Criolo passa por Lisboa e canta sua voz do respeito e da inclusão

Em turnê pela Europa, cantor conversa com a Bazaar sobre a importância da arte e da educação para salvar a humanidade

by redação bazaar
Foto: Fabio Von der Liebl

Foto: Fabio Von der Liebl

Por Victor Drummond, Lisboa
Direção de arte: Fabio Von der Liebl (Studio Von der Liebl)
Produção-Executiva: Renata Phoenix (Drummond Comunicação)

Conversar com Criolo é imergir em uma grande aula de sociologia, antropologia e ciências políticas. “Não tenho diploma” diz ele. Mas não é preciso graduações e cargos políticos quando o garoto nascido Kleber Cavalcante Gomes cresceu e viveu no Grajaú, um dos maiores subúrbios de São Paulo. Em 2016, figurou na lista dos piores distritos da metrópole. E possui apenas dois conselhos tutelares para uma comunidade com mais de 700.000 moradores. Ali não há nenhuma delegacia de atendimento às mulheres vítimas de violência. Ou seja: Criolo é um sobrevivente. Conviveu de perto com a pobreza, o preconceito e o racismo. Seu pai, ao levar o próprio filho para o pronto-atendimento de um hospital, chegou a ser conduzido para a delegacia, acusado de sequestrar uma criança “mais esbranquiçada”. Sua mãe, Maria Vilani Gomes, é fundadora do CAPS (Centro de Arte e Promoção Social). Ela é “uma professora de alma”, como o filho com orgulho, a define. Desconheço outro cenário suficiente para transformar este artista em um grande pensador e produtor de uma poesia e música engajadas. Criolo leva seu discurso de luta social para as poucas entrevistas que dá, mas também para o palco. Através de sua voz falada e cantada que ele consegue elaborar e refletir sua luta pela democracia, pelo respeito à arte, pelo ser humano e por um mundo com mais inclusão.

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Você está vindo de uma turnê por cidades e países da Europa onde temas como segurança, educação, saúde e liberdade à arte ainda funcionam. Dá uma frustração ou desespero quando a gente olha para a realidade do Brasil. Como é isso dentro de você? Que sentimentos vem à tona e como você reage a eles?
Eu percebo ainda mais a importância da arte, ainda mais a importância da cultura, da valorização da cultura do nosso povo, e o quanto ela imprime algo extremamente essencial, que são as humanidades. Quando a gente percebe que somos capazes de construção de algo positivo, quando a gente percebe que são nossas sensibilidades que fazem a diferença pensando mais em sociedade. Então existe um sentimento ainda maior de querer contribuir. E existe aquele sentimento antigo, que nunca esteve distante da gente, que se faz presente e que é importante falar de uma vez por todas: uma nação verdadeiramente forte passa pela valorização do professor. Da educação. Desde os primeiros anos. Até o cara querer estudar tudo o que ele quiser. Isso tem que estar, isso tem que existir. Nós somos um país do tamanho de um continente. Então nós temos uma juventude que quer a transformação, que quer contribuir ao máximo para que a gente tenha um país muito, muito mais interessante. E isso passa pela valorização da escola pública. Se você não chegar ali, se você não mudar o quadro que se construiu de hoje, uma desvalorização total dos professores, uma ridicularização da categoria, uma ridicularização da profissão, da entrega de alma, a gente vai ficar cada vez mais distante…

Mais doente…
Mais doente, mais distante, e a gente fica moribundo, e a gente sofre, e a gente fica depressivo, a gente fica ansioso, e muita gente não sabe o porquê. Porque a gente não consegue nem tecer como tudo isso está acontecendo, caindo na cabeça do jovem contemporâneo agora. Esse processo de destruição da cultura de toda uma nação sendo desaguado na cabeça deste jovem agora. E que é tão exigido. Exigem do nosso jovem a perfeição. E não lhes é dado condição.

E nem oportunidades e ferramentas. Eu tenho visto muitos amigos professores, intelectuais, que se dizem doentes mesmo. Física, mentalmente. E tristes com esse momento. Professores de universidades federais que não tem mais verba, que não veem mais perspectiva na vida acadêmica. É triste a gente ouvir esse ressoar, não é?
Sim, porque não faz sentido. O nosso maior patrimônio são nossos saberes [Silêncio]. Não faz sentido para nós que enxergamos a importância de se valorizar o processo de potencialização dessa pluralidade de inteligência e de habilidades de nossos jovens. Mas existe um setor da sociedade, existe algumas pessoas que querem esse embrutecimento. Porque quando sei que determinado alimento me faz mal, vou buscar algo saudável, vou lutar para que esse preço seja acessível. Então eu vou mexer na economia. Porque eu sei que se eu estou com meu alimento saudável, determinadas doenças não vão me visitar. E eu mexo na economia. Então tudo vai estar ligado à uma questão de interesse econômico. Porque essa educação, esse poder, viver a plenitude, não só de uma construção de texto, mas de uma compreensão maior do seu eu – e isso vem das primeiras fases da primeira infância, – isso eu acredito que é um aprendizado eterno – vai lhe dar uma condição de construir suas ideias e de como você quer levar a sua vida. Porque não se tem as opções. E quando não se sabe as opções, como escolhê-las? Porque se não mais uma vez vão falar que a culpa é do nosso povo. Mas como? Se lhes é tirada toda e qualquer situação de processo, de construção, que não seja para aquilo que está posto, para apertar o botão da máquina, para ser um serviçal que não reclama. Pois já somos tomados de medo. “Do pouco que tem meu filho, toma cuidado. Por que como é que vai conseguir de novo?” Então você já tem toda uma geração que cresce em ambiente de medo.

E o medo paralisa…
E o medo paralisa, o medo te congela. O medo fermenta rancor. Porque em algum momento isso vai explodir. Porque nós estamos vendo também um tanto de uma juventude sofrendo de uma ansiedade brutal. O tanto de uma juventude caindo numa depressão sem fim. E às vezes a gente não tem dentro de casa nem ferramenta de diálogo, porque lhe foi tomado. Esse pai e essa mão não tiveram o direito também de ter seu momento de construção, de ter seu momento de diálogos, de estudos. O pai e a mãe muito lhes é cobrado, mas ninguém se põe no lugar deles que estão a doze horas trabalhando, dez horas trabalhando. Ficam vinte horas por dia fora de casa, porque senão não pagam as contas. É uma luta pela sobrevivência. Então essa erupção que acontece dentro de cada casa, somada, cria-se um ambiente extremamente hostil no bairro, na cidade, e em algum momento isso vai refletir em todos os quintais, em todos os condados, em todos os latifúndios.

E quando você fala de tirar oportunidades ou não dar oportunidades…
Tem as duas situações… Do pouco que se conquistou, agora estão tirando…

Isso por si só é uma canalhice sócio-política… E aí eu pego a letra da sua música: “Canalhas Quase Heteros”. Tem muitos pelo mundo, e mais pelo Brasil?
É… [Silêncio]. Não quero colocar na conta da minha nação porque se não… não é bem assim não. Somos um país de terceiro mundo que também sofre por questões econômicas de países mais ricos que fazem o que querem com a gente…

Já começou errado lá atrás, né?
Tem essa questão histórica lá atrás que pouco se fala e tem essa construção moderna de um jeito de se pensar a economia mundial e esse contemporâneo agora cada vez mais agressivo que vai sugando a gente cada vez mais. [Pausa]. Quem visa se dar bem em cima da desgraça alheia; é uma questão global. O que posso falar do nosso país é que nós temos uma energia, boa energia, força, inteligência, bom pensamento para desconstruir isso. Por mais tempo que leve. Mesmo não dando o acesso às ferramentas e mesmo tirando as poucas que ainda existem, nós temos esse fôlego. E podemos não ser esse que tem mais. É que são poucos que tem muito poder. Não vou falar que no Brasil tem mais canalhas que nos outros países. Não. Não vou cair nessa armadilha. Nós temos poucos caras com muito poder. E um tanto desses caras não estão preocupados se alguém vai ser assassinado pela cor da pele. Ou se um casal que está expressando seu amor vai ser assassinado por conta de quem escolheu beijar na boca. Nós podemos ser fruto, nós podemos ser espelho para o mundo, de uma transformação extremamente saudável. Nós temos material humano para isso, nós temos material intelectual para isso, nós temos força de vontade para isso. E essa intelectualidade passa por aquele que teve um acesso às tantas ferramentas que fazem a gente poder ter essa beleza, essa delícia que é usufruir dos momentos de construção do saber. Como é essa intelectualidade profunda daquela mãe, daquele pai, daquele avô, daquela avó. Uma fala de sabedoria de vida transforma uma pessoa. Também enxergo uma intelectualidade, uma engenhosidade absurda quando essas pessoas abrem a boca e contam suas histórias, dão suas opiniões. Essas duas intelectualidades têm que se abraçar. Porque o que se aprende na vida não se aprende na escola. E o que tem na escola eu também quero para nossas crianças. Mas entender a importância dessa sabedoria do nosso povo que é passada pela fala, pelo afago, pelo afeto, pelas ações e que não se documenta. Esse é o novo patrimônio. Brasil é muito isso. Temos os canalhas? Um tanto deles, nesse grupo de poucos que dominam tudo. Mas nós temos uma maioria brutal de luz, de pessoas de luz, que podem e querem e tem total condição de ser uma transformação e de ser espelho para o mundo.

Victor entrevista Criolo -Foto: Fabio Von der Liebl

Victor entrevista Criolo -Foto: Fabio Von der Liebl

Criolo, você fala de quebra de padrões na sua música e no seu clipe [da música Etérea, com um casting só da comunidade LGBTQIA+]. Fantástica a direção e escolha do elenco. Como pregar essa quebra de padrões, num momento onde a volta do conservadorismo, do preconceito, da misoginia estão tão à tona, não só no Brasil mas em outros países, em gigantes potências mundiais?
Acho que tem muitas as formas. Cada um, cada pessoa acha seu jeitinho. Cada um tem seu jeito. Fiz essa música com muito carinho, muito respeito. Esperei quase dois anos para ela vir ao mundo. Pedi permissão…

Quando você fala que pediu permissão, pediu para quem?
Pedi permissão, fui conversar com o Tino Monetti [que assina a direção criativa do videoclipe] para saber. “Tino, lê isso aqui. Meu coração desaguou isso aqui. Vamos atrás. Eu quero ouvir, eu quero aprender, eu quero saber. Aí o Tino entrou em contato com o D’avilla [que assina o casting], que entrou em contato com uma série de coletivos LGBTQ extremamente sérios e importantes para a sociedade brasileira, que muito carinhosamente escutaram a canção, passaram suas impressões, e nisso fomos tecendo uma construção. Que depois desaguou não apenas na canção, mas na questão cinematográfica. Onde existiu um protagonismo natural de todas essas pessoas envolvidas no trabalho para poder dizer como tem que ser. Então eu acredito que essa construção passa pelo respeito.

Tem uma letra sua que também diz que “não é preciso morrer para ver Deus” [trecho do sucesso "Não existe amor em SP"]. Num país que defende o Deus cristão, de uma única crença, e que desrespeita o Estado laico, que Deus deveria ser esse?
Eu acho que ali, tentando sintetizar do modo mais simples possível, que é você perceber que você é um milagre da vida. Que não perca isso. Por mais que a cidade lhe ofereça o fel, você é mais que a cidade. Porque a cidade sem as pessoas, sem as almas das pessoas, é só um tanto de prédio de concreto e aço. Não deixe que a cidade lhe assassine, por mais difícil que seja, pois, a luta é pela sobrevivência. Um dia de cada vez. E se você for perguntar de novo “qual é seu sonho?”. Sobreviver mais um dia. “E o seu sonho?” Sobreviver mais um dia. “E amanhã?” Sobreviver mais um dia. As pessoas estão sendo assassinadas. Quando você fala que não existe racismo no Brasil você abre um leque de situações que fazem esse número aumentar mais ainda. Quando você diz que falar sobre os temas que envolvem toda a violência na comunidade LGBTQ, você fala que isso não é assunto, pauta de importância. Quando você tenta fazer um jogo em legislação, um conjunto de leis para que aquilo não seja categorizado como violência, você está abrindo mais uma vez uma porteira gigantesca para que essa violência aumente.

E seja justificada…
É uma questão humanitária. É o fundo do poço quando chega nisso. Se é que tem poço, e se é que tinha fundo. É uma questão humanitária. HU-MA-NI-TÁ-RI-A. Não enxergar o outro enquanto ser humano. E entender que isso não é importante é de um lugar que não é nosso. Não é do povo brasileiro. Não é, não é. Nosso povo pulsa, nosso povo celebra, nosso povo brinca…

Resiste…
Temos muito para construir, muita coisa para desconstruir. E isso é todo mundo. Mas ignorar que no Brasil as mortes estão acontecendo, isso é muito grave. Isso é a minha opinião. Não sou um estudioso, não sou um parlamentar, não tenho diploma. Eu sou uma pessoa que cresceu no Grajaú, teve seu pai Cleon e sua mãe Vilani. Que viu no rap um jeito de se expressar e que a música foi me dando amigos. Pessoas que foram estendendo a mão e eu fui cantando, fui cantando. Essa história faz trinta anos. Eu sou mais uma pessoa que está aí, escrevendo minha micro-história e tentando sobreviver. Mas quem nasce nos campos de concentração que chamam de favela, nasce ali, e sobrevive, e vê o sorriso das pessoas todos os dias, com aquele astral, não consegue compreender porque é tratado dessa maneira. Porque nosso povo dá o seu melhor para o país e é muito duro. Se formos falar agora de questões de saúde… Bom, eu falar assim – é o desabafo de mais um brasileiro – mas a gente está aqui num momento especial, de troca. Mas aos céticos, vejam os números, ponto. Busquem os números. Ponto. A pessoa que acha que não existe morte por xenofobia, por homofobia, por racismo, pegue os números. Pronto. Porque já chegou neste ponto. Porque uma morte já é o suficiente para você parar tudo. Pegue os números. Ponto.

Para gente encerrar. Você fala que “Grande foi Mahatma Gandhi.” Acha que vão haver outros pelo mundo? A gente tem esperança?
Todos os dias no Brasil nasce alguém, nessa hora, nesse segundo, está nascendo alguém no Brasil e no mundo que pode transformar tudo. Mas se ele não tiver o direito à educação, à boa alimentação, se os pais dessa criança não tiverem o direito de ter uma vida digna, não tiverem o tempo também para eles se visitarem, serem felizes, essa morte já começa de pequeno. Todos os dias está nascendo alguém para mudar tudo. Para deixar tudo mais lindo. Esse milagre da vida – do mesmo jeito que a cada dois segundos alguém morre de fome no mundo – a cada dois segundos alguém nasce para tentar mudar isso. [Silêncio]. Agora vai depender de como é esse tecer global e o que diz a economia da verdade. Tudo é uma questão de números. O que vai dizer a economia. Porque as matérias-primas já se extinguiram quase que totalmente. E nós quanto humanos somos uma matéria também de força. Para manter tudo isso aqui se movimentando. Então enquanto a gente for enxergado só como essas micro-peças, eu não sei o que pode mais acontecer; está cruel o negócio. Não está doce. Mas todos os dias no mundo e no Brasil nascem pessoas com um jeito especial para deixar tudo melhor.

Todo mundo aqui nessa sala nasceu com essa missão e vibrando com você. Você também nasceu para isso, para transformar. Obrigado pela sua existência. Não desista. Obrigado pelo seu tempo.
Eu que agradeço. Muito obrigado. Todo mundo juntinho, vibrando positivo, fica legal.