Foto: Vinícius Mochizuki

Clara Choveaux, atriz franco-brasileira que já concorreu à Palma de Ouro (Cannes) como melhor atriz, atualmente integra o elenco de “Verdades Secretas 2”, como Tânia, hostess e gerente da boate Radar’s Club que sabe de vários segredos que permeiam a trama. Clara, que é amante da dança e do cinema, não deixa dúvidas sobre a qualidade de seu trabalho, e se entrega a cada papel como se fosse o primeiro de sua carreira. Mulher de beleza exótica e olhar penetrante, Clara deixa sua marca em cada papel que exerce, e o principal sinal disso é sua longa trajetória pelo cinema, tanto nacional como internacional. 

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“A Tania [de “Verdades Secretas 2”] é uma mulher totalmente da noite. É sexy, criativa, e usa isso como forma de sedução pra conseguir as informações que, na grande maioria, só ela possui. Ela tem o dom de criar boas relações no trabalho e sabe tirar o melhor proveito delas, como é o caso da relação de cumplicidade que mantem com Ariel, um dos sócios da Radar, vivido pelo Sergio Guizé. Eu costumo dizer que a Tânia é uma personagem física, que me trouxe um universo novo e totalmente diferente como atriz”, revela Clara.

 Além disso, a atriz também gravou uma participação em “Um Lugar ao Sol” como Branca, dona do restaurante em que a personagem da Marieta Severo irá trabalhar. Na TV, Clara também já participou das séries “Os Homens são de Marte e é pra lá que eu vou” (GNT) e “PSI”, na HBO.

No cinema, Clara tem mais de 18 longas franceses no currículo, além de 15 brasileiros. Atuou com Willem Dafoe em “Meu Amigo Hindu”, entre outros trabalhos expressivos como uma prostituta serial killer no primeiro curta dirigido por Claudia Ohana, intitulado “Um Dia Vermelho na Vida de uma Dama de Alma Vermelha”. Depois de protagonizar o filme brasileiro “Elon Não Acredita na Morte”, seus mais recentes trabalhos no cinema, que estrearam em julho deste ano, foram nos longas “Rodantes”, de Leandro Lara, no papel de Odete, e “Doutor Gama”, de Jeferson De, no papel de Thereza, escravocrata e vilã da trama.

Clara, que vive na Glória, no Rio Janeiro, considera o bairro supertradicional, cheio de charme e histórico. Mas ela nasceu no Paraguai e cresceu em Curitiba, é filha de pai francês e mãe brasileira, e essas diferenças influenciaram sua personalidade. “Esta multiplicidade contribuiu para que eu desenvolvesse uma grande capacidade de adaptação. Também morei muito tempo na França onde comecei a fazer cinema. Na realidade, todas estas culturas me dão muito repertório para o meu trabalho, sempre achei força nas diferenças”, conta. Para ela, o atual governo brasileiro, liderado pelo presidente Jair Bolsonaro, sem partido, é uma grande tragédia. “A cultura sofreu desmontes absurdos como os da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e a extinção do Ministério da Cultura. É um momento muito difícil, mas estamos resistindo. Vai passar.”

Leia a seguir entrevista com Clara feita pela Bazaar. 

Foto: Vinícius Mochizuki

O que estudou?

Fiz licenciatura em teatro e, no ano passado, terminei meu mestrado em artes visuais pela EBA – UFRJ, onde pesquisei muito sobre a tragédia grega. Além da tese e pesquisa, fiz também um vídeo-arte a partir do texto de Antígona de Sófocles. Paralelamente, fiz ainda uma pós-graduação em autenticidade e perícia em obra de arte. Meus interesses variam entre cinema, teatro, artes visuais e dança. Tenho a intenção de colocar em prática tudo que estudei nos últimos cinco anos.

Como nasce a atriz Clara Choveaux?

Acho que muitas coisas contribuíram para que isso acontecesse, mas o primeiro contato com a arte se deu por meio da dança. Comecei pelo balé, no Teatro Guaíra, aos sete anos de idade. Na mesma época, fui ao cinema pela primeira vez e já me imaginei fazendo parte daquilo de alguma forma, participando daquela magia e via meu nome nos créditos. Profissionalmente, meu primeiro trabalho como atriz foi na França, quando eu tinha 25 anos. Depois disso, nunca mais parei.

Quais papéis na carreira lhe marcaram mais?

O universo que se abre ao convivermos com os personagens é tão interessante que a gente aprende muito sobre a gente mesmo e sobre o outro durante o processo. Eu fico muito focada, como se estivesse num estado de alerta mais aguçado. Acho que Tirésia, personagem em que interpreto um ser mitológico, me marcou demais. Recentemente, fiz filmes muito impactantes e difíceis. A escravocrata Thereza, no “Doutor Gama”, de Jefferson De, foi um grande desafio. A Maura, no filme de Rodrigo de Oliveira, em que faço uma enfermeira que é mãe solteira e enfrenta o desconhecido surto epidêmico da Aidsna década de 80, também me marcou muito.

Como surge o convite para “Verdades Secretas 2”?

O convite veio por meio do diretor de casting Guilherme Gobbi. Ele me ligou e topei na hora. A personagem tinha todo um universo que eu queria muito explorar. Sem contar o time de artistas que é incrível.

Fale sobre Tânia, sua personagem? Ela é mais mocinha ou mais vilã?

Nem mocinha, nem vilã. A Tânia tem suas ambições, suas verdades secretas. Ela acredita que vai conseguir melhorar sua vida por meio do seu trabalho e nunca quis depender de ninguém. Ela é bem leal ao Ariel (personagem que Sergio Guizé interpreta). É uma mulher que sabe o que quer e preza por sua independência e liberdade.

Foto: Vinícius Mochizuki

Você diz que a personagem lhe trouxe um universo novo, totalmente diferente. Por quê?

Eu tinha acabado de codirigir um longa metragem e, antes de defender meu mestrado, estava em um momento mais introspectivo, intimista e solitário. Também estava estudando muito. Com a chegada da Tânia, voltei a fazer aula de balé, escutar música alta e a sintonizar uma energia mais telúrica em mim. Entendi que, para o papel, eu tinha que abrir este espaço e a Tânia foi meu “sol da meia-noite”. Quando saía do camarim maquiada e vestida para a casa noturna Radar, a energia dela já estava vibrante em mim. Já de dia a Tânia tinha uma energia mais neutra e calma. A equipe nem me reconhecia quando eu não estava caracterizada. (Risos) Não tem presente melhor para um ator!

Você também está em “Um Lugar ao Sol”, da Globo. Como surgiu essa oportunidade?

Foi por meio de mais um convite feito, desta vez, pela diretora de casting Andrea Imperatore. Eu ainda estava no meio das filmagens do longa que codirigi, mas tinha disponibilidade de agenda e deu super certo. Adorei a trama da novela, o elenco e a direção.

Conte sobre sua personagem na trama, você contracena diretamente com Marieta Severo, certo?

Sim, foi uma grande alegria contracenar com uma atriz que admiro tanto. Ela me inspira em todos os sentidos, como atriz de cinema, teatro, TV e, principalmente, como mulher no mundo. Foi incrível vê-la se movimentando no set com todo o seu conhecimento e com toda a sua generosidade. Foi um momento breve, mas muito intenso e inesquecível.

Você tem 18 longas franceses e 15 brasileiros no currículo. Como o cinema influenciou sua carreira?

O cinema é a minha maior inspiração e a minha maior experiência. Foi por meio dele que construí a atriz que sou hoje. Devo tudo a ele.

Quais são os próximos projetos?

Meu próximo projeto é estrear “Os Primeiros Soldados”, longa-metragem de Rodrigo Oliveira, que acabou de ser premiado na Alemanha e foi selecionado para o Festival do Rio, agora em dezembro. Também tenho um projeto de teatro, ainda embrionário, e estou com muita vontade de fazer mais televisão.

Foto: Vinícius Mochizuki

Você é feminista? Se sim, explique como o feminismo atua em sua vida?

Sim! Ser feminista é um ato político. Nós, mulheres, já conquistamos muito, mas ainda há um longo caminho e muita luta pela frente. Eu busco constantemente ouvir e aprender com mulheres que têm experiências diversas da minha. Um “feminismo” que exclui as mulheres trans e negras, por exemplo, não faz o menor sentido para mim. Temos que nos unir e seguir lutando por um mundo com menos violência e desigualdade.

Como você avalia o atual governo brasileiro e sua política anticultura?

O atual governo brasileiro é uma grande tragédia. A cultura sofreu desmontes absurdos como os da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e a extinção do Ministério da Cultura. É um momento muito difícil, mas estamos resistindo. Vai passar.

Você tem algum ritual de beleza? Se sim, como é?

Nada muito complexo. Eu bebo bastante água, uso filtro solar e também limpo e hidrato a pele antes de dormir. Meu foco é mais de dentro para fora: comer bem, me exercitar com ioga e tentar dormir, pelo menos, oito horas.

E do corpo, como cuida?

Eu me movimento muito, sempre que posso faço longas caminhadas. Minha prática de ioga é frequente e, recentemente, voltei a nadar. Meu objetivo é voltar a nadar no mar com mais frequência.

Tem alguma restrição alimentar?

Dependendo, tenho sim. Adoro uma alimentação mais saudável e tenho minhas fases vegetariana e até vegana. Tento priorizar comidas frescas, vegetais, frutas e tento não comer coisas muito processadas.

O que tem lido e ouvido?

Recentemente terminei dois livros maravilhosos: um de poesia do Alessandro Romio, “O Jardim Nunca Foi Tão Bonito Quanto Agora”. Ler poesia fazia parte dos meus planos para 2021. O último romance que li foi “O Último Pau de Arara”, de Jotabê Medeiros, que conta a história de uma família de migrantes nordestinos que vão para o Sul do País num pau de arara. É um livro com imagens muito potentes e parecia que estava vendo um filme. De música, sempre pego dicas com minha irmã Luisa que me mostra sons incríveis. As playlists dela são multiculturais. Aqui no Brasil, ouço muito o som da Julia, minha irmã mais nova que é musicista, compositora e trilheira. Gosto demais do som da Ava Rocha, da Letrux – sempre escolho uma música para minhas personagens porque me ajuda a contextualizar o universo delas.

Como você lida com as redes sociais?

Tento consumir com moderação, mas, às vezes, me pego olhando mais do que deveria. Quando vou visitar minha família ou estou recebendo amigos em casa, tento deixar o telefone de lado. Quando estou viajando, também adoro sair sem o celular porque me dá uma sensação boa de liberdade e de poder focar bem no momento presente. Parece até uma meditação ativa de tão raros que são esses momentos.

Foto: Vinícius Mochizuki

Acha que as redes são uma plataforma importante como forma de expressão?

Quando usadas de forma equilibrada, acredito que possa ser uma boa forma de expressão. O problema é que é muito fácil de se viciar e se perder no meio do caminho. Elas fazem parte dos paradoxos do nosso tempo, mas temos que ficar atentos para não ficarmos dependentes das facilidades que elas proporcionam.