Serena Williams | Abril 2016 - Foto: Annie Leibovitz
Serena Williams | Abril 2016 – Foto: Annie Leibovitz

Por Vivian Mocellin 

Depois de a Playboy anunciar em outubro que não irá mais mostrar mulheres nuas em suas páginas, foi a vez da Pirelli aderir à nova “tendência” de retratar mulheres vestidas! Apresentado oficialmente no começo dessa semana em Londres, a 43ª edição do calendário Pirelli traz 13 mulheres notáveis por suas conquistas profissionais, sociais, culturais, esportivas e artísticas. Embora não seja a primeira vez que o calendário traz mulheres em roupas (na versão de 2013, fotografada no Brasil, as modelos não estavam totalmente nuas), essa é a primeira vez que as poses não são sensuais, e que a atração fica por conta dos currículos profissionais e não dos atributos físicos. Uma verdadeira revolução para um projeto que se tornou icônico por retratar modelos e celebridades em nus provocativos, e que foi historicamente acusado de impor padrões de beleza e objetificar a imagem da mulher. Com a nova onda de feminismo promovida por campanhas e movimentos que se espalham pela internet e pelas ruas, parece que até mesmo aqueles que eram considerados inimigos do feminismo estão se tornando aliados!

É claro que, como não poderia ser diferente, inúmeros críticos tem afirmado que a campanha não passa de uma estratégia de marketing para tirar proveito da visibilidade que o movimento feminista tem ganhado nas mídias. Outros afirmam ainda que o calendário e a seleção de mulheres não é inclusiva ou representativa, já que só traz mulheres famosas e poderosas. Como diz a expressão popular na internet: haters are gonna hate. Mas mesmo que essa fosse somente uma jogada de marketing, o movimento feminista ainda estaria no lucro caso marqueteiros decidissem sempre por criar “jogadas” que desconstruam estereótipos que eles mesmos ajudaram a criar, e caso empresas mantivessem em mente que mulheres não são apenas objetos, mas sujeitos, com poder de compra cada vez maior e cada vez mais conscientes e menos dispostas a consumir produtos de marcas que as objetificam. Nessa guerra, todo aliado é bem-vindo, e embora haja discussão sobre o fato de um homem poder ser chamado de feminista ou não, o fato é que o feminismo não atingirá seus objetivos sem no mínimo o apoio dos homens. Além disso, embora críticas sejam válidas e mereçam sim atenção, é preciso lembrar que mudanças profundas requerem tempo.

Amy Schumer | Dezembro 2016 - Foto: Annie Leibovitz
Amy Schumer | Dezembro 2016 – Foto: Annie Leibovitz

The Cal, como é chamado o calendário, já tinha sinalizado uma mudança de direção quando incluiu a primeira modelo plus size, Candice Huffine na versão de 2015, decidindo focar na sua beleza e não manequim. As poses ainda eram sensuais, o tema fetiche e as modelos vestiam látex, entretanto. Dizer que o que foi entregue pela legendária fotógrafa Annie Leibovitz esta semana é “diferente”, seria um grande eufemismo. São 13 retratos em P&B, sem temática comum, de mulheres de diversas cores, formas físicas e idades, em que a maioria das personagens aparece totalmente vestida. As exceções a essa regra são a tenista Serena Williams (abril) que aparece topless, de costas, e a humorista Amy Schumer (dezembro) vestindo apenas a parte de baixo da lingerie e salto alto, exibindo as gordurinhas não photoshopadas no estômago, e fechando o calendário com uma espécie de piada: ela parece ter sido a única que não entendeu a proposta!

Mas a principal mulher do calendário esta atrás da câmera: é a fotógrafa Annie Leibovitz a estrela do projeto e foi pela oportunidade de trabalhar com ela que várias mulheres aceitaram o convite para serem garotas do calendário. Em NY há quem diga que só se é realmente famoso depois de ser fotografado por Annie, que alcançou o estrelato por seus retratos de celebridades e capas da revista Rolling Stones – é dela icônica a capa de John Lennon e Yoko Ono tirada horas antes do assassinato do cantor. Considerada a melhor capa dos últimos 40 anos, nela Lennon aparece nu, em posição fetal e vulnerável, enquanto Yoko esta totalmente vestida e com certo ar de indiferença. Um hint já da veia feminista da fotógrafa, que seria assumida e explorada em projetos editoriais e comerciais durante toda sua carreira.

Patti Smith | Novembro 2016 - Foto: Annie Leibovitz
Patti Smith | Novembro 2016 – Foto: Annie Leibovitz

O mais paradigmático desses projetos, talvez seja o livro Women publicado em 1999, e transformado em exposição logo depois. São mais de uma centena de retratos de mulheres, famosas e anônimas, que possuíam nada mais em comum além do fato de serem mulheres. Sem a pretensão de produzir algo representativo do gênero, o projeto foi guiado apenas pelo senso de interesse e oportunidade da fotógrafa, que em lugar de negar ingenuamente os estereótipos associados ao feminino, os permitiu existir lado a lado a outras imagens que os desestabilizavam. Demonstrava assim que embora já fosse possível desafiar estereótipos, em se tratando da imagem da mulher, ainda não era possível ignorá-los totalmente, e afirmava ainda que a fotografia assim como foi instrumental na construção desses preconceitos também deve ser na sua desconstrução.

Dezesseis anos mais tarde, a pergunta é: o que mudou de lá para cá? Como tentativa de resposta Annie está preparando uma segunda e ampliada edição do livro, que incluirá fotos mais recentes, representativas das mudanças ocorridas nos últimos anos em relação à questões de gênero. É de se esperar que a foto de Caitlyn Jenner, feita para a Vanity Fair, seja incluída por exemplo. Talvez seja difícil precisar o que de fato mudou de 2000 para cá, mas uma coisa parece certa: se pensar uma antologia, que reúna imagens de homens cuja única coisa em comum é serem homens, soaria sem sentido, o contrário ainda parece sim necessário. Isso porque mulheres ainda são uma minoria política – só não são uma minoria numérica, e ainda, em pleno 2015, lutam pelo protagonismo do discurso sobre as representações do próprio gênero, e pela autonomia em relação ao próprio corpo.

Yao Chen - Foto: Annie Leibovitz
Yao Chen – Foto: Annie Leibovitz

O de The Cal de 2016 parece se inserir nesse projeto de ampliação de projeto Women, de Annie, e suas imagens poderiam perfeitamente figurar na edição ampliada do livro. É relevante lembrar também que o texto de introdução da primeira edição do livro foi assinado por Susan Sontag, escritora e intelectual americana com que Annie manteve um relacionamento por 15 anos – retratado no livro A Photographer’s Life: 1990-2005. Susan Sontag é um capítulo importante não somente na vida de Annie Leibovitz, mas no feminismo e na teoria da fotografia, tendo ficado conhecida por seu ensaio On Photography, de 1977, no qual afirmava que a fotografia estimulava uma relação voyeurística e consumista com as imagens. O impacto de Susan na fotografia de Annie é profundo, e foi sob sua influência que, no começo dos anos 90, Annie deixou de fotografar apenas celebridades, e passou a incluir pessoas comuns como seus subjects. A própria Susan terminaria por se tornar um desses subjects, durante os estágios finais da doença, leucemia, que tiraria sua vida em 2004.

Antes disso, entretanto, em 2000, ano seguinte ao lançamento de Women, Annie já havia assinado seu primeiro calendário Pirelli, com o que viria a ser sua primeira série de nudes, inspirados na arte clássica. Esse é até hoje a versão mais artsy do The Cal, que usou como modelos as dançarinas do coreógrafo Mark Morris. Para 2016, foi a Pirelli que propôs fotografar mulheres que haviam se destacado por algum motivo que não somente ou necessariamente a beleza física. Para dar sentido a proposta Annie decidiu retratar as personagens, que ela mesma escolheu e convidou, de forma direta, sem artifícios. Se na representação da imagem feminina há tradicionalmente uma busca pela padronização da beleza e de um “feminino” idealizado, perante as lentes de Annie cada mulher foi livre para ser ela mesma: engraçada, muscular, estranha, “masculina”. Elas não representam nenhum ideal, nenhum papel ou fetiche, não há “role play”. Poderia-se dizer que não são nem mesmo representadas pela fotógrafa, mas em vez disso apresentam a si mesmas diante da câmera, tal qual são. A radicalidade da fotografia de Annie é nesse caso apenas permitir a alteridade, diversidade e a individualidade de cada mulher.

Quanto à Pirelli, seria difícil voltar atrás e retomar os nus sensuais depois da radicalidade dessa mudança, então quem sabe os próximos passos para futuros calendários não sejam uma radicalidade ainda maior, com a inclusão de mulheres transexuais, portadoras de necessidades especiais, anônimas? Quem sabe um dia eles não lancem uma versão do calendário com fotos de homens? Pode parecer impossível hoje, mas até a semana passada eu acharia que era piada se alguém dissesse que Fran Lebowitz seria uma garota do The Cal – ela mesma achou que era piada quando recebeu o convite! Mas aí esta ela, com seu look tomboy, óculos gigantes e cigarro em punho, a melhor garota do calendário que já vi. Mulheres nuas podem não estar totalmente fora de moda, como Fran mesma afirmou, e a nudez ainda pode sim ser atraente, mas já existe uma outra ideia de sexy tomando forma, e é a inteligência, até que enfim!