Foto: Reprodução/Instagram/@dicoutof

A delicadeza com a qual Di Couto representa a figura feminina é emocionante. Inspirada por sua trajetória pessoal, a artista trouxe elementos para o seu trabalho que homenageiam seu próprio caminho, o das mulheres que admira e de outras milhares que compartilham a mesma vivência.

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A arte entrou na sua vida através de seu avô que, além de diretor de arte em uma agência de publicidade, também era artista plástico. “Ele foi um exemplo. Tive uma conexão com isso desde pequena, porque amava o ateliê do meu avô, o cheiro de tinta, todo o ambiente. Sinto que ele foi uma figura muito importante para me conectar com a arte e para valorizar isso dentro de mim também. Comecei a pintar com ele oficialmente com 12 anos, mas sempre estive em seu ateliê. Ele tem guardado até hoje desenhos de quando tinhqa cinco anos e ele já achava incrível”, lembra.

Apesar de ter uma iniciação com a arte quando ainda era criança, Di Couto demorou para aceitar que esta podia ser sua profissão. “Por mais que sentisse que tinha uma facilidade enorme para isso, tinha um lado que me assustava um pouco nessa imagem de vida de artista, de altos e baixos, todos os esteriótipos. Mas tudo aconteceu de uma forma muito orgânica, os trabalhos de arte foram crescendo sem que eu fizesse muita força para que isso acontecesse e muito através do grafite”, conta.

Foto: Reprodução/Instagram/@dicoutof

A falta de representatividade feminina no grafite foi um dos impulsionadores para que a carreira de Di alavancasse: “quando comecei a pintar mesmo, na rua, senti que aquilo foi um diferencial e, aos poucos, comecei a fazer trabalhos comerciais e a pensar na possibilidade de viver de arte. Até que uma hora fui engolida pela arte mesmo e comecei a me dedicar profissionalmente só a isso”.

“Tem mil desafios de como se comportar no grafite, qual a melhor forma de entrar, demorei para ser aceita, muito mais tempo do que se fosse homem. Ainda mais com esse esteriótipo que existe do homem dentro do grafite, aquela figura de alguém muito macho. Então a mulher entrar nesse universo, ainda mais querer ser feminina neste contexto, é um ato de rebeldia. Mas senti que, com o tempo, fui fazendo minha arte e chegando de igual para igual”, analisa Di.

Maternidade

Ao se tornar mãe, o universo de Di Couto virou de ponta cabeça. Entre diversas questões, a artista decidiu se afastar do grafite para não atrapalhar a amamentação de sua filha – já que a tinta spray pode fazer mal à criança. “Óbvio que vivi a intensidade total da maternidade, principalmente por passar por isso sem uma rede de apoio. Isso não me dava tempo de voltar para a arte, até porque comecei a trabalhar em outra área neste período para fazer dinheiro”, conta.

Foto: Reprodução/Instagram/@dicoutof

Mas a maternidade também surgiu como um novo combustível em seus sentimentos: “aquele acúmulo de experiências, ver o quão difícil é ser mãe, o quanto isso é pouco falado, a potência que isso tem na mulher, ver meu corpo transformado, minha cicatriz, é uma espécie de mutação mesmo. Fui começando a perceber o quanto isso é desvalorizado, o quanto a mulher é acusada e não tem apoio da sociedade. Quando comecei a conversar com outras pessoas sobre ser mãe solo, comecei a perceber o quanto aquilo é normal para a nossa sociedade, o que é uma coisa assustadora.”

Quando Di Couto se permitir externar tudo isso em seu trabalho, se assustou com o tamanho da repercussão e com quantas mulheres se identificaram, a ponto de se abrir com ela através de textos e mensagens. “As primeiras artes foram muito despretensiosas, mas foi ai que senti que era hora de voltar a pintar, que tinha muita coisa para falar. Senti que o voltar foi botar para fora tudo o que estava dentro de mim”, completa.

A maternidade acabou impactando profundamente a estética dos trabalhos de Di, que confessa que, apesar de ter menos tempo, passou a se sentir mais corajosa. A artista já queria mudar seu trabalho há algum tempo, mas seguia fazendo um trabalho que enxerga como mais visualmente agradável, padronizado e realista. Ser mãe a impulsionou a colocar para fora o que realmente queria falar.

Foto: Reprodução/Instagram/@dicoutof

“Toda essa estética nasceu do peito da mulher. Foi a primeira coisa que quis retratar, queria desmitificar o seio feminino com a amamentação. Por isso, quase todas as minhas obras tem uma gota de leite no peito. A partir daí começou a nascer toda uma nova estética, com referências da minha criação, das mulheres da minha família”, conta.

Um dos pontos marcantes dos trabalho de Di Couto é a retratação da mulher com só um seio. A inspiração veio de uma história que a artista ouviu muito, sobre Diana, amazona e deusa da caça. “Esse mito me chocava quando era mais nova, porque dizia que as guerreiras amazonas tinham que cortar um dos seios para conseguirem carregar a arma sem sentir dor. Me impressionava muito imaginar um exército de guerreiras só com um seio e quis trazer isso na imagem da mãe”, explica.

As mulheres receberam este tipo de trabalho com mais facilidade, mas a artista sente que com os homens foi mais difícil. “Ano passado decidi colocar lambe-lambes de seios em todo o Rio de Janeiro. Foi engraçado quando um grafiteiro me falou que o que eu fiz foi muito agressivo. Achei a colocação interessante e conversei com ele que, na realidade, a violência tava na maneira como ele enxergou aquilo. Sinto que é uma coisa que incomoda mesmo, mas talvez a gente tenha que incomodar para conseguir mudar”, finaliza.

 Di Couto foi uma das artistas convidadas pela Bazaar para mesclar suas pinceladas com peças da Gucci. O resultado – que também conta com ilustrações de Linoca Souza, Lela Brandão e Bruna Romero – você encontra na nossa edição de agosto.