Artista brasileira Laura Lima - Foto: Divulgação
Artista brasileira Laura Lima – Foto: Divulgação

Por Julia Flamingo

Tecidos, babados, dedais, fitas métricas, bordados, ferro, botões. O vocabulário tão associado ao universo da moda se faz bem presente no trabalho da artista plástica Laura Lima. Sua intenção, porém, não é produzir peças de roupa, e sim uma obra de arte.

No trabalho “Alfaiataria”, Laura leva máquinas de costura para dentro do museu. Entre a abertura e o fechamento das portas da instituição, alfaiates costuram sem parar e à vista do público. Ao final, os chamados “retratos” são criados a partir de desenhos e instruções da própria artista e resultam num total de 24 pinturas feitas de tecido.

Apresentada primeiramente em 2014, na ocasião da mostra The Fifth Floor, no museu Bonnefanten, em Maastricht, na Holanda, a obra será reapresentada no octógono da Pinacoteca de São Paulo, a partir de julho.

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Da série Novos Costumes (2007) - Foto: Divulgação
Da série Novos Costumes (2007) – Foto: Divulgação

Até lá, a artista mineira radicada no Rio de Janeiro terá muito chão para percorrer. Com a agenda lotada, ela inaugura sua nova individual na Fondazione Prada de Milão, em 15 de junho nesta sexta-feira (15.06).

A exposição será o ápice de seu 47º ano de vida. Em comum, as exposições incluem seres vivos na apresentação das obras e carregam um tom um tanto surreal ou absurdo. “Quero dar um novo sentido para as coisas. Eu as tiro do seu estado natural para questionar a sua existência e a maneira como as assimilamos”, explica Laura.

Já a coletiva “Lugares do Delírio”, aberta até dia 01.07, no Sesc Pompeia, propõe reflexões entre arte e loucura e expõe seu curioso trabalho “Ascenseur”. Uma mão que sai de uma fenda embaixo de uma parede tateia o chão numa busca incessante por uma chave, jogada alguns centímetros à sua frente. A simplicidade e o drama fazem parte da proposta. Já a reação do público – de incômodo, susto ou comiseração – é impossível de prever.

Trabalho da série Nomades (2008) - Foto: Divulgação/Galeria Luisa Strina
Trabalho da série Nomades (2008) – Foto: Divulgação/Galeria Luisa Strina

Os questionamentos da artista são diretamente influenciados pela formação em Filosofia, além das Artes Visuais. Ela nunca tinha ouvido falar em arte contemporânea até os 20 anos, quando ainda vivia em Governador Valadares (MG).

Aos 23, já morando no Rio, Laura teve uma estranha epifania: levou uma vaca para passear à beira-mar. O trabalho inaugurou o corpo de obras denominadas “Homem=Carne/Mulher=Carne”, na qual qualquer ser vivo é encarado por ela como matéria.

Assim, a artista não considera nenhum de seus trabalhos performances: são imagens em movimento, apresentadas durante todo o período de uma exposição, como qualquer outra obra. Ela conta ser irônico quando, em 2000, o MAM comprou duas de suas criações: “As primeiras performances adquiridas na história da arte brasileira foram aquelas que eu mesma não chamo de performance”, brinca.

Marcantes em sua carreira são exposições como “Ágrafo”, em 2015, na Galeria Luisa Strina, em que gatos conviveram com obras durante uma semana, antes que qualquer visitante pudesse entrar. Para a Bienal de Lyon, em 2011, prendeu plumas de Carnaval em galinhas, que ostentaram sua aparência pomposa num galinheiro instalado em plena exposição.

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Performance de Laura Lima - Foto: Divulgação/Galeria Luisa Strina
Performance de Laura Lima – Foto: Divulgação/Galeria Luisa Strina

Em sua mostra na Fondazione Prada, ela expõe três obras ambiciosas em volumes diferentes de cisternas. Na primeira, constrói uma escultura monumental de uma escada sinuosa. Enquanto, no seu topo, um telescópio aponta para uma claraboia, um dos seus patamares terá espaço para que astrônomos ministrem aulas para visitantes. No segundo ambiente, Laura constrói um pêndulo gigante que se movimenta a partir da rotação da Terra. No centro, uma pintura do catalão Salvador Dalí, que nunca fica parada: “Tem coisa mais esquisita do que uma exposição em constante movimento?”” provoca. A terceira obra, única já apresentada anteriormente, em Varsóvia, consiste num pássaro hiper-realista de penas pretas e uma envergadura de 11 metros.

Trabalho da série Retratos (2014-2015) - Foto: Divulgação/Galeria Luisa Strina
Trabalho da série Retratos (2014-2015) – Foto: Divulgação/Galeria Luisa Strina

Para completar, o universo surreal da artista será explorado também em individuais no MAC Niterói, em setembro, e na galeria “A Gentil Carioca”, em dezembro. Ufa! No meio disso tudo, ela ainda cria “Orfeu”, seu filho de 10 anos, e diz ter uma vida calma, “que mais parece de interior”, em uma vila no bairro do Catete.

Trabalho da série Retratos (2014-2015) - Foto: Divulgação/Galeria Luisa Strina
Trabalho da série Retratos (2014-2015) – Foto: Divulgação/Galeria Luisa Strina

Slight Agitation 4/4: Laura Lima
Fondazione PradaLargo Isarco, 2, Milão, Itália
De 15 de junho até 22 de outubro