Artista em seu ateliê provisório em São Paulo - Foto: Kiko Ferrite
Artista em seu ateliê provisório em São Paulo – Foto: Kiko Ferrite

Por Vivian Mocellin

Nasceu no Rio de Janeiro, ainda criança mudou-se para Viena. Morou em Nova York, mas hoje vive  em Los Angeles, onde mantém seu ateliê e a Ibid Projects, espaço de residência para jovens artistas estrangeiros cujo objetivo é promover a arte latino-americana e de outras partes do mundo. Mas, tanto em solo americano quanto no Brasil, Christian é tratado como gringo. “Mas me considero mais brasileiro do que austríaco”, diz, num galpão na Barra Funda, seu ateliê provisório em São Paulo. Talvez porque se expresse melhor em alemão do que em português, ou porque algo em sua personalidade sugira ares mais nórdicos do que latinos. Resumindo: é cidadão do mundo, carrega diferentes sotaques e imprime todos em sua personalidade.

Uma das telas de Christian Rosa - Foto:divulgação
Uma das telas de Christian Rosa – Foto:divulgação

Formado em 2012 pela Academia de Belas Artes de Viena, Christian é uma estrela em ascensão. Já participou de exposições em grandes galerias do mundo, inclusive da Bienal de Veneza de 2013, e possui lista de espera de centenas de pessoas que desejam comprar suas obras. Para sua primeira mostra no Brasil, todas as telas foram produzidas em São Paulo e possuem certa inspiração no desordenamento visual da capital paulista. O título escolhido para a mostra na White Cube, Mais que Nada – More than Nothing, parece incorporar a tensão da intraduzibilidade e ambiguidade da linguagem, da cultura, da identidade. Em português, parece fazer referência à música de Sérgio Mendes, provavelmente uma das canções brasileiras mais reconhecidas no exterior.

Em inglês, a expressão assume um sentido diferente. Esse deslocamento de sentido, a sensação de estar lost in translation, e de não saber onde se pertence, talvez seja o que informa seu trabalho. Não pertencer totalmente a lugar algum, a nenhum movimento artístico, ou tradição estética, abre a possibilidade de transitar por todas as linguagens e movimentos, sem se prender a nenhum. Essa noção fluida de identidade, forjada a partir de contextos culturais diversos e medidas contraditórias, se reflete na fluidez da arte que produz, construída a partir de laços precários entre elementos singulares dispersos no canvas branco. Tomadas isoladamente, parecem sem intenção, mas, quando observadas à distância, em conjunto, sugerem uma conversa maior e uma energia cinética que empresta ritmo às telas. Embora os espaços em branco sejam predominantes, e os elementos esparsos, a impressão é de que there is a lot going on em suas telas. Produzindo várias pinturas simultaneamente, ele mistura materiais diversos, como tinta a óleo, carvão, lápis, resina, spray, e incorpora erros, falhas e acidentes.

Artista em seu ateliê provisório em São Paulo - Foto: Kiko Ferrite
Artista em frente ao seu ateliê provisório em São Paulo – Foto: Kiko Ferrite

O resultado desse processo, que, à primeira vista, parece improvisado, é, na verdade, fruto de uma vontade que, embora subjetiva, sabe exatamente o momento de parar, de evitar o excesso, e estabelecer um equilíbrio tênue e repleto de tensão. Seus grafismos remetem à linguagem caligráfica do grafite – “é uma influência óbvia em meu trabalho, e funciona quase como uma escrita livre e automática.” Mas a estética resultante assemelha-se mais ao surrealismo – especialmente às pinturas de Miró, e aos móbiles de Calder. Outra comparação constante é com o trabalho do americano Cy Twombly, reconhecido por sua arte abstrata, muitas vezes inspirada pela linguagem e principalmente pelo processo de escrita. Tanto as obras de Cy quanto as de Christian parecem sugerir narrativas que apenas se insinuam, mas nunca se deixam apreender por completo. Talvez surja daí, dessa impossibilidade de compreensão total, um certo desconforto e inquietação que essas obras causam.“As semelhanças com Cy Twombly são incidentais, e minhas influências são principalmente meus amigos, a maioria também jovens artistas como eu.”