Cena do filme “Deserto Particular” – Foto: Ian Rassari

Antes de se tornar diretor e roteirista, ele se sentou na cadeira principal de uma sala de aula como professor de história. Também já percorreu incontáveis quilômetros dentro de prisões como agente penitenciário. Foi ainda atendente de farmácia e vendedor de bilhetes em uma rede de trens metropolitanos. O que trabalhos tão díspares podem ter em comum? “O trato com pessoas e a disposição para trabalhar com gente todos os dias. O fato de ter vivido em mundos tão diferentes foi essencial para me tornar uma pessoa mais empática, mais curiosa e farejadora da beleza alheia”, conta o cineasta Aly Muritiba, de 42 anos, natural da pequena cidade de Mairi, no interior da Bahia.

“Deserto Particular” (2021), seu filme mais recente, é o representante brasileiro escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para concorrer a uma vaga no Oscar 2022, na categoria Melhor Filme Internacional. Em 2021, o documentário “Babenco: Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou”, de Bárbara Paz, foi o escolhido para representar o Brasil na premiação, mas acabou ficando fora da disputa pela estatueta dourada.

A obra de Muritiba, estrelada pelos atores Antonio Saboia e Pedro Fasanaro, já havia vencido o prêmio do público da mostra paralela Venice Days, do Festival de Veneza. Um feito e tanto para o baiano que se mudou para São Paulo para cursar História na Universidade de São Paulo, em 1998.

Em seguida, dedicou-se a aprender cinema e TV na Faculdade de Artes do Paraná. “Tudo isso foi me treinando para ser um bom observador e um bom ouvinte”, contou à Bazaar. Depois de tanto tempo longe de casa, o diretor retornou ao árido sertão nordestino entre os meses de novembro e dezembro de 2019 para gravar “Deserto Particular”. “Foi a realização de um sonho retornar para casa. Um deleite poder voltar para filmar ali.”

O filme narra a história de Daniel, um ex-policial afastado da corporação por episódios violentos, que vive uma vida pacata até conhecer seu grande amor, Sara, por um aplicativo de relacionamento. Em meio ao sumiço repentino de sua amada, o homem de meia-idade, cuja principal atividade é cuidar do pai adoecido, decide atravessar o País em busca dela, no sertão da Bahia. O que ele não esperava era se encontrar, no fim desta viagem, com seus próprios preconceitos e com as amarras pré-estabelecidas da masculinidade e da heteronormatividade.

Sara é, na verdade, um personagem de gênero fluido (Robson, de nascimento). Para Muritiba, era um compromisso ético a escolha do ator ou atriz que tivesse uma realidade próxima à personagem escrita por ele. “Hoje entendo o compromisso da minha obra em relação a este tema e como foi necessária essa busca. Foi uma aventura encontrar Sara/Robson, mas Pedro Fasanaro veio como um presente.”

O ator não binário reflete sobre a importância de se viver personagens como ele no cinema. “Nunca tive muitas referências de atores, atrizes e personagens não bináries. Pensar e refletir sobre esse lugar é de uma intensidade que, sinceramente, não sei descrever. Temos de mostrar para o mundo que estamos aqui, que existimos, queremos ser ouvidas e amadas.”

Esta é a terceira obra do cineasta a lidar com os afetos masculinos na sociedade atual. Antes, ele fez “Para Minha Amada Morte” (2015) e “Ferrugem” (2018), dentro desta mesma temática.

Para ele, a maioria dos afetos dos homens heterossexuais são violentos e doentios. “Venho tentando entender quais são as formas de afetividade entre os homens. Me jogo neste tema. Para isso, fiz questão que o personagem de Daniel, que vive uma desconstrução no filme ao se deparar com uma realidade fora do seu dia a dia, fosse defendido por um ator cisgênero heterossexual, para que ele vivesse a mudança de mentalidade junto do personagem”, contou, revelando que a escolha de Antonio Saboia foi extremamente acertada. “Não queria que o ator fingisse essa desconstrução. Queria que ele vivesse e a viveu: Saboia desconstruiu Daniel”, completou o diretor.

O ator, que ficou conhecido por viver Maurício Gomes Carneiro, em “Bacurau “(2019), revelou que, para ele, a experiência proporcionou uma mudança de mentalidade interessante e inesperada. “Daniel se vê em um mar de questões e de novos olhares em meio a todos os seus preconceitos e necessidade de desconstruções, diante de questões machistas e homoafetivas. É muito profundo”, finaliza.

No resumo da ópera orquestrada no árido clima do sertão, “Deserto Particular” fala sobre amar e ser amado. Sobre desejar e deixar fluir. Sobre quebrar os gessos que prendem a sociedade e se permitir viver. “Mesmo que seja fugidio, que dure uma única noite ou termine no banheiro de uma rodoviária. Todos nós queremos viver um amor”, finaliza Muritiba.