Daniel Lannes, Young Canibals (2018) – Foto: Mario Grisolli/divulgação

Da antiga fábrica da Bhering, no Rio de Janeiro, onde mantém ateliê, Daniel Lannes atende o celular. “Está um caos aqui, em cima da hora da exposição e estou que nem um maluco”, diz à Bazaar. Ele se refere a sua próxima individual, “Dentição”. Com inauguração nesta quinta-feira (07.06), na galeria carioca Luciana Caravello, quer reunir a tempo um conjunto de 12 a 14 novas pinturas.

As obras são continuação da pesquisa pela qual Lannes é conhecido. A base das cenas que cria é retirada de situações que vão desde bailes funk até fotografias históricas. Tudo junto e misturado, uma profusão carnavalesca de corpos, nudez e sensualidade. “Tem uma coisa de flertar com imagens clássicas e criar fantasias. Minhas pinturas deliram com a história e o inventário imagético do brasileiro.”

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Daniel Lannes, Sem Título (2018) - Foto: Mario Grisolli/divulgação
Daniel Lannes, Sem Título (2018) – Foto: Mario Grisolli/divulgação

Não é à toa que a inspiração da mostra é a antropofagia, conceito elaborado pelo escritor modernista Oswald de Andrade. O título “Dentição” vem da “Revista de Antropofagia”. “Quando ela foi lançada, em 1928, teve dois momentos. O primeiro foi chamado de primeira dentição, quando publicaram o manifesto antropofágico. Então, a ideia vem um pouco disso. Uma ironia, misturar lé com cré e dessacralizar tudo. A máxima era: ‘Interessa o que não é meu’. Pegar o poderoso do outro, digerir e cuspir algo novo, potencializado”, completa.

E é mais ou menos dessa forma que Daniel sempre trabalhou. No começo, retratava a si mesmo em cenas quentes, como no caso da série “Safe Sex”, em que aparece em cima de um sofá, penetrando uma melancia, ao lado de outra figura masculina.

Em “Crossdressed”, de 2014, recortou faces de amigos próximos e aplicou no corpo de mulheres com roupas vitorianas. Teve até autorretrato vestido de noiva. Com o tempo, conhecidos foram perdendo espaço. Sua forma de pintar também mudou. Mas sempre se podia encontrar cenas mais clássicas, como naturezas e personagens da época do Brasil Imperial, misturadas e em diálogo com suas folias. “Hoje, minha pesquisa tem pouco a ver com quem conheço”, reflete.

Daniel Lannes, O Prodígio (2018) - Foto: Mario Grisolli/divulgação
Daniel Lannes, O Prodígio (2018) – Foto: Mario Grisolli/divulgação

No entanto, o corpo e a brasilidade sempre estiveram presentes. Mesmo quando morou por alguns meses na Alemanha, no ano passado, ocasião de uma residência artística seguida por uma individual em uma galeria de Berlim. Era inverno, daqueles cortantes. “Foi bem engraçado. Pintava mulatas, índios e gente nua. Entravam no meu estúdio e não acreditavam”, diverte-se.

A exposição foi batizada de “Luz do Fogo”, referência à naturista, dançarina e escritora feminista brasileira Dora Vivacqua, mais conhecida como Luz del Fuego. Nos anos 1950, ela era vista desfilando nua pelas ruas do Rio com uma cobra entre os ombros.

Daniel pontua que o que lhe interessa é a ideia de sensualidade. “No Brasil, a nudez completa não é permitida, precisa de um fio-dental no meio. Essa coisa de falar, principalmente no Rio, de muita carne e corpo. Isso, para mim, tem a ver com uma história.” Dessas cenas sai o desejo, material farto para ele. “Os pintores viajantes, no século 16, retratavam o dia a dia daqui, e o corpo era algo que chamava atenção. Tudo isso pode ser fetichizado. Estou falando de relações de poder. E poder é sexo.”

Daniel Lannes, A Herança Asmat (2018) - Foto: Mario Grisolli/divulgação
Daniel Lannes, A Herança Asmat (2018) – Foto: Mario Grisolli/divulgação

Nascido em Niterói, observava o Rio de Janeiro pelas janelas de casa, no outro lado do mar. O gingado que emana das areias sempre chamou sua atenção. “Muita coisa aqui é dada como normal. Olho como se não tivesse me acostumado ou banalizado essas situações”, diz. E emenda: “Me sinto perplexo”.

A conversa segue e fica claro que perplexidade, no caso dele, não é moralismo, mas sim instigação, situações arrebatadoras que ele considera poderosas para serem problematizadas em uma pintura. “Se eu falo de história do Brasil, também estou falando de brasilidade, o popular, o erudito e o vernacular. E aí chega o churrasco, o baile funk…”, afirma.

Churrasco, aliás, é uma das palavras-chave que guiam as obras que serão expostas, além da pornochanchada, Copacabana e outros elementos que despertam o apetite visual. “É uma pesquisa que não se esgota em uma exposição”, avisa. E seguimos famintos pelos próximos passos.

Daniel Lannes – Dentição
Luciana Caravello Arte ContemporâneaRua Barão de Jaguaripe, 387, Ipanema, Rio de Janeiro
De 7 de junho até 7 de julho de 2018