Foto: Divulgação
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por Luísa Graça

Imagine você sentada no sofá da sala da casa de Tim Burton, prestes a fazer um teste de elenco para um papel de destaque no próximo filme do diretor. Nervos. Trepidação. Imagine ainda que você é fã do cara e sempre sonhou fazer um filme dele. “Eu me concentrei tanto em não perder a compostura, que mal saberia descrever a casa do Tim”, relembra a jovem Ella Purnell, atriz britânica que vivenciou tal experiência no processo de tornar-se parte da aventura fantasiosa O Lar das Crianças Peculiares, que estreia neste mês. “Como atriz, estou acostumada a ser rejeitada toda hora. Não me encho de esperança. Só faltou eu me beliscar para acreditar que fui mesmo escolhida para fazer esse filme.”

Não é discurso pronto. Ella não está fazendo pinta de atriz surpresa com o próprio talento. É apenas uma garota de 19 anos – muito expressiva, muito entusiasmada com a vida e linda (sem obviedade) –, sentada com os pés apoiados sobre o sofá de um hotel grã-fino em Londres, contando sobre algo incrível que aconteceu com ela, tirando onda de si mesma com muita leveza.

Burton a escolheu para interpretar Emma Bloom, uma das personagens centrais do longa adaptado do best-seller do autor Ransom Riggs, que retrata um grupo de crianças com habilidades especiais vivendo em um abrigo sob os cuidados de uma governanta (Eva Green) tão peculiar quanto elas. São vistos como freaks lá fora, mas verdadeiras maravilhas contextualizadas no universo mágico e visualmente belo do orfanato. Entre garotos e garotas que podem produzir fogo com as mãos ou cultivar abelhas no estômago, Emma tem o dom de manipular o ar – voa, consegue respirar embaixo d’água e fazer um furacão acontecer com um simples sopro. “Apesar do caráter fantasioso do filme, esses personagens são pessoas tridimensionais e genuínas”, explica à Bazaar. “Ninguém sai ileso dos questionamentos da adolescência: ‘Isso é normal? Eu sou normal?’. Crescer tem a ver com aceitação, O Lar das Crianças Peculiares tem a ver com aceitação. Ninguém é mesmo normal.”

Oficialmente adolescente até completar 20 anos neste mês, Ella simpatiza com questões da infância e juventude. Dava aulas para crianças num clube de teatro e é engajada em causas sociais com foco em jovens desprivilegiados, ajudando-os a desenvolver habilidades criativas. “Isso dá a eles poder e liberdade.” Recentemente, tornou-se embaixadora das ONGs Youth for Change e Educate2Erradicate, ambas com a missão de combater  por meio da educação casamentos forçados, MGF (mutilação genital feminina) e outros crimes de honra. O ativismo criativo tem servido também como escape de uma carreira que começou aos 11 anos, quando fazia peças teatrais no West End londrino. “Só atuar, atuar e atuar é loucura. Você precisa se dedicar a outras coisas para se desenvolver”, diz ela, elogiada por importantes publicações e que já entrou para o time de queridinhas de Alessandro Michele, da Gucci.

Depois de interpretar a versão mais jovem de estrelas como Keira Knightley (Não Me Abandone Jamais), Angelina Jolie (Malévola) e Margot Robbie (A Lenda de Tarzan) – “Meus irmãos fazem piada de que vou me especializar nisso” –, Ella agora tem tido mais chances de fazer performances marcantes em papéis somente seus. Aliás, começaria a rodar um novo filme na Escócia, Churchill, com os veteranos Brian Cox e Miranda Richardson, no dia seguinte à entrevista. E lá vêm os nervos e a trepidação. Põe sua mochila Fjällräven nas costas e desce as escadas do lobby do hotel rapidinho, quase saltitante, para correr até a estação de trem. “Se não estiver nervosa antes de fazer um filme é porque deve haver algo terrivelmente errado comigo.”