Foi Gabrielle “Coco” Chanel quem sugeriu capa de chuva e boina no lugar de um vestido para Michèle Morgan, no clássico “Cais das Sombras” (1938), de Marcel Carné. Ela também vestiu as mulheres de “A Regra do Jogo” (1939), de Jean Renoir. E é sobre essa contribuição da estilista para o cinema que trata o novo episódio de “Inside Chanel” – microssérie que narra a relação dela com o mundo de forma mimetizada – assista acima.

Pioneira em apresentar a alta-costura nas telas do cinema francês, flertou com a Nouvelle Vague, no fim dos anos 1950. E dá-lhe tailleur de tweed ao longo da história. A vida da self-made woman, que revolucionou a moda, sempre foi com roteiro bem amarrado. Grandes nomes se conheceram por seu intermédio, como os cineastas Luchino Visconti e Renoir. Os fãs do italiano Franco Zeffirelli e do francês Roger Vadim também podem agradecê-la pela conexão – muito antes das redes sociais.

A colaboração da marca com o cinema não parou no tempo. Karl Lagerfeld, que ficou à frente da direção criativa da maison por 36 anos, de 1983 a 2019, também fez amizades sinceras na sétima arte, ajudou a criar figurinos e vestiu uma constelação para os sets e red carpets. Colaborações que jamais serão esquecidas.

Marlene Dietrich – Foto: Divulgação

O emblemático diretor Jean-Luc Godard ganhou, recentemente, retrospectiva na Cinemateca Francesa elucidando os laços com a Chanel, iniciados nos anos 1930. A ideia é ampliar a parceria para outros diretores e atrizes que tiveram conexão com Coco desde então. Depois de mergulhar no cinema, os próximos episódios de Inside Chanel flertarão com dança, literatura e poesia, e música.

Na América

A relação de Coco com o cinema cruzou mares. No início da década de 1930, depois do crash de Wall Street, um dos fundadores dos estúdios MGM, Samuel Goldwyn, pediu uma ajudinha à estilista francesa para superar a crise. Queria transformar os astros hollywoodianos em ícones fashion.

Jeanne Moreau – Foto: Divulgação

E lá foi ela, rumo a Los Angeles, em 1931, na companhia da inseparável amiga, a pianista Misia Sert – com direito a stop over em Nova York. Gabrielle conheceu o dono da MGM no verão de 1930, em Monte Carlo, apresentada por Dmitri Pavlovich da Rússia, o mesmo que a conectou aos perfumistas que originaram a icônica fragrância Chanel nº 5.

Hollywood sign

Logo que chegou a Hollywood, Coco cruzou com Greta Garbo. A manchete não poderia ser outra: “Encontro de rainhas”. A francesa também se cercou de outros nomes conhecidos, como Marlene Dietrich (que acabou virando uma amiga próxima), Gloria Swanson, Erich von Stroheim, George Cukor e Claudette Colbert.

Apesar de marcar o início de um novo capítulo em sua história, o affair com Hollywood não decolou. Mas a experiência foi um trunfo, até porque ali ganhou uma noção de fotografia e de como deveria ser um vestido cinematográfico, que, claro, acrescentou ao seu savoir-faire.

Divisor de águas

Se as produções americanas não fizeram brilhar os olhos da estilista, o cinema francês a recebeu de braços abertos, ecoando sua aura pelos longas da era Nouvelle Vague. Na década de 1960, Alain Resnais a chamou para vestir Delphine Seyrig em “O Ano Passado em Marienbad” (1961).

Pela primeira vez, os figurinos não foram projetados para um filme e, sim, importados das coleções da alta-costura, abrindo caminho para uma nova abordagem para a moda no cinema, mais alinhada com a realidade.

Amitié

Anna Karina – Fotos: Divulgação

Gabrielle Chanel ficou próxima das atrizes-símbolo daquela era e virou amiga de Jeanne Moreau, Anouk Aimée, Anna Karina, Romy Schneider, Delphine Seyrig e Katharine Hepburn, além dos cineastas Jean Renoir, Robert Bresson e Louis Malle.

Karl Lagerfeld também alimentou amizades com inúmeras atrizes e diretores, desde Stéphane Audran até Lily-Rose Depp, de Andy Warhol a Francis Veber, para quem ele atuou. Louco por cinema, foi nas salas de projeção do Quartier Latin que o alemão aperfeiçoou o francês em sua chegada a Paris, em 1952.

Era Kaiser

Da esquerda para a direita: Margot Robbie, Victoria Abril e Lily-rose Depp – Fotos: Divulgação

Se a Chanel inspirou Francis Ford Coppola em suas crônicas de Nova York, em 1980, a filha dele, Sofia Coppola, era ainda mais próxima de Lagerfeld, com quem fez estágio no início da carreira.

Atrizes A-list, como as francesas Anna Mouglalis (que interpretou a mademoiselle em “Coco Chanel & Igor Stravinsky”, de 2009), Carole Bouquet, Isabelle Huppert e Vanessa Paradis, faziam parte do círculo do estilista, transcendendo as telas. Some a elas Nicole Kidman, Diane Kruger, Keira Knightley, Penélope Cruz, Margot Robbie e Kristen Stewart.

Exclusividade

Karl ainda criou acessórios para Kristen Stewart e Blake Lively usarem em Café Society (2016), quando joias raríssimas também estiveram em cena. Em 2018, um traje da coleção Métiers d’art 2016/17 Paris Cosmopolite foi talhado para Isabelle Huppert usar em Greta. Claro que Margot Robbie, embaixadora da maison, vestiu Chanel em “Era uma Vez em… Hollywood”, de Quentin Tarantino, em 2019.

Iridescente

Kristin Scott-Thomas não apareceu com as joias Chanel apenas em “Assassinato em Gosford Park” (2002). Quando foi mestre de cerimônias do Festival de Cannes, de 1999, os acessórios estavam lá, brilhando. Para viver a mulher de Cole Porter em “De-Lovely – Vida e Amores” (2004), Ashley Judd usou peças icônicas de Deux Étoiles.

Keira Knightley (rosto da coleção Coco Crush) desfilou outras criações em “Atonement” (2008) e “Anna Karenina” (2012). Kristen Stewart, Chloë Grace Moretz e Juliette Binoche usavam looks e joias Chanel em “Acima das Nuvens” (2014).