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Cabeças, obra de Antonio Dias – Foto: divulgação

Por Juliana Monachesi

Na performance de Berna Reale pelas ruas de Belém, documentada no vídeo Ordinário (2013) – que integra a exposição Cães Sem Plumas –, várias ossadas humanas são transportadas pela artista em uma plataforma aberta sobre uma espécie de carrinho de mão. Vestida de preto, ela promove o cortejo fúnebre que aqueles mortos não tiveram, já que foram enterrados em vala comum como indigentes. A artista, que é também perita criminal do Centro de Perícias Científicas do Estado do Pará – onde convive de muito mais perto que o habitual com as mazelas sociais brasileiras – acompanhou a descoberta das ossadas e a angústia indizível diante da ideia de pessoas mortas que nunca foram identificadas. A performance nas ruas de Belém foi, nas palavras de Moacir dos Anjos, o curador da mostra, “a forma que a artista encontrou de reapresentar estas pessoas à sociedade que as negligenciou”.

É de “cães sem plumas” como estes que tratam todas as obras da exposição que abre nesta quinta-feira (12.09) para o público no projeto Roesler Hotel – braço curatorial da Galeria Nara Roesler, em São Paulo. A expressão paradoxal, Moacir dos Anjos pegou emprestada a um poema de João Cabral de Melo Neto, que fala dos despossuídos como gente de que foi tomado até mesmo aquilo que não tem. Como as plumas ao cão. As obras de artistas celebrados, como Cildo Meireles, Claudia Andujar, Paulo Bruscky, Rosangela Rennó, e também dejovens como Paulo Nazareth, Regina Parra, Thiago Martins de Mello e Virgínia Medeiros tornam visível e sensível a realidade que teima em ficar escondida e recalcada nas grandes metrópoles: aquela dos moradores de rua, índios, presidiários, imigrantes ilegais e doentes mentais.

Emblemática entre as obras cuidadosamente selecionadas, para que a expo não se tornasse panfletária, é a retomada, por Cildo Meireles, de sua icônica série Inserções em Circuitos Ideológicos: Projeto Cédula, dos anos 1970. Assim como fez em 1975, carimbando em cédulas de um cruzeiro a pergunta “Quem matou Herzog?” e voltando a coloca-las em circulação, o artista agora estampa em notas de dois reais a pergunta “O que aconteceu com Amarildo?”, que são devolvidas ao sistema financeiro, com potencial de ir parar nas mãos de qualquer pessoa. Os dois trabalhos foram incluídos na exposição, assim como trabalhos que Cildo fez para a Bienal de Veneza de 2003, com fotos apropriadas de um jornal retratando uma chacina no Rio, e o famoso Zero Cruzeiro: uma cédula que ele criou, estampada, de um lado, por um índio, e, do outro, por um louco. “O valor conferido socialmente a estas pessoas continua sendo zero. Apesar de ser umtrabalho dos anos 1970, é muito atual”, comenta o curador.

Cães Sem Plumas @ Nara Roesler
De 12/9 a 9/11
Segunda a sexta, das 10h às 19h. Sábados das 11h às 15h
Avenida Europa, 655, jardim Europe, São Paulo – SP
nararoesler.com.br