Jesuton veste camisa animal print, calça denim e sapatos de couro e verniz, tudo Burberry - Foto: Bob Wolfenson, com styling de Osvaldo Costa
Jesuton veste camisa animal print, calça denim e sapatos de couro e verniz, tudo Burberry – Foto: Bob Wolfenson, com styling de Osvaldo Costa

Cantar sempre foi natural para Rachel Jesuton. “É como falar e respirar”, compara a britânica de 34 anos, 7 deles morando no Brasil. Quem a vê em cima do palco não tem dúvida disso, como aconteceu recentemente, quando se apresentou no Blue Note, em São Paulo, com a casa lotada.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

Criada em uma família de seis irmãos em Walthamstow, distrito de Londres, o pai, contador, e a mãe, funcionária administrativa de um hospital, não davam muita atenção para a voz potente da filha do meio. E, para ela, cantar não fazia parte de suas ambições. “A música esteve sempre dentro de mim, mas não considerava profissão. Gostava de entender as pessoas, as culturas, queria fazer algo que tivesse impacto social, via muita desigualdade no mundo”, conta ela, que ingressou na Universidade de Oxford para estudar Ciências Humanas.

Só no terceiro ano da graduação tomou coragem para se inscrever no show de talentos da universidade. Se cantar era natural para ela, a ideia de subir em um palco causava pânico. “Tinha muita vontade, mas suava frio com a possibilidade de me apresentar. Cantar é me expor, mostrar minha vulnerabilidade e minha sensibilidade. Pensar em exibir isso para as pessoas me apavorava.”

Jesuton, que prefere usar seu segundo nome, de origem nigeriana, ficou uma semana sem dormir até cantar “Walking on Sunshine” na frente dos colegas. Depois de Oxford, ela partiu para Cusco, no Peru, onde ficou dois anos estagiando para uma ONG e se apresentando em público. Foi convidada para integrar a banda de um bar, onde cantava de Bob Marley a The Police. “Estava em outro país, era outra língua, me soltei mais. Cantava até quatro vezes por semana e isso foi fundamental para suavizar o terror que sentia”, conta.

A cantora veste tricô de jersey de seda com mangas de couro e saia-lápis de couro, tudo Burberry - Foto: Bob Wolfenson, com styling de Osvaldo Costa
A cantora veste tricô de jersey de seda com mangas de couro e saia-lápis de couro, tudo Burberry – Foto: Bob Wolfenson, com styling de Osvaldo Costa

A vontade de fazer carreira na ONU a levou para um mestrado em Washington D.C. Na temporada americana, ela só estudava e não cantava. Percebeu que a vida ficou mais triste. “Já tinha estudado e cantado, só estudado e decidi que queria tentar passar uma temporada só cantando”, conta Jesuton, que planejou ficar seis meses em um lugar totalmente desconhecido para a experiência.

Desembarcou no Rio de Janeiro com o então namorado argentino, também louco para viver na cidade que estava no auge, em 2012, com a Copa do Mundo e as Olimpíadas se aproximando.

Jesuton espalhou cartazes pela cidade à procura de uma banda. Mas não teve retorno e começou a se preocupar, porque não queria trabalhar com outra coisa a não ser com música, isso não fazia parte de seus planos. Até que, um dia, estava andando na rua com amigos e uma voz cantando “Hallelujah”, de Jeff Bucley, surgiu como um sinal. “Se fosse escolher uma única música na vida para chamar a minha atenção, seria essa”, diz ela, que foi conversar com o cantor, o francês Alfredo Buendia, que a incentivou a também cantar nas ruas do Rio de Janeiro.

Jesuton gastou suas economias em um amplificador à bateria e foi para as ruas de Ipanema e do centro. Conquistou o público, chegou a ganhar até R$ 600 num dia bom e reafirmou seu propósito. “As pessoas falavam como a minha música estava fazendo diferença na vida delas. Até então, eu cantava só para mim, por isso não me dedicava. Quando percebi que mexia também com os sentimentos do outro, entendi que esse era o sentido que eu estava procurando e decidi colocar toda a energia nisso.”

Casaco matelassê e camisa estampada com o logo B. Tudo Burberry - Foto: Bob Wolfenson, com styling de Osvaldo Costa
Casaco matelassê e camisa estampada com o logo B. Tudo Burberry – Foto: Bob Wolfenson, com styling de Osvaldo Costa

Os vídeos gravados nas ruas pelos fãs viralizaram – especialmente um deles, em que canta “Wild Horses”, dos Rolling Stones – e chegou até Luciano Huck. O apresentador ligou pessoalmente para Jesuton, que não tinha ideia de quem ele era. “Fazia pouco tempo que eu morava no Brasil, não sabia nem o que era Globo”, ri.

Nesses sete anos morando no Rio, apareceu em vários programas de TV, gravou músicas para trilhas sonoras de novelas, fez seu primeiro álbum autoral, “Home”, e coleciona uma lista de nomes com quem já dividiu o microfone: de Seu Jorge a Otto, passando por Ana Carolina e Silva, só para citar alguns.

Foto: Bob Wolfenson, com styling de Osvaldo Costa
Foto: Bob Wolfenson, com styling de Osvaldo Costa

Há dois meses, resolveu se mudar novamente. Desta vez para a capital paulista. “Estava vindo muito para cá. Gosto da diversidade de São Paulo, que me lembra Londres.” É na nova cidade que ela começa a trabalhar em seu próximo álbum autoral, mas sem pressa para lançá-lo.

Jesuton não dá muitas pistas do que vem por aí. E também não gosta de definir seu estilo musical, que flerta com R&B, rock e até bossa nova. “É uma mistura de muitas coisas. Assim como eu, britânica, filha de nigeriano e jamaicana, e que já morou em muitos lugares.” That is Jesuton!

Cabelo de Solange Diass, maquiagem de Ian Ribeiro, tratamento de imagem da RG Imagem, agradecimentos Bob Wolfenson Estúdio, Boa Noite Estúdio e Acme Filmes

Leia mais:
“Não foi fácil ter que brigar por um espaço que deveria ser de todos”, diz Lellê sobre a batalha do passinho
Lázaro Ramos canta para crianças
“Rockteman”: os altos e baixos de Elton John