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Conforme a Netflix foi ganhando espaço e força como plataforma de streaming, começou a se aventurar nas produções próprias. Assim como as séries e filmes que exibia, a qualidade de seus produtos era impecável, dando ainda mais força ao seu nome no meio em que atuava. Ao trazer sua assinatura para o Brasil e começar a produzir conteúdos brasileiros, a curiosidade era se conseguiriam manter a mesma qualidade – e conseguiram.

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Uma prova disso é o seriado “Coisa Mais Linda”, que conta a história de quatro mulheres desbravando o cenário masculino dos 1960 e conquistando o seu espaço como deve ser: tendo voz ativa, decidindo seu futuro, se jogando no universo musical. Malu (Maria Casadevall), Adélia (Pathy Dejesus), Lígia (Fernanda Vasconcellos) e Thereza (Mel Lisboa) conquistaram o público com a primeira temporada e, agora, voltam para continuar a história da onde ela parou.

A realidade é que “Coisa Mais Linda” é uma série de empatia. A empatia entre as personagens, a nossa com suas histórias, a maneira como podemos trazer aquela realidade para os dias atuais e, uma que temos pouco contato mas que não deixa de ser interessante, entre as atrizes e suas personagens.

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Uma prova disso é a relação que Pathy Dejesus tem com Adélia. Na divulgação da primeira temporada, a atriz já havia comentado o quão doloroso é se colocar no lugar de uma mulher negra naquela época, visto que, dentro de sua realidade, já havia conquistado tantas coisas que Adélia não. Ao retomar à série, este sentimento não perdeu sua intensidade, mas tomou outras facetas.

“Foi intenso voltar, primeiro por questões pessoais: tinha acabado de ser mãe, Rakim tinha dois meses e meio e eu estava no meio do puerpério. O roteiro está mais rico para Adélia nesta temporada e é trabalho da atriz também ter que lidar com isso a todo momento. A Mel (Lisboa) fala sobre o não julgamento e a doação da atriz. Não tem muita opção, mas este lugar em específico – se tratando de estrutura social e racismo – é doloroso a todo momento, nunca é confortável”, conta Pathy.

A história de Thereza também muda. Ela se vê em um novo trabalho, com uma nova configuração familiar e lidando com os problemas das amigas, além de, novamente, dar a cara a tapa em um espaço que não era receptivo à mulher naquela época: a rádio. “Ali, ela tem um lugar novo, algo que não domina e que tem que se provar capaz”, analisa Mel.

Empatia

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As atrizes concordam que o que há de mais rico na série é o relacionamento daquelas mulheres, algo que tem fundamento na vida real com o que suas interpretes compartilham entre si. “Tive a sorte gigante de encontrar quatro mulheres com quem tive trocas reais e isso não é demagogia, acho que fica bem nítido no resultado final a troca que tivemos”, comenta Pathy.

Para ela, os aprendizados entre as atrizes e as personagens acontecem pelas diferentes vivência e idades que elas tem. Mesmo através de uma vídeo chamada, é possível ver o orgulho de Pathy Dejesus ao comentar a sorte que teve em trabalhar com mulheres engajadas em tantas causas, com duas protagonistas negras (na segunda temporada, Larissa Nunes – que interpreta Ivone, irmã de Adélia, reforça esse time) e a abertura de compartilhar suas experiência, incluindo em relação à raça.

“Um jeito de exercitar a empatia é exercitar a escuta, porque muitas vezes você acha que entende de determinado assunto, vê alguém falando sobre o assunto e percebe que nunca tinha pensado neste ponto de vista. Uma coisa que a Pathy trouxe no início, quando pesquisavamos referências de mulheres naquela, e nunca vou esquecer é o fato de que as questões que levamos não eram as questões da Adélia. Além disso, há uma falta de referências, porque a história é contada do ponto de vista do homem branco e hetéro. É aí que você passa a entender melhor a luta do feminismo negro, a luta antirracista e a própria Adélia”, acrescenta Mel Lisboa.

Pandemia

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É inegável que o momento em que a série está sendo lançada vai na contramão de qualquer expectativa, mas as atrizes acreditam que o momento é extremamente propício. “A pandemia e o isolamento serviram como lente de aumento para um monte de coisas que já acontecem há muito tempo, incluindo racismo, violência contra a mulher, direitos negados e esta movimentação”, analisa Pathy Dejesus.

Para ela, o fato de “Coisa Mais Linda” se passar na década de 1960 e distância que isso cria do momento atual faz com que as pessoas fiquem mais abertas para receber certas informações e refletir sobre elas. “Acho que estamos vivendo um momento em que as pessoas não estão querendo receber muito. Às vezes, você quer levantar uma bandeira e a outra pessoa não quer, já rejeita. Nossa série é muito feliz neste lugar. Com essa embalagem de entretenimento, conseguimos plantar certas sementes, às vezes de maneira sutil, mas que gera empatia”, completa.

Já Mel Lisboa avalia a situação do ponto de vista da valorização da cultura. “Tenho citado muito uma frase de Nietzsche: ‘a arte existe para que a realidade não nos destrua’. No meio de um momento tão complicado, conseguimos ter esse lugar de alívio, de respiro ou esse momento de reflexão, que te deixe conhecer outra cultura e ampliar seus horizontes – já que estamos com um tão restrito. A qualidade da série é inegável e é um momento muito bom, porque vai fazer bem para muita gente assisti-la agora”, explica.

A segunda temporada de “Coisa Mais Linda” chega à Netflix na próxima sexta-feira, 19 de junho.