Marina Sena – Foto: Fernando Tomaz, com styling de Leandro Porto

Marina Sena sente falta das cores da terra do lugar onde nasceu. Natural de Taiobeiras, no norte de Minas Gerais, ao construir seu som e imagem usa até a textura do ar para descrever suas memórias afetivas ao dar forma à persona artística. A cantora se prepara para alçar voo solo depois de emprestar sua voz às bandas Rosa Neon e A Outra Banda da Lua. “Tenho muita saudade da minha casa o tempo inteiro”, conta à Bazaar.

Não é explícito, mas todo esse sentimento retrata suas origens e certo regionalismo de quem, hoje, vive em Belo Horizonte. “Não estou falando da terra ou do pequi, mas as palavras, melodias e ritmos têm a ver com o norte de Minas, o lugar de onde vim”. Em processo de finalização, o álbum de estreia – intitulado “De Primeira” -, será lançado agora em agosto e conta com 10 faixas. O nome vem de uma frase que costumava ser dita pela avó Estelina: “de primeira, as coisas eram diferentes.”

As músicas do álbum vêm sendo escritas ao longo da vida, com olhar bastante íntimo. Têm a ver com sua personalidade, e estavam guardadas para este debut solo – algo que sempre quis e nunca escondeu dos antigos companheiros. “Compus para todas as bandas, mas essas sempre guardei. Nem mostrava.”

Para ela, a melhor parte da independência nesse percurso é não ter de ponderar as ideias, seja na musicalidade ou até em um post nas redes sociais. “Gostoso demais”, diverte-se. Apesar de rápido, o processo entre as bandas foi enriquecedor. Tanto para respeitar a opinião alheia quanto para negociar e ceder quando não tinha mais argumentos. “Aprendi a conviver”, detalha.

O sucesso meteórico do Rosa Neon, por exemplo, os catapultou a uma turnê internacional antes mesmo do Brasil e até indicação ao Prêmio Multishow de Música Brasileira como Revelação do Ano em 2020. Mas encerrou as atividades em maio passado. “Com a pandemia, tudo parou, a gente não se encontrava. A coisa da equipe vai esfriando e você fica mais focado (em si). Os processos individuais afloram mais porque é o único jeito de se expressar”, argumenta.

Com letras sobre sua recém-descoberta força feminina afugentando relacionamentos tóxicos, o álbum é um recado para quem for amá-la: encare essa potência! “As pessoas vão entender o meu rolê. Não é só para dançar. Tem muita letra, e vai influenciar seu sentimento sobre a música”, explica. “Às vezes, é preciso sair de uma relação porque não se vê mais nada na frente.”

O disco foi feito à distância, em parceria com o produtor paulista Iuri Rio Branco. Eles só foram se conhecer, recentemente, depois de todo o trabalho gravado. Há dois singles lançados até agora. O carro-chefe “Me Toca” – que entrou no top 50 das músicas virais no Spotify Brasil e a levou a outdoors da campanha “Artista Radar” da plataforma de streaming, em maio -, e “Voltei Pra Mim”, com direito a clipe supersexy, recheado de remelexos em cima de uma moto.

Ainda por vir, “Temporal” é uma de suas faixas favoritas pela pegada introspectiva. Outra com lugar garantido na tracklist é a composição “Seu Olhar”, de sua autoria e gravada por Otávio Cardoso com participação de Hélio Flanders (Vanguart), dando sua própria interpretação. Mas ela promete outros ritmos e melodias chicletes, visitando diferentes partes do Brasil, de samba a axé, com uma vibe bem solar.

As composições de Marina costumam vir em momentos inusitados e ela nem sempre está preparada. “Quando está muito propício, com cama e velas, ou fogueira com violão, não faço. Nesse ambiente, vou querer curtir e não fazer música”. Surgem de repente, como quando está atrasada para um compromisso, e tem de cuspir as estrofes em 15 minutos. Depois, pena porque fica seis meses sem inspiração. Logo vem mais três e o ciclo se repete. “Em uma relação heterossexual, a gente tem uma visão muito masculina do amor e do ciúme, onde a mulher não tem uma participação. Esse disco traz esse protagonismo. É a visão dela sobre o amor”, conta.

Quando passou na seletiva do “The Voice Brasil”, aos 17 anos, Marina largou a escola e contou com apoio da família para seguir seu sonho. Sua força está na voz agreste, anasalada, aguda, inspirada nas lavadeiras e nas mulheres que cantam em igrejas. Cavando seu espaço no pop nacional, não gosta de nada que não a complete e se diz bastante eclética. “Amo e ouço todo dia Duda Beat, Anitta, assim como escuto Edu Lobo, Zé Vaqueiro, Gusttavo Lima“.

Marina é uma luz iridescente com seu pop alternativo dançante, regado a muito regionalismo – e cantando sobre vários tipos de amor. Em seu repertório, cabe todo mundo.