Cara a cara: Caroline Vreeland - Foto: Fe Pinheiro / Harper´s Bazaar
Cara a cara: Caroline Vreeland – Foto: Fe Pinheiro / Harper´s Bazaar

Caroline Vreeland é uma diva às avessas. Mulher magnética, dessas que não passam despercebidas jamais, silhueta de pin up, traços perfeitos. Requisitos que a gabaritariam, sem dificuldade, ao patamar de mais um rostinho bonito em Los Angeles, sua casa há oito anos, maior concentração de aspirantes ao estrelato por metro quadrado. Mas não. Sua paixão pela música e pelos livros falou mais alto do que qualquer sonho hollywoodiano, ainda bem. Bisneta de Diana Vreeland, ícone máximo de moda e editora de Harper’s Bazaar entre 1936 e 1962, herdou da bisavó a personalidade complexa e a predestinação a uma vida nada ordinária.

Aos 27 anos, ela começa a chamar a atenção com seu estilo boyish e, sobretudo, com suas canções que evocam sentimentos profundos, obscuros até, bem como os hits dos anos 1990, tipo Portishead ou Fiona Apple.“Canto desde os 8 anos e escrevo todas as minhas canções, inspiradas em alguma experiência pessoal ou em algo que eu estiver lendo”, diz ela em entrevista à Bazaar Brasil, no hotel Peninsula, em Paris.

O som ao redor: top Michael by Michael Kores; trench coat Barbara Bui; shorts Christine Phung; Christian Louboutin para Alexandre Vauthier; cabeça John Nollet; pulseira Stella and Bow; e anel Tat2  - Foto: Fe Pinheiro
O som ao redor: top Michael by Michael Kores; trench coat Barbara Bui; shorts Christine Phung; Christian Louboutin para Alexandre Vauthier; cabeça John Nollet; pulseira Stella and Bow; e anel Tat2 – Foto: Fe Pinheiro

“Meu próximo singleIn Ruins, é sobre uma garota que acorda depois do fim do mundo e descobre que todos se foram e ela está sozinha em um mundo pós-apocalíptico. Eu me coloco no lugar dos personagens e tento sentir a dor deles. Para mim, é como uma terapia: pegar um sentimento negativo e transformar em arte é algo bem saudável.”

Na capital francesa para assistir aos desfiles da alta-costura,Caroline assume seu lado mais feminino e sexy, sempre com perfume rocker.“No dia a dia, uso muito preto, quase nada de estampas. Neste exato momento, estou me descobrindo e o que gosto de usar. Sou bem minimalista, mas tenho dois braceletes de marfim da minha bisavó – são meus acessórios preferidos.” De Diana herdou também o savoir-vivre, a determinação e a coragem para correr atrás de um sonho.“Minha bisavó faleceu quando eu tinha apenas 2 anos,eu a conheci, mas, é claro, não me lembro. Um dia, alguém me pediu para escrever uma carta para ela e confessei, embora pareça bobo, que eu sentia o seu poder em mim.”De fato,Caroline exerce um certo poder, espécie de carisma hereditário.“Diana cresceu com sua mãe dizendo que ela era feia, e que nada de interessante iria acontecer, mas ela sabia que tipo de vida queria e construiu uma para si própria”, relembra. “Quero poder dizer o que eu quero, sem filtros. Coloco os meus sentimentos mais sinceros e energia na minha música.”

Genética boa: camisa de seda Alexandre Vauthier e saia de couro Irfé - Foto: Fe Pinheiro / Harper´s Bazaar
Genética boa: camisa de seda Alexandre Vauthier e saia de couro Irfé – Foto: Fe Pinheiro / Harper´s Bazaar

Filha de um diplomata alemão e uma executiva do mercado imobiliário, ela nasceu em Washington e passou a infância na Califórnia, sem relação direta com o meio artístico. Mais tarde, participou de um teste para o programa American Idol. E, apesar de não ter chegado à final, foi lá que tudo começou:“Eles queriam construir uma estrela do zero, mas eu já sabia exatamente o que queria fazer, já estava pronta, então não correspondi ao perfil do programa, não estou disposta a ser moldada”.

Após uma breve carreira como atriz, em que conheceu o atual namorado, o ator Cameron Klippsten, Caroline decidiu se dedicar totalmente à música, mesmo sem descartar a ideia de voltar a atuar.Afinal, estar baseada em Los Angeles é um convite a qualquer carreira artística.“Pessoalmente, prefiro morar em São Francisco, mas tenho de admitir que LA é a cidade certa para quem quer uma carreira musical.” Carreira que, em pouquíssimo tempo, já conta com trabalhos com produtores renomados, como Scott Storch e Evan Bogart, e uma colaboração com o guitarrista do Florence and the Machine, Rob Ackroyd. Nada disso sem ferrenha dedicação: foram anos de aulas de canto, estudo e amadurecimento para o projeto que só agora tomou forma. Seu primeiro single,The Mauling, tem linguagem moderna, com leve toque onírico. Sua voz afinada vem envolta em batidas eletrônicas quase tribais, e o clipe é uma experiência visual à parte – misterioso como um filme de suspense.“Escrevi essa música baseada em uma história real,que aconteceu com a minha tia-avó, ela foi atacada pelas costas por adolescentes nas ruas de Nova York.”

A música já é um sucesso nas redes sociais,principalmente no Instagram.“Ele tem uma participação muito especial na divulgação do meu trabalho, especialmente com os vídeos, pois tenho feedback instantâneo do público. É maravilhoso ter essa conexão com as pessoas.” Sob a hashtag #CVtribe, encontramos fotos de seu cotidiano, intimidade, viagens, festas, dias de sol em LA e muitos vídeos. São, em sua maioria, teasers do que vem por aí – os principais responsáveis para a ansiedade generalizada sobre seus próximos passos.“Minha bisavó estava sempre desafiando as pessoas a fazer algo novo, e eu quero fazer isso também. Através da minha música, quero que as pessoas se identifiquem, que se sintam estimuladas de alguma forma.”

Top e sapatos de couro Barbara Bui; e saia Alexandre Vauthier - Foto: Fe Pinheiro / Harper´s Bazaar
Top e sapatos de couro Barbara Bui; e saia Alexandre Vauthier – Foto: Fe Pinheiro / Harper´s Bazaar

Para escrever e se inspirar, ela escuta de Kanye West ao jazz- man Ornette Coleman, passando pela anglo-jamaicana FKA Twigs.“Adoro o universo dela, me fez pensar muito na construção de uma identidade visual nos vídeos e, para isso, eu tenho uma ótima equipe:compartilhamos a mesma energia criativa, são como a minha família.” Por família entende-se o diretor Stephen Garnett e o produtor musical Jaylien Wesley, que trabalham com ela desde o começo e formam, com o empresário Jerren, o coletivo Bless and See.“Tenho sorte de ter o apoio de muita gente. Shea, minha roommate, é uma ótima influência nos meus planos de carreira. Falo o dia inteiro por mensagens de texto com a minha irmã, Alex,e meu namorado, Cameron – isso me ajuda a manter os pés no chão.”

O mundo da moda também não tira os olhos de Caroline. Fã de marcas como Barbara Bui – grife da qual é o rosto da coleção de pre-fall –, ela sonha em se apresentar durante um desfile. “Acho que meu som combina com isso”, opina. Outro estilista que adora é Alexandre Vauthier. “Ele fez um sutiã para eu usar em um editorial, era lindo, mas, claro, ficou pequeno”, conta, com muito bom humor, quando se refere aos seios fartos por natureza, escondidos quase sempre, como uma espécie de marca registrada de estilo, junto à pele perfeita, com quase nada de maquiagem. “Sou obcecada pela minha pele, só uso maquiagem para fotos. No dia a dia, uso muitos cremes, principalmente à base de vitamina C.”Perfume? “Sempre o mesmo, Amber Gris, da Balmain”, rebate, e relembra a irreverente coluna Why Don’t You?, de Harpers Bazaar, na qual Diana Vreeland dava conselhos para mulheres modernas. Caroline também tem o seu: “Por que você não… carrega sempre um livro na bolsa? Não se deixe levar pela solidão, abra um livro em qualquer lugar e você não estará nunca mais sozinha, você sempre terá seus amigos ali”, ensina.

Entre livros, discos, lembranças e tantos anseios, Caroline se prepara para lançar seu maior sonho, o primeiro álbum, In Ruins, que sai em meados deste ano. É que, assim como sua bisavó costumava dizer:“Você só tem uma vida,aquela que você conhece, constrói e faz o melhor a cada dia”. Sábias palavras de quem viveu ao extremo e que parecem ter ecoado de forma certeira em Caroline.