuidar muito. Então, eu cozinhava. Sempre gostei (de cozinhar) mas era quase uma obsessão. Fazia todo o tipo de chá, emagreci, fiquei mais bem disposta porque estava cuidando de mim. Acho que nesse momento foi muito legal. Foi me ajudando a manter a disciplina sem sofrer. Claro que tiveram noites que eu virei a madrugada vendo todas as séries que você não consegue parar. Mas acho que estou mais disciplinada do que era. Pela questão de querer acordar bem, estar bem para não cair – por acaso – na depressão.

Tem alguma coisa que nunca contou para ninguém e gostaria de falar?
Talvez que eu planto, adoro plantar. Sou mãe de planta, também (risos). Em Nova York, eu tinha praticamente uma horta, aí começa a história da Bebel cozinheira. Outro dia achei uma foto de uma entrevista que dei ao “NY1”, que é tipo o “RJTV” de Nova York. O (apresentador) Budd Mishkin, foi me entrevistar (nos idos de 2014) e, quando foi embora, meu jardim estava uma loucura. Tinha maple tree, flores e ele ficou impressionado. Naquele Verão, obviamente, tive a ajuda de vários amigos (para montar). Tinha de dente-de-leão, de ervas a bananeira, árvore de flor de laranjeira, tomate, muita rosa, muita flor. Uma lavandinha. Sempre tem que ter uma plantinha, é sempre bom.