Los Hermanos - Foto: Divulgação
Los Hermanos – Foto: Divulgação

Por Maria Ribeiro

Faz três anos agora. Parece perto e longe ao mesmo tempo. Cheguei na Fundição Progresso para o que era o en- saio geral deles e uma quase estreia pra mim. Fui de jeans e camiseta e acho que nem rímel passei. Queria configurar diretora e, por alguma tolice, associei o Givenchy waterproof a uma fragilidade que era bem mais jogo se eu admitisse de vez. Como se tivesse de escolher entre tocar um set de filmagem ou ser a garota que gosta de bolsas. A equipe era pequena: um fotógrafo e um técnico de som. Mas eu tava sozinha (e isso é mais um fato do que uma queixa).

Acho que, desde que mudei de escola, na sexta série, nunca mais tinha me sentido assim: sem pertencer. Meu ‘ingresso’ incluía estar no palco e ver passagem de som, ou seja, a melhor vista de todas. Mas não tinha o calor da ‘geral’, o prazer de ser mais uma na plateia, invisível e protegida pela manada. Nunca tinha pensado em como ser público é confortável. No entorpecimento de cantar em coro, esquecida de si.

Naquele 16 de abril de 2012, na mesma casa de shows na Lapa onde cinco anos antes eu havia me despedido, de forma catártica, da trilha sonora que embalou meus 20 anos, redesenhei minha história com a banda mais marcante de todo e qualquer ser humano já na casa dos 30. Aqueles caras que levantaram a voz para dizer que é “no não que se descobre de verdade o que te sobra além das coisas casuais”. Os mesmos que anunciaram a glória de perder. Para quem, como eu, começava a vida adulta achando beeem difícil mudar de fase no videogame, ser madura e pagar conta, fazer imposto de renda e ter filho, Los Hermanos era pura autoajuda. Eu acreditei em tudo, e me senti livre pra ser errada. Pior que isso, passei a ter orgulho da minha própria tristeza. Melancolia ostentação.

Foto: Divulgação
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Admirava aquele discurso como quem ama o Woody Allen e o Chico Buarque, com a tranquilidade de saber que os caras moram na nuvem do Steve Jobs e nunca vão me desapontar. Podendo inventar e projetar à vontade, porque tudo vai sempre ficar igual, eles lá e eu aqui. Pessoas jurídicas, ideal, teoria. Tipo Cuba ou ménage a trois… Uma banda é um ser abstrato, que se completa de acordo com quem ouve. Estar ao vivo às sete da manhã pra pegar a van e ir pro aeroporto durante muitos dias seguidos com quem você só ouvia no carro é mais ou menos como lua-de-mel versus casamento de vinte anos. Se você sobrevive à vida real, o amor passa a valer muito mais… Fiquei dez dias na cola dos barbudos, e consegui registrar no meu documentário, que estreia neste maio, não só o dia a dia de uma turnê, mas um sentimento bonito de estar entrando na segunda parte da vida e, se é possível, manter o tom romântico da juventude nas novas escolhas. Passado e futuro. Uma banda que existe, mas não existe. Um casamento aberto e de verdade.

De lá pra cá, muita coisa ficou diferente. O Rodrigo lançou Cavalo, disco triste e lindo. O Barba voltou a tocar com o Acabou La Tequila, uma das primeiras influências do Los Hermanos. O Bruno é o único que teve filho, na verdade dois, o que, para mim, é a obra que mais importa. E o Marcelo tá em turnê com a Banda do Mar, aquele Prozac em forma de álbum. Pra mim, tudo também mudou. Perdi meu pai e alguma inocência. Lancei um livro e comprei dois cachorros, mas tô contente de manter esse resto de meninice que é gostar de uma banda de rock, e achar que alguém no mundo vai descobrir exatamente o que eu sinto e fazer uma música que me faça rir e chorar, tomar cerveja e cantar, e o resto a gente vê como faz.