Carla Gugino: “Jett não precisa seguir regras sociais”

Atriz norte-americana fala do papel de protagonista na série que acaba de estrear

by redação bazaar
Foto: Divulgação

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Criminosa internacional de alto nível, Daisy Kowalski (Carla Gugino) se vê envolvida em novos delitos ao sair da prisão. Essa é a premissa de “JETT”, série que estreou sua primeira temporada no começo de agosto no canal Max Prime.

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Depois de realizar o que pensava ser seu último trabalho e decidida a se aposentar e se dedicar à filha, Daisy, conhecida como Jett, acaba novamente envolvida em tarefas perigosas estabelecidas por um grupo de bandidos excêntricos e cruéis.

Leia um bate-papo com a atriz sobre o seriado:

Deve ser muito prazeroso viver uma personagem tão complicada e complexa como a Jett.
É, sim. Nós analisamos o roteiro durante algum tempo, então fui incorporando a personagem. Mas só ao entrar de fato na pele dela no estúdio eu me dei conta de como ela é única realmente. Espera-se que as atrizes levem complexidade emocional aos personagens, contribuam, humanizem as histórias – coisas que as personagens femininas em geral fazem, enquanto os personagens masculinos podem simplesmente existir. Eu me dei conta de que nesta série a Jett simplesmente existe. E isso foi surpreendentemente libertador. E estranho. A minha tendência como atriz é querer transmitir mais, e a direção do Sebastian [Gutiérrez] procurou me puxar de volta. “Muita empatia. Eu vejo isso nos seus olhos. Entendo o que você está sentindo. É demais.” Isso foi interessante para mim, porque um dos meus pontos fortes como atriz é o fato de o meu rosto ser muito expressivo. Os diretores gostam disso e em geral me pedem isso. Então foi interessante mudar isso, e ao mesmo tempo um verdadeiro desafio. Mas revendo o Lee Marvin em “À Queima-Roupa”, que era uma das nossas referências, ou o Clint Eastwood ou o Toshiro Mifune, eu fui totalmente influenciada pelos personagens que eles criaram, mesmo consciente de que como espectadora eu não tinha certeza se tinha gostado. Mas o fato de “gostar deles” não é o que torna um personagem interessante. Nós estamos habituados a isso com os personagens masculinos, mas não tivemos muitos personagens femininos que pudessem fazer isso sem precisar de uma desculpa para não seguir as normas sociais.

Outro dia uma pessoa comentou comigo que os diretores sempre dizem que as atrizes precisam se apaixonar pelos seus personagens e ela se perguntava por quê. Por que se pede isso às mulheres?
Isso acontece mesmo, e nunca se pede isso aos homens.

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Você acha que finalmente isso está mudando?
Acho que sim. Principalmente na televisão há mais disposição de explorar tipos diferentes de mulher do que antes. E felizmente cada vez mais essas personagens passam no “Bechdel test” [avaliação se em uma obra de ficção pelo menos duas personagens femininas têm nome e se elas conversam entre si sobre algo que não seja um homem]. A existência delas não está sempre ligada a um homem. A questão é que há muitas mulheres e muitos homens no mundo real com histórias pessoais mais interessantes do que serem “legais” no sentido limitado da palavra. Mas não me entenda mal: eu adoro uma boa história de amor. Simplesmente me entusiasma ver que podemos fazer outras coisas. No início houve algo interessante. Algumas compositoras jovens foram convidadas a criar propostas para a música tema da Jett. Muitas das músicas enviadas eram sobre o renascimento da fênix, sobre mulheres injustiçadas que foram derrotadas e estavam ressurgindo para se vingar. O Sebastian e eu nos olhávamos e pensávamos que a história não era sobre isso. Ela não é uma mulher injustiçada. Não é “Kill Bill”. Ela é uma pessoa excelente no que faz. É muito pragmática, uma espécie de lobo solitário, dança conforme a própria música, tem seus próprios princípios morais, mas a história dela não é de malícia nem vingança. Se alguém atravessa o caminho dela, terá problemas. Mas não há um espírito de vingança. Bem, talvez, até haver.

Ela não tem nenhum medo nem remorso de usar a sexualidade para conseguir o que quer. Como você se sente considerando como esse tipo de atitude é visto hoje?
A Jett está muito à vontade com a sexualidade dela, ela se diverte. Às vezes é útil para ela. Traz leveza interpretar uma personagem que não está nem aí para o que as pessoas pensam.

Além de saber usar essa sexualidade abertamente com os homens, ela é muito solidária com as mulheres, o que compõe uma complexidade adorável. Isso atraiu você para o papel?
Eu admiro as mulheres e tenho uma irmandade de amigas e colaboradoras. O Sebastian cresceu em uma casa de mulheres. Eu acho que este é um dos motivos pelos quais ele cria grandes personagens femininos. Então o segredo (não muito secreto) dentro da história é essa tribo de mulheres em construção, essa família em formação. Se a série tiver uma segunda temporada, essa família terá destaque. À medida que essas personagens se desenvolvem, elas desafiam reações idiotas que costumamos ter com as pessoas. No caso da Phoenix, por exemplo, estamos diante de uma ex-prostituta. Em geral temos determinadas opiniões ou fazemos julgamentos sobre essas pessoas, mas na série vemos outro lado completamente diferente.

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Ela também é uma grande personagem.
É uma grande personagem, e a Gaite [Jansen] é brilhante. Ela é muito especial e impressionante. Isso também torna este processo muito fascinante. Acumular a função de produtora da série me permitiu ajudar a escolher a nossa diretora de elenco, a brilhante Avy Kaufman, e ter um papel ativo na seleção. Tivemos a sorte de atrair pessoas muito valiosas. Com algumas delas já tínhamos trabalhado ou já as conhecíamos, e outras foram revelações para nós, o que foi divertido. É emocionante ver um ator pouco conhecido ter a oportunidade de aparecer. Temos vários casos assim no elenco.

Você e o Sebastian já tinham trabalhado muito juntos. Você sempre se envolve no processo criativo desde o início como fez nesta série, ou este caso foi especial?
Eu sou a primeira pessoa que lê os roteiros dele, mas ele escreve sozinho. Em geral estou, sim, envolvida desde o início. Quanto alto tão impressionante e inspirador como JETT sai da mente dele eu fico fascinada. Acho que essa é uma das coisas que torna a nossa colaboração tão produtiva. Ele cria coisas do nada (eu acho que escritores são uma espécie de mágicos), e a minha especialidade e a minha paixão são interpretar parte desse material. Ajudar a dar vida à visão do cineasta. Eu sempre espero conseguir fazer isso melhor do que essa pessoa imaginou escrevendo no computador às 2 da manhã. Às vezes as pessoas me perguntam se eu digo ao Sebastian o que eu quero interpretar, mas isso raramente acontece na nossa dinâmica. Ouvir um autor/diretor que você respeita pedir para você ler um roteiro e te oferecer um papel é muito mais divertido. É claro que a partir desse momento eu me envolvi com a série e passei a colaborar, mas JETT é uma criação do Sebastian.

Qual foi a inspiração para o figurino da sua personagem?
Foi muito divertido. O figurino teve várias influências, mas as cores saturadas eram a base. A Jett precisa exibir looks diferentes de acordo com cada momento, com o espírito de cada situação. Com o Charlie é um estilo mais antigo, então tem muita lingerie sexy; ela explora uma beleza clássica. Com o Bestic temos um estilo Ava Gardner tropical. E os shortinhos do campo de golfe com boina e lenço foram inspirados em Bonnie e Clyde. O casaco de pele da Dolce & Gabana que ela usa é meu. Eu sempre tenho algumas peças guardadas para o dia em que precisar. Durante uma filmagem em Toronto, a Nancy [Gould, figurinista] disse que queria um casaco marcante e eu respondi que tinha um. Pedi para me mandarem de Nova York e o casaco virou um dos looks icônicos da Jett. O estilo atual da Jett é minimalista e muito simples. Ela não usa roupas de grife, e sim legging preta, o que passa despercebido. Ela não pode chamar atenção e precisa entrar e sair de espaços apertados. Ou seja, a roupa tem que ser bem prática. A Nancy fez um trabalho brilhante. O Sebastian tinha pensado uma estética muito específica e única, e todo mundo se empenhou para executar isso.

Você acha que a Jett tem princípios morais? Quais?
Sem dúvida ela tem princípios morais, mas com certeza não são os dos outros. Pessoalmente eu posso dizer que durante muitos anos a minha autoestima foi determinada pela percepção dos outros, por como eu achava que era percebida. Acho que isso tem a ver com a educação que as mulheres recebem. Ao começar como atriz muito jovem também. Sua vida pessoal se torna pública e as pessoas opinam sobre você, enquanto você ainda está se descobrindo. A Jett vê o mundo de uma perspectiva interna. Não resta dúvida de que se ela deixar alguém entrar no mundo dela, vai proteger essa pessoa para sempre. Mas tudo de acordo com as regras dela. Quando ela mata, trata-se de uma escolha que ela lamentavelmente teve que fazer. Ela não tem interesse em matar. Não é como em “Killing Eve”, em que há prazer nisso. A série é essencialmente divertida, mas a violência tem consequências reais e o humor não vem da violência. O Quentin Tarantino explora brilhantemente aspectos de certa forma engraçados da violência, mas a nossa série não é nessa linha. A Jett não sente alegria com a dor. Ela está um passo à frente dos outros e elimina obstáculos metodicamente. É uma questão de sobrevivência.

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