Caroline Valansi cria nova visão sobre prazer sexual feminino através da arte
Foto: Rafael Adorján

Por Adriana Lerner

Com talento, sensibilidade e o uso de muitas cores, Caroline Valansi transforma sexo, desejo e pornografia em obras de arte. A artista contou à Bazaar sobre suas obras e como suas experiências de Carnaval a inspiram. Ela é uma artista visual, professora e trabalha com saúde mental, girando todo seu trabalho em torno do universo erótico, do sexo e do prazer feminino.

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Sua obra lança mão de uma extensa pesquisa sobre antigos cinemas de rua do Rio de Janeiro e a transformação destes locais, que passavam filmes dos grandes estúdios europeus e norte-americanos, para redutos de filmes pornôs nacionais. “Desde 2015, pesquiso sobre cinemas de rua no Rio de Janeiro que nos anos 1980 foram transformados em salas de exibição de filmes pornográficos. Esse processo começou quando encontrei cartazes de filmes pornôs de décadas passadas. Esteticamente, eram bonitos aos olhos, mas o conteúdo não era tão palatável para mim. Os corpos femininos eram sempre expostos e usados como algo que dá prazer e não que sente prazer. Para mim, corpo é política”, conta Caroline.

Caroline Valansi cria nova visão sobre prazer sexual feminino através da arte
Foto: Rafael Adorján

O que interessa à artista neste universo é o papel desempenhado pela mulher na pornografia e como seu corpo é colocado em jogo sempre como objeto subserviente ao prazer masculino. Em alguns de seus trabalhos, Caroline perverte essa ideia, pondo em foco o gozo feminino como um catalisador para a tomada de poder pelas mulheres, em todas as instâncias da vida.

A artista investiga o mundo explícito e abstrato dentro do erótico, a partir da ideia de como sair dos clichês da pornografia, buscando abstrações que componham imagens excitantes por caminhos menos comuns, tratando o corpo inteiro e seus desdobramentos imaginativos como uma enorme zona erógena a ser tocada.

Carioca, formada em fotografia e cinema, com pós-graduação em artes e filosofia, Caroline faz parte da Cooperativa de Mulheres Artistas e participou do coletivo OPAVIVARÁ!, até 2014, onde concretizou sua posição no mundo da arte e desenvolveu trabalhos nas ruas. Em diversas ocasiões, as obras eram vivenciadas durante o Carnaval pelos foliões e artistas do coletivo, interação necessária para que estas criações de arte se concretizassem. A artista explica que até hoje suas inspirações surgem da memória destas experiências carnavalescas.

Caroline Valansi cria nova visão sobre prazer sexual feminino através da arte
Foto: Rafael Adorján

Ela busca construir uma contra narrativa que faz do corpo e do prazer uma plataforma de experimentação, tencionando a representação hegemônica do sexo. Para isso, o repertório que antes era “fetichizado” pela pornografia mainstream se vê torcido e friccionado, superando a mera excitação para dar lugar a uma reflexão crítica do desejo, sem abandoná-lo. A mulher assume sua própria autodenominação contestatória, dando lugar à criação de outras ficções políticas.

Caroline gosta de chamar a atenção para os aspectos prazerosos, abandonando a imagem de mulheres sexualizadas para reivindicar a de mulheres sexuais, mesmo que às vezes seja difícil discernir as duas. “O uso deliberado de estereótipos e de humor demonstram uma consciência crítica sobre os problemas que minhas obras de arte apresentam, e que têm uma forte ressonância em um mundo onde a emancipação feminina ainda tem um longo caminho a percorrer”, completa.

Em 2015, a artista usou estes cartazes de filmes pornôs como referência para elaborar a série de obras chamada “Pornografia Política”, criando seus próprios cartazes, com novos corpos, estéticas e títulos. Outro destaque entre as mais de 20 séries criadas pela artista, é “Carne Viva”, de 2019, com formas abstratas de forte contraste, revelando aos poucos partes de um corpo interior feminino, como um zoom íntimo. “Esses closes de Carne Viva são um tanto como a visão que temos quando caminhamos em multidão nos blocos de Carnaval. Os corpos rugosos, molhados, macios e termais se juntam como um só, formando um grande organismo vivo e pulsante”, explica Caroline.

Caroline Valansi cria nova visão sobre prazer sexual feminino através da arte
Foto: Rafael Adorján

Em 2021, Caroline criou a série “Peles” e a exposição “Língua Nua”, em que desarticula e rearticula questões e tabus sobre a sexualidade. O jogo de palavras nos anagramas “Sexo Explícito” e “Sexo Lícito” constrói essa ideia de um sexo que seja livre, com a presença de corpos que, ao serem remodelados pela ação da artista nos cartazes, se conectam aos não identificados com a norma e o padrão da pornografia. Seus trabalhos fazem parte das coleções de importantes museus brasileiros, como Museu de Artes do Rio, Museu Nacional de Brasília MAM – RJ, Biblioteca do Instituto Moreira Salles (IMS-SP), Bienal de la Habana e muitos outros.

Em seus jogos de palavras, o humor está sempre presente, não como um gracejo ou apenas piada, mas como uma ferramenta que permite torcer a ordem tida como natural dos papéis de cada um dentro dos comportamentos sexuais, sociais e artísticos. “A língua é elemento fundamental no jogo do sexo, órgão comum a todos nós, caminha por esses territórios de prazer e política gerando gozo e desempenhando um papel incrível na formação da nossa consciência, na preparação das penetrações, na formação de nossos juízos de valor, na lubrificação de nossos entendimentos.”