Por Cibele Maciet

Yves Saint-Laurent e Pierre Bergé, 1985. Foto: Divulgação
Yves Saint-Laurent e Pierre Bergé, 1985. Foto: Divulgação

O trio mágico formado por Yves Saint-Laurent, Pierre Bergé e Loulou de la Falaise se foi. Todos, cada um no seu papel, deixaram rastros de uma aventura incrível na moda, sociedade e vida de mulheres e homens da nossa época. Do lado de cá, sobramos nós, testemunhas dessa transformação revolucionária dos últimos 40 anos: o feminino que flerta com o masculino e a moda que se inspira na arte, no teatro, na música, na literatura e nos costumes folclóricos – com aquele twist particular de monsieur Saint-Laurent. Sem esquecer das viagens ao norte da África, do mergulho nas cores da Índia, das maravilhas da Ásia. E das linhas retas que se enamoram dos arabescos de MarrakechMonsieur, quando se foi, em 2008, aos 71 anos, deixou um vazio imenso. Loulou, sua companheira de festas, designer excepcional de acessórios e musa inspira- dora, o seguiu três anos depois, aos 63.  Bergé partiu em setembro, mas poderia ter ficado um pouco mais, pelo menos para ver o resultado de seu longo trabalho. Foi por pouco.

Yves Saint-Laurent, 1986. Foto: Divulgação
Yves Saint-Laurent, 1986. Foto: Divulgação

Porém, esta é uma história com final feliz. E ela continua a ser contada desde 3 de outubro, em Paris, e desde 19, em Marrakech, graças à inauguração de dois museus em homenagem ao costureiro. Bergé fez um verdadeiro trabalho de Hércules, ao estocar os inúmeros croquis, peças couture – protótipos de desfiles, na verdade -, no total, 5 mil roupas e 15 mil acessórios, além de joias, livros, fotos, cadernos de vendas, artigos de imprensa. Desde que a marca foi lançada, em 1962, ele já tinha na cabeça criar um museu para documentar a obra monumental de seu companheiro de vida. Isso numa época em que nenhuma outra grife cogitava a ideia, ou mesmo tinha condições financeiras para tal. Tudo isso demandava condições climáticas adequadas, umidificação recomendada, papel antiácido para proteger o arquivo.

Fachada do ateliê de Saint- -Laurent em Paris (1982). Foto: Divulgação
Fachada do ateliê de Saint- -Laurent em Paris (1982). Foto: Divulgação

MUSEU YVES SAINT-LAURENT PARIS

Todo o trabalho de Pierre Bergé tem um nome: La Fondation Pierre Bergé-Yves Saint-Laurent, criada em 2002, ano em que Yves decidiu abandonar a alta-costura. A fundação, reconhecida como utilidade pública no mesmo ano pelo governo francês, é responsável pela transmissão e reconhecimento do patrimônio histórico deixado pela marca. Os dois museus, inaugurados logo após a morte de Bergé, exibem, de forma constante, as criações da maison. O de Paris ocupa o endereço histórico 5 Avenue Marceau, onde nasceram, durante quase 30 anos (de 1974 a 2002), as criações do costureiro, além de ser a sede da fundação desde 2004.“Mudamos completamente o antigo prédio, para transformá-lo em museu”, conta à Bazaar Olivier Flaviano, diretor do Museu Yves Saint-Laurent Paris. “Os visitantes entram pela porta principal, com a escadaria histórica, o lustre, as plantas, tudo como era antigamente na loja de acessórios. A ideia é fazê-los sentir como se entrassem realmente na história e vida de Saint-Laurent”, diz. “No primeiro andar, dois antigos escritórios e um corredor foram transformados no grande espaço de exposição. Além disso, claro, temos o verdadeiro estúdio do monsieur, deixado em seu estado natural, sem mudar uma agulha”, detalha Olivier. Os antigos ateliês de costura, infelizmente, tiveram de ser transformados em salas de conservação e de arquivo.“Mas ainda veremos os ateliês em pleno funcionamento nos documentos, fotos e vídeos – inclusive o famoso documentário 5 Avenue Marceau (2002) –, que exibiremos no museu”, esclarece.

Vestido em homenagem a Mondrian (1965). Foto: Divulgação
Vestido em homenagem a Mondrian (1965). Foto: Divulgação

A instituição retrata a vida cotidiana das mulheres de outrora, quando a alta-costura era elaborada segundo uma ordem: uma silhueta para o dia, um vestido cocktail para o final de tarde e um look para a noite. “A couture de antigamente, diferentemente da atual, criava e mostrava nos desfiles uma mulher que recebia de manhã, saía para tomar drinks com amigos e, depois, esticava, e Yves criava dessa maneira em sua época. Mas isso já faz muito tempo”, reflete. A adaptação ao público é o grande triunfo do museu parisiense, que intercala exposições permanentes e temporárias segundo as estações do ano. “Durante o primeiro ano faremos uma retrospectiva da marca. Seis meses depois, mudamos algumas silhuetas expostas por motivos de conservação. Um ano depois, do outono de 2018 até janeiro de 2019, mudaremos tudo e instalaremos uma mostra temporária, intitulada L’Asie Rêvée de Saint-Laurent”, adianta o diretor.

“Após este primeiro ano, intercalaremos exposições temporárias de outubro a janeiro e exposições permanentes de fevereiro a setembro, sempre com temas da marca. Assim, nos adaptamos aos turistas no verão e aos parisienses no inverno”, explica Olivier, de 35 anos, que carrega um quê dos tempos dos happy sixties na maneira de falar, de se referir às pessoas. O que revela, no entanto, é sua semelhança física com o costureiro célebre: a mesma timidez, os óculos fundo-de-garrafa, os cabelos finamente alinhados e o terno azul-marinho. À simples menção do fato, seu rosto se ilumina e ganha rubor imediato.“Já me disseram algo parecido”, desconversa.

Sobre sua escolha para a direção do museu, feita há quase um ano, lhe parece natural. “Entrei aqui como assistente da assessora de imprensa, há oito anos, e acabei como adjunto do ex-diretor. Quando a fundação passou por mudanças, em dezembro do ano passado, Bergé achou que eu era qualificado para o cargo”, conta. Mas o que faz seus olhos brilharem é o fato de o museu ter recebido a categoria “Museu Oficial da França” antes mesmo de ser inaugurado. “Por isso, o patrimônio de YSL é protegido pelo estado francês, aconteça o que acontecer, ninguém pode tocar nele.”

Fachada da Fundação Yves Saint-Laurent, ambos em Marrakech. Foto: Divulgação
Fachada da Fundação Yves Saint-Laurent, ambos em Marrakech. Foto: Divulgação

MUSEU YVES SAINT-LAURENT MARRAKECH

“A ideia do museu de Marrakech é que ele seja um grande centro cultural, que se integre completamente à cidade e que participe da vida dos locais”, diz Bjorn Dahlström, diretor dos museus Berbère du Jardin Majorelle e Yves Saint-Laurent Marrakech. O curador franco-sueco, instalado na capital marroquina há sete anos – desde a inauguração do Museu Berbère –, é experiente no assunto: ele já passou também pela curadoria do Museu de Arte Moderna de Luxemburgo. “Acompanhei a criação do Museu YSL desde o projeto, feito pela agência francesa Studio KO, até assuntos mais técnicos, como a temperatura adequada, a umidade permitida, o acolhimento do público, a questão da segurança e a conservação das peças”, conta Bjorn à Bazaar, entusiasmado. “Um museu assim é como um hospital de objetos: há peças que podem ficar ‘doentes’, e, assim, recebem o tratamento ideal”, diz, referindo-se ao laboratório de conservação, à limpeza sistemática de poeira, às salas de quarentena e de exame, todos no local. “Se precisarmos, chamamos um especialista para reformar a peça original em um espaço de tempo de dois a quatro dias”, revela.

Bjorn Dahlstrom. Foto: Divulgação
Bjorn Dahlstrom. Foto: Divulgação

O museu, que corresponde bem ao estilo marroquino, é feito de concreto, terracota, granito, tijolo, fragmentos de pedras locais e madeira. Um enorme prédio – que custou mais de 15 milhões de euros –, bem ao lado do concorrido Jardin Majorelle.  A cidade, que serviu de inspiração para o estilista durante toda a sua vida, recebe uma grande obra arquitetural das mãos de Pierre Bergé: com 4 mil m2, o museu é dividido em salas de exposições permanentes e temporárias, auditório, biblioteca, livraria e café-restaurante. Nele, podemos ver de perto as cerca de 50 silhuetas couture escolhidas a dedo pela Fundação Pierre Bergé, trocadas a cada quatro meses. “As peças giram em torno de temas preferidos de Saint-Laurent, como o masculino e feminino, o preto, o norte da África e o Marrocos, as viagens imaginárias, os jardins, a arte e convite para o baile. São, no total, mais de mil objetos, entre roupas e acessórios, emprestados pela fundação, que possibilitarão ao museu de Marrakech programar suas temporadas durante vários anos”, diz o curador.

Capa com bunganvílias da coleção de alta-costura do estilista, em 1989. Foto: Divulgação
Capa com bunganvílias da coleção de alta-costura do estilista, em 1989. Foto: Divulgação

O cenário da sala de exposição permanente – Sala Yves Saint-Laurent – é cinematográfico: são 400 m2 de fundo preto, com o vestido Mondrian logo na entrada para receber os visitantes. Em seguida, os 50 looks espalhados pela peça: o smoking, a saharienne, o caban, os russos, a capa com buganvílias (primaveras), os costumes tradicionais, o burnous (capa tradicional marroquina)…Tudo está lá. “Para começar, uma exibição constante de filmes sobre a criação de uma silhueta, desde a amostra de tecido, o croqui, até a produção de uma peça propriamente dita. Há também imagens, cartas e fotos importantes da carreira de Saint-Laurent, que contam sua história por fases”, detalha, a propósito da cenografia de Christophe Martin. “Para complementar, uma instalação audiovisual passeia entre os manequins de madeira e o fundo preto, criando um diálogo entre as modelos e o universo do estilista. Além de música, sua própria voz, sons e pedaços de filme e desfiles”, complementa Bjorn.

Sala da Fundação Jardin Marjorelle. Foto: Divulgação
Sala da Fundação Jardin Marjorelle. Foto: Divulgação

Para a sala temporária, de 120 m2, uma primeira exposição já está em cartaz: o “Marrocos” do pintor Jacques Majorelle. “A ideia aqui é girar em torno de temas relacionados ao universo de Yves: arte contemporânea, antropologia, botânica.” Para quem tem afinidade com os temas, a biblioteca disponibiliza mais de cinco mil obras, muitas delas doadas pelo próprio Bergé, além de Madison Cox, o discreto jardineiro e paisagista americano das celebridades, que fez renascer o Jardin Majorelle a pedido do casal. Madison, que se casou, com toda a discrição, com Bergé em abril passado, assumiu a presidência das fundações e museus após a morte do marido. Cabe a ele, agora, cuidar da imagem e do arquivo dessa grande maison, uma das mais importantes da história. Porque, como dizia Bergé, “é necessário transformar as lembranças em projetos”. Dito e feito. Merci, messieurs. :: fondation-pb-ysl.net (AGRADECIMENTO: ADRIANA BITTENCOURT)

 Pierre Bergé em Paris, 2015. Foto: Divulgação
Pierre Bergé em Paris, 2015. Foto: Divulgação