Tempo Rei, inspirado na canção de Gilberto Gil – Foto: Divulgação

A verborragia de Marcela Cantuária não se limita às cores vibrantes das telas que pinta. A paixão pelas causas que defende é contagiante e sem respiro. Sua preocupação em levar arte aos menos favorecidos não é de agora. Desde o início da carreira, há uma década, dá oficinas de pintura em ocupações. Ativista, atua nas Brigadas Populares, organização nacional socialista que consolida ocupações pelo País.

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“(São) coisas que vão moldando o meu vocabulário com a pintura, elementos que vou trazendo para a minha linguagem”, resume a artista plástica à Bazaar. “Sou pintora e é isso que tenho para declarar.” O sotaque não nega a carioquice e as palavras somem na hora de reforçar a adoração pelo que faz.

A pisciana de 29 anos e sem artistas na família descobriu a paixão pelo ofício na faculdade de Belas Artes. “Sinto muito prazer em pintar, amo pintar.” De sua morada-ateliê no Grajaú, no Rio de Janeiro, onde mora com a gatinha Babalu, as aspirações são muitas: ícones femininos, maternidade, aborto, questões da criminalização do corpo da mulher, violência e guerrilheiras da ditadura.

Adicione pinceladas de veracidade (a sua realidade) e tom de crítica social. Inspira-se em cartazes mexicanos e da União Soviética, aqueles com punhos gigantes. “Quando escolho pintar uma mulher real, seja Marielle (Franco), Nise da Silveira ou Margarida Alves, estou, de alguma forma, ajustando as imagens e a representação da mulher na pintura.”

Trajetória

Marcela Cantuária – Foto: Divulgação

Caçula de uma família de três filhos, pai guia turístico e mãe dona de casa, a irmã mais velha, Manuela, é escritora, colunista do jornal Folha de S. Paulo e roteirista do Porta dos Fundos, enquanto o irmão, Gustavo, fez faculdade de Cinema. “Não teve o dia em que decidi ser pintora porque sempre pintei. Todo mundo na infância pinta, mexe com cor, mas não tive intervalo de escolher uma carreira e abandonar. Simplesmente continuei.”

Apesar da grande taxa de evasão no curso, não desistiu. “É uma batalha conseguir pintar as coisas que quer sem ser criticado. Ou usar paleta sem aporrinhação, se está pintando igual ao Rembrandt ou ao Caravaggio.” Em seu rol aspiracional está Jorge Galeano, por exemplo.

Pintura Duros Tijolos de Medo, baseada na obra de Carlos Drummond de Andrade – Foto: Divulgação

Em 2018, fez sua primeira individual em Brasília. No final do ano seguinte, seu début no Rio, no Centro Hélio Oiticica, já foi um sucesso. “Tinha fila para comprar, galerista, galera me ligando às seis da manhã… Uma loucura”, relembra ela, que depois fez uma exposição menor na galeria A Gentil Carioca também com sold out.

Àquela altura, já havia conquistado nomes como Caetano Veloso e Adriana Varejão – de quem ficou próxima, tanto que seu roomate, Hebinho, é assistente da artista. A chave do sucesso virou quando Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp (o mesmo museu para o qual ela doou uma obra para o acervo) publicou um trabalho em seu Instagram.

Urutu

Tela retrata Espiral de Ilusão, das letras de Criolo – Foto: Divulgação

Agora, Marcela foi chamada para ilustrar um oráculo chamado Urutu, do fotógrafo Pedro Garcia (conhecido pelo perfil no Instagram Cartiê Bressão). A série de 45 pinturas (90 x 77 cm) tem como proposta dar um giro pela história recente do Brasil. Pinça expressões da música, da literatura, da poesia e da arte. “Arquétipos como A Sede do Peixe, de Milton Nascimento, Oculta Sendo Voraz, de Linn da Quebrada (Necomancia, do feat. com Gloria Groove). A ideia é ter, por exemplo, Jorge Amado, Conceição Evaristo e uma série de coisas”, adianta.

Hélio Oiticica também será referenciado por Seja Marginal Seja Herói. “Nem sei como vou reproduzir um Oiticica. Que moral, que responsa”. Ela quer expor tais pinturas Brasil afora. Inclusive, não tem pressa em vendê-las. Mas gostaria muito que ficassem juntas e por aqui.

Em sua brasilidade, Marcela busca autoconhecimento e resgatar autoestima de forma compensatória àquilo que se vive. “Não esse sentimento nacionalista, patriótico, que é mentiroso”, brada. Quando escolhe pintar uma dessas mulheres – sejam elas sindicalistas ou guerrilheiras – está ajustando a representação feminina. “Vou pesquisando e entrando na história de cada uma. Essas mulheres foram muito raçudas”.

Mas sua arte não quer ser apenas denúncia. Já que até um meme pode conter tal teor. “Trazer horizontes de esperança através da pintura”. É desta forma, com adorável devoção, que constrói seu caminho, tentando não pular nenhuma etapa do processo. E assim que a pandemia passar, sua trajetória terá novos caminhos: residência de arte no Fountainhead, de Miami.