Fascínio: a modelo Nadja Auermann, em 1995, calça Chanel em ensaio de Helmut Newton - Foto: reprodução
Fascínio: a modelo Nadja Auermann, em 1995, calça Chanel em ensaio de Helmut Newton – Foto: reprodução

Por Kênya Zanatta

Entre sapatinhos de cristal e botas de sete-léguas, crescemos embalados por histórias de calçados capazes de transformar a vida das pessoas. Mas o fascínio por um belo par de saltos altos tem seu lado sombrio: o prazer dos olhos é frequentemente acompanhado pelo martírio dos pés. Essa dualidade é o ponto de partida da exposição que o museu Victoria & Albert inaugura neste mês em Londres. “A mostra examina a relação obsessiva que temos com algo que deveria somente nos ajudar a caminhar, mas tem se tornado cada vez mais alto, desconfortável e nada prático”, explica a curadora da mostra, Helen Persson. “São cerca de 250 pares masculinos e femininos, produzidos ao redor do mundo num período de 2.000 anos, incluindo algumas das peças mais espetaculares da história.” Entre as raridades, uma sandália folheada a ouro do Egito faraônico e calçados que já frequentaram os pés da rainha Victoria ou de Marilyn Monroe.

Fetiche: sapatos em 3D da brasileira Andreia Chaves - Foto: reprodução
Fetiche: sapatos em 3D da brasileira Andreia Chaves – Foto: reprodução

O status que os sapatos conferem sempre foi proporcional ao desconforto que infligem, já que somente os privilegiados podiam se dar ao luxo de não conseguir caminhar. Ilustração extrema dessa máxima, os sapatos de lótus eram o sinal distintivo das beldades chinesas até o século 19. Para atrair pretendentes, muitas mulheres tinham os pés quebrados e amarrados desde a infância, a fim de caberem nos diminutos calçados.

E, embora haja exemplos de que os homens também sucumbiram a extravagâncias nos pés, a exposição deixa claro que ainda são as mulheres que correm os maiores riscos para garantir um porte de rainha. Prova disso são as vertiginosas plataformas de Vivienne Westwood,que derrubaram a top Naomi Campbell durante desfile em 1993 – tombo que entrou para os anais da moda.

Paduka, calçados da Índia, com detalhes em ouro e prata - Foto: reprodução
Paduka, calçados da Índia, com detalhes em ouro e prata – Foto: reprodução

Em séculos anteriores, era nas cortes reais europeias que as tendências davam seus primeiros passos: impossível ser considerada elegante na Versalhes do século 18 sem um Pompadour nos pés. Hoje, é um grupo seleto de designers que domina as vitrines de São Paulo a Xangai.

Presença brasileira: a Melissa Lady Dragon by Vivienne Westwood,  lançada na coleção inverno 2009 da marca
Presença brasileira: a Melissa Lady Dragon by Vivienne Westwood, lançada na coleção inverno 2009 da marca – Foto: divulgação

A exposição inclui modelos de Manolo Blahnik, o preferido de Carrie Bradshaw na série Sex and the City, e de Christian Louboutin. Sugerida nos saltos altos usados no dia a dia, a conotação erótica atinge alto grau em sapatos como as getas – sandálias de madeira elevadas usadas pelas gueixas japonesas – e botas de couro dignas de fantasias fetichistas. A mostra investiga as pistas para o futuro dos sapatos, com destaque para a linha Invisible Naked, da designer brasileira Andreia Chaves. Combinando um estudo da ilusão de ótica com a impressão 3D, o conceito seduziu famosas como Beyoncé e Björk.

Shoes: Pleasure and Pain
de 13 de junho a 31 de janeiro.

Obsessão: a luxuosa sandália peep toe Periquito, da britânica Caroline Groves, com couro, cetim, penas e prata - Foto: reprodução
Obsessão: a luxuosa sandália peep toe Periquito, da britânica Caroline Groves, com couro, cetim, penas e prata – Foto: reprodução