Christian Dior com a modelo France Gheys na preparação de sua primeira coleção nova-iorquina, em 1948 – Foto: Divulgação

Poucos meses depois de apresentar o icônico New Look (que marcaria a moda para sempre), na Paris de 1947, Christian Dior embarcou para uma jornada rumo a Nova York, nos Estados Unidos. O costureiro nunca havia cruzado o Atlântico e foi de encontro a um despertar estético, arquitetônico e cultural naquele amor à primeira vista.

Essa viagem de tempo e espaço pede passagem no livro “Christian Dior: Designer of Dreams” (Rizzoli), sucessor do documentário de mesmo nome. Conta a saga da casa de moda com início no número 30 da Avenue Montaigne, em Paris, e que ganhou o mundo ao se lançar para o coração da Big Apple. Mais de 70 anos depois, essa história ainda aterrissa em forma de exposição no nova-iorquino Brooklyn Museum, a partir desta sexta-feira (10.09).

Clique da coleção Outono 2021 – Foto: Divulgação

Montada no Beaux-Arts Court (espaço projetado por McKim, Mead e White, em 1893, que ajudou a definir a Renascença Americana), a mostra apresenta as primeiras criações de alta-costura da Dior, algumas delas inéditas aos olhos do público, e se misturam às peças do museu em uma nova narrativa cenográfica depois de passagens por Paris, Xangai e Londres. “Christian Dior transformou a repentina fama em torno de seu nome na expansão internacional de sua maison, tornando-se um precursor da moda globalizada contemporânea. A abertura da primeira filial em Nova York, em 1948, serviu como prelúdio para essa conquista mundial”, resume a curadora Florence Müller sobre a icônica loja no edifício Heckscher, em plena Quinta Avenida.

Detalhes do ready-to-wear de outono 2021 – Foto: Divulgação

Dior usou seu poder de influência real – décadas antes das redes sociais – para mudar a cultura em geral, como explica o curador de moda do museu Matthew Yokobosky. “Após a Segunda Guerra Mundial, e com a introdução de suas tão aclamadas silhuetas, as criações volumosas de Dior evitaram as modas determinadas pelo governo, reposicionando o jeito de se vestir no trabalho para as esferas dos sonhos”, arremata.

A visita, que durou uma década, fez o criador da Dior se apaixonar pelas atrizes de Hollywood como Lauren Bacall, Marilyn Monroe e Rita Hayworth. Todas sonhavam em se vestir com seus suntuosos vestidos e viraram clientes fiéis, e até amigas, no caso de Marlene Dietrich. Esse encantamento cruzou gerações e a tradição da maison nos red carpets vestiu nomes como Elizabeth Taylor e, mais recentemente, Natalie Portman a Jennifer Lawrence.

Detalhes do ready-to-wear de outono 2021 – Foto: Divulgação

Os vestidos que atravessaram importantes premiações à la Oscar aparecem na sala de toile, dedicada aos ateliês, celebrando as petites mains (pequenas mãos, em tradução livre), onde a abóbada central foi redesenhada como um jardim encantado com um céu constelado por estrelas.

As múltiplas paixões e inspirações de Dior, como as flores, ganharam seções específicas ao contar como o designer explorava a riqueza cromática e sensorial, que dita seu savoir-faire até hoje. Caso do Colorama, um armário repleto de curiosidades, revelando o papel dos acessórios, perfumes, maquiagens e chapéus de Stephen Jones.

A expografia foi pensada para costurar o acervo do Brooklyn Museum com a história da Dior. Um raro biombo (do inglês folding screen wall ou FSW) de dez painéis ebanizados de Charles Eames e Ray Eames (datado entre as décadas de 1940 e 1950) é um dos highlights, enquanto os modelos das históricas linhas Corolle e En Huit são exibidas ao lado de pinturas de Paul-César Helleu, dos favoritos do monsieur.

Mulheres protestam contra o New Look, na Chicago de 1948 – Foto: Divulgação

Trabalho semelhante se fez na apresentação dos diretores criativos, cuja trajetória se entrelaça à da linha do tempo da história da arte. Compõem a timeline Yves Saint Laurent, Marc Bohan, Gianfranco Ferré, John Galliano, Raf Simons até Maria Grazia, que exibe suas criações no Centro Elizabeth A. Sackler, dedicado à arte feminista.

O olhar dos fotógrafos que fizeram história nesse septuagenário da Dior também aparece na retrospectiva: Horst P. Horst, Irving Penn, Henry Clarke, Lillian Bassman, Frances McLaughlin-Gill, William Klein, Annie Leibovitz, Herb Ritts e David Lachapelle, que capturaram as silhuetas extravagantes do estilista fundador e de seus sucessores, ganham espaço ao lado da icônica imagem Dovima and the Elephants, de Richard Avedon.

Lenço da coleção de outono 2021 – Foto: Divulgação

Enquanto caminha para seu centenário, a Dior modela o sonho de uma nova geração com uma visão de mundo que traz a inclusão e o respeito como diretrizes filosóficas. Mais que justo em tempos de fluidez!