Foto: Nicolas Gerardin/Divulgação

Por André Aloi e João Victor Marques

Na eclosão de jovens protestando pelas ruas da Nigéria contra o Sars (acrônimo em inglês para Esquadrão Especial Anti-Roubo), um nome desponta e ganha destaque mundial. Burna Boy, expoente da música africana que, aos 29 anos, usa sua voz contra a colonização e o racismo.

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Seu alvo maior é a força policial, que vem fazendo vítimas fatais e violando os direitos humanos em seu país. “Fim da Sars, da brutalidade policial e da discriminacão”, protesta, em entrevista à Bazaar. Burna sempre foi muito influenciado pelo reggae: seu pai gostava de Super Cat e Ninjaman, enquanto a mãe dava ouvidos a Anita Baker e Naughty By Nature. Nessa constelação, o avô chegou a ser empresário do multi-instrumentista Fela Kuti, precursor do Afrobeat.

“Música é, de fato, uma linguagem universal e se manifesta diariamente. Sem linhas, sem fronteiras, apenas vibrações positivas”, explica ele, que já conquistou parcerias com A-lists à la Beyoncé, Chris Martin (Coldplay) e Sam Smith, mantendo-se fiel às origens. “É a saída para expressar minhas frustrações e coisas que vi na minha vida, como sonhos e coisas que espero ver. Entro no estúdio e permito que os espíritos guiem e conduzam a narrativa”, comenta.

“Twice as Tall”, seu trabalho mais recente, é prova disso. Fala sobre esperança e diversão em meio a beats explosivos e tracks dançantes. Começou a trabalhar em janeiro e logo depois veio a comoção em torno do Grammy – foi indicado à premiação máxima da indústria na categoria de Melhor Álbum de World Music com “African Giant”.

Tudo mudou quando o mundo parou por causa da pandemia. “Digo que estava 80% pronto quando veio a quarentena, então terminamos por Zoom”, explica. “Foi ótimo porque, pela primeira vez em muito tempo, estava quieto e capaz de realmente expressar meu pensamento pela música”, pontua, dizendo que foi diferente, mas produtivo.

Foto: Divulgação

Quem acompanha as premiações, deve lembrar que Burna levou para casa o prêmio de Melhor Artista Internacional no BET Awards (principal entre afro-americanos da música), no ano passado, mas mandou sua mãe ao palco para receber a estatueta em seu lugar. “Todas as pessoas pretas deveriam se lembrar que somos africanos antes de ter nos tornado qualquer coisa”, disse ela na ocasião. “Chamo meu gênero de afrofusão e é incrível porque flui em qualquer estilo perfeitamente”, completa ele nesta entrevista.

Quando está trabalhando com música, Burna gosta de pensar suas produções como um recorte de tempo – assim como fazem artistas em outras áreas. “Meus álbuns, essencialmente, são momentos imortalizados e eventos na minha vida e ao redor do mundo. Defino o tom que reflete os altos e baixos do planeta neste período.”

Eloquente, entende que seus feitos são invejáveis, fala que foram todos conquistados de forma orgânica, e mantém a postura e humildade de quem sabe de onde vem. “Sem truques, sem esquema, nada. Por exemplo, a parceria [homônima] com o Naughty By Nature era um sonho desde pequeno porque “Hip Hop Hooray” foi a primeira música que aprendi a cantar, aos 3 anos. Subia na mesa para uma pequena audiência e fazia meu show. Era um sonho trabalhar com eles.”

Fã de diferentes estilos musicais, do Brasil (onde sua música já foi tocada quase 4 milhões de vezes) conhece a “ótima” cantora Anitta. “Começamos a trabalhar em um material juntos, então aguarde e fique de olho”, adianta sem muitos detalhes.

Quando puder, vem visitar o País. “Tenho certeza que todo mundo espera por uma apresentação ao vivo e estou louco para subir aos palcos assim que acabar a pandemia (risos). Estou me adaptando à vida fora dele, sem turnê tem sido difícil.”

Apontado como um dos dez líderes da nova geração, representando a África, segundo a revista americana Time e porta-voz e líder do Pop Africano pelo New York Times, se depender da força de vontade, da voz e dos amigos (incluindo brasileiros), sua energia vai ser sentida – e ouvida – em todos os continentes.