Do sertão para o mundo: “Bacurau” estreia nos cinemas do Brasil

Premiado em Cannes, filme mostra a realidade brasileira em forma de ficção

by redação bazaar
Foto: Victor Jucá

Foto: Victor Jucá

Por Mariane Morisawa, de Cannes

Quem assistiu a “O Som ao Redor” e “Aquarius” sabe que o diretor Kleber Mendonça Filho tem a capacidade de, por meio de uma história de ficção, abarcar um panorama da sociedade e da história do Brasil. “Bacurau”, seu terceiro longa de ficção, dirigido em parceria com Juliano Dornelles e vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes, também é assim – e, ao mesmo tempo, é diferente por abraçar sem medo diversos gêneros cinematográficos, do western ao terror, passando pela ficção científica, a aventura e o filme de cangaço, algo ainda raro no cinema brasileiro. O longa-metragem entra em cartaz nesta quinta-feira (29.08).

“Meus filmes sempre tiveram algum elemento assim, em uma cena de pesadelo, em um posicionamento de câmera”, disse Mendonça Filho em entrevista em Cannes. “Mas, desta vez, com a ajuda de Juliano, eu aloprei e enfiei o pé na jaca. Foi muito libertário. Mas só agora estou entendendo a estranheza dele no cinema brasileiro.”

Foto: Victor Jucá

Foto: Victor Jucá

A Bacurau do título é uma pequena vila no sertão nordestino que, graças ao prefeito pouco interessado na comunidade, sofre com falta de água e remédios. Teresa (Bárbara Colen) volta da cidade grande para o funeral de sua avó, a matriarca de Bacurau. Lá, ela vai reencontrar Pacote (Thomás Aquino), o matador local que quer mudar de vida, e a médica que sofre de alcoolismo Domingas (Sonia Braga, que fez o papel principal em Aquarius), entre outros. Mas, de repente, Bacurau some do mapa, e os celulares ficam sem sinal. Uma série de assassinatos acontece. Uma dupla de motoqueiros (Karine Teles e Antonio Saboia) aparece, assim como um grupo de americanos liderados por Michael (Udo Kier, ator alemão conhecido pelos filmes de Lars Von Trier).

Para mergulhar na realidade local, os atores ficaram no sertão do Seridó, divisa entre Rio Grande do Norte e Paraíba. “Eu não conhecia o Brasil. Sempre quis ir. Só sabia do carnaval, das pessoas bonitas, da loucura”, disse Kier. “Mas sabia que não iria rodar lá. Me pegaram no aeroporto e viajamos cinco horas. Fora do hotel, tudo era o set de filmagem. Era tudo realidade, nada foi construído. Nós jantávamos todas as noites no hotel, que não era cinco estrelas como em Cannes. Como havia muitos atores não profissionais, eu não podia atuar. Precisava ser mais discreto”, completou o ator, que adorou a experiência.

Foto: Victor Jucá

Foto: Victor Jucá

Para Bárbara Colen, que também participou de “Aquarius”, a experiência foi fundamental. “O processo de imersão foi muito importante. O sertão é muito poderoso.” Thomás Aquino pegou dos sertanejos a expressividade gestual e do olhar, essenciais para Pacote. “Tem simpatia, mas até onde você fez por merecer”, explicou. O povo pode ser maltratado pela falta de condições e por gente que se acha superior, mas é forte – e resiste.

“É um filme de gênero, mas é sobre o Brasil. É sobre afeto, comunidade, violência”, disse Mendonça Filho. Juliano Dornelles completou: “Cinema tem muitas utilidades. Às vezes, ele desenvolve uma nova visão das coisas. No nosso País, estamos o tempo todo lidando com injustiças. Com gente agindo de maneira egoísta, ou violenta. E o outro lado, muitas vezes, sem condições de se defender”. Em um momento em que a cultura brasileira está sob ameaça de falta de recursos e políticas públicas, a existência de Bacurau e sua premiação em Cannes são também atos de resistência.

Leia mais:
Cinco figurinos de filmes de Tim Burton que fizeram história
“Kill Bill” eterniza Uma Thurman como símbolo de vingança
Amy Adams: cinco filmes que amamos da atriz ítalo-americana