Ela só tem 23 anos, mas o olhar da cineasta francesa com ascendência húngara Mila Kiss já revela uma imensa maturidade, mesmo que precoce. Nascida em Paris, a cineasta carrega o sobrenome do pai, o artista Mathias Kiss, de quem também herdou a veia artística. Sem formação especifica de cinema, Mila aprendeu a manusear a câmera na prática. “Me autoformei por convicção e determinação, participando de filmagens e fazendo meus próprios curta-metragens”, conta Mila à Bazaar. “O terreno é a melhor escola”, afirma.

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Durante o confinamento de dois meses contra a pandemia do Covid-19 em Paris, Mila viveu entre seu apartamento e o estúdio do pai, no bairro do Marais. Logo na segunda semana, lançou mão de sua câmera para registrar imagens do pai em plena criação ou durante sessões de ginástica. “Nunca tínhamos passado tanto tempo juntos, aprendi muito com ele. Filmar esses momentos permitiu que eu aguentasse a barra. Criar é uma necessidade no meu quotidiano, ainda mais nesse período. Fiz esse filme para que nos sentíssemos melhor durante essa fase difícil”, conta.

Mila Kiss – Foto: Divulgação

Com sua bela voz em off, Mila mostrou que o confinamento pode e deve ser vivido com leveza e responsabilidade. Pelo menos, é a impressão que o curta passa ao espectador.

Mas essa atração pelas imagens vem desde a tenra infância da cineasta. O tenebroso e encantador universo marinho, por exemplo, sempre foi motivo de admiração para Mila. “O mistério das sereias, as águas profundas e quentes e a agressividade dos tubarões sempre foram minha obsessão”, afirma. “O mar tem um lirismo e uma estética impressionantes. Tudo é mais bonito dentro dele”, conta.

Foto: cena do filme “Bleuet” (2016)

Outra obsessão da artista são os grupos de garotas. “Sempre acreditei na força de um grupo, pouco importa seu contexto. E a adolescência é um período que definitivamente me fascina. Sombria e luminosa, é uma época em na qual somos tocadas por uma graça que nunca mais volta. É uma fase bela e misteriosa como o oceano”, diz. Tanto que seus curtas “Requiem” (2015, que se tornou uma exposição na Galeria Antoine em Paris no ano passado), “Bleuet” (2016) e “Sixtine” (2018) tratam do tema grupo de meninas, adolescência e universo marinho com um olhar melancólico e impregnado de paixão.

Mas seu primeiro filme, feito com o celular em punho ainda na adolescência, permanece inédito. “Registrei as imagens de um período que passei no hospital, uma época muito particular. No final, as transformei em um filme de 1h20 minutos”, revela. “As imagens e seu poder de transformar a própria realidade me salvaram. Foi nesse momento que entendi que queria ser diretora de cinema. Se o corpo não funciona mais, as ideias permanecem e podem se tornar reais, serem compartilhadas e, sobretudo, se tornarem uma arma”, explica.

Mila contará exatamente essa experiência em livro, em processo de criação mas ainda sem data de lançamento. “Fui hospitalizada quando tinha 17 anos, o que permitiu que eu olhasse o mundo e as pessoas com uma certa distância. Essa perspectiva fez com que eu entendesse e apreendesse tudo através das imagens. E agora em texto!”, diz.

Quando ao próximo curta, que deve começar em setembro, ele vai tratar de um assunto, no mínimo, atual: a inteligência artificial. “É um filme ‘cyberpunk’, gótico e romântico sobre a inteligência artificial e as gueixas. Um ensaio, uma reflexão, um envelope carnal sobre a mecânica dos sentimentos”, revela. Vamos ficar de olho. Merci, Mila!