Brígida Campbell – Foto: Arquivo Pessoal

Brígida Campbell, 39 anos, sempre enxergou os espaços urbanos como uma tela em branco. Suas mensagens questionadoras se manifestam por meio de reflexões em muros, placas, painéis, faixas de rua e até mesmo intervenções de azulejaria.

Com a impossibilidade de transitar por conta da pandemia, se viu trancada em seu ateliê, em Belo Horizonte, confeccionando experimentos de cores, luzes e observações do cotidiano com outro tempo e dinâmica. “Uma forma, também, de se conectar com a gente mesmo, olhar para si e saber o momento de estar com você”, conta em entrevista à Bazaar. “Olhe para você, para sua mente e pensamentos. Dê uma freada em tudo isso que está vendo, que está gerando tanta ansiedade e tristeza”, adverte.

Durante a quarentena, a artista vivenciou uma fase de criatividade mais solitária e poética, longe das telas de celular, tablet e televisão. “Tenho me dedicado muito a pensar nas relações humanas, com a natureza e o pensamento como colagem. A gente vai acumulando imagens, pensamentos e sensações”, reflete sobre a vida versus processo.

Resultado desse exercício é a série que está desenvolvendo, chamada “Me Coloque na Caixa de Coisas Inexplicáveis” e “Você Saberá Quem Sou”, composta por seis telas feitas com tintas acrílica e spray, bastão de óleo e canetas de cores vibrantes. “São peças bem gráficas, com elementos figurativos como copo d’água, geodésica, passarinho… Mistura entre as imagens abstratas, formas e figuras que vão emergindo”, reforça.

Brígida Campbell – Foto: Arquivo Pessoal

Na mesma toada, criou desenhos (plataforma pouco explorada até então) para a coletânea “Pensamentos Temporariamente Perdidos”, que recentemente ganhou exposição online no Espaço Experimental de Arte (EXA), da capital mineira. “Sabe quando você vai fazer um negócio e esquece?”, pergunta. “Aquela coisa não deixou de existir. Foi para algum lugar. Daqui a pouco vai voltar. É como um carro que vira a esquina: você não vê mais, mas ele está adiante”, completa.

Outras duas obras compõem a coletânea “O Espaço Vazio Entre as Coisas”, parte da mostra “Além do Traço”, em cartaz até recentemente, em BH. “Tenho refletido muito sobre o pensamento e as imagens que vão se construindo, as colagens feitas pelas ideias, as relações afetivas com a família”, expli ca, sobre o efeito de névoa causado pelo papel vegetal. “Quis brincar com transparência e luz, trazer algo sensorial.” Os personagens são um casal em uma tela e, na outra, um pai ensinando o filho a nadar.

Seguidora de Cildo Meireles, Francis Alÿs, Hélio Oiticica e Lygia Clark, além do pensamento eternizado pelos situacionistas, a professora do curso de Artes Visuais da UFMG, se interessa pela tríade arte, arquitetura e literatura como ferramenta política. “Entendi que a arte tinha esse papel de criar momentos e situações de transformação social.”

Por este motivo, seus trabalhos têm o “ocupe a rua” como voz de comando. “A arte política não está só no protesto, nas ações diretas ou na militância. Também está nesse lugar de reconexão com outra sensibilidade”, palpita. “Meu trabalho não é apenas uma arte contemplativa, de beleza. Traz reflexões e novas maneiras de olhar o cotidiano.”

Brígida Campbell – Foto: Arquivo Pessoal

Ela até gostaria de dizer que tem obras espalhadas por outros países. Mas seus murais ou as intervenções que coleciona pelas cidades são todos efêmeros. Suas palavras já se estiveram nas paisagens de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Florianópolis, além de Áustria, Espanha e Holanda.

A célebre frase “pode ser que, talvez, não seja arte” de uma de suas obras, foi ouvida por Brígida em uma masterclass. A pessoa tentou ao máximo não soar grosseira ao proferi-la, e ela garante que não se ofendeu. Pelo contrário. Aquele pensamento rendeu muitas discussões em sala de aula e as palavras foram grafadas em um mural de João Pessoa, na Paraíba, obra eternizada em clique de Beatriz Brito. “Arte é um campo muito aberto de significados e é isso que dá liberdade para criar.”

A mineira está longe de ser uma artista inalcançável. Seu trabalho multidisciplinar vai além dos meios tradicionais e circula muito bem nas artes gráficas. Ela enxerga bottons, cartazes, carimbos e panfletos como plataforma, fazendo com que seu nome chegue para mais pessoas.

Se suas intervenções não passam incólume à nossa visão outdoor, a artista quer tocar as pessoas também em ambientes domésticos. Desde março passado em reclusão, desenhou, pintou e se rendeu à jardinagem. Enquanto não pode pregar suas palavras por aí, seu exercício é transpor para o papel seus questionamentos. Em vez de frases, agora crava imagens do cotidiano em colagens que buscam entender o pensamento e a liberdade. De preferência, fora da caixa – como mandam seus trabalhos.