Documentário que contém cenas do icônico show no Municipal está disponível na Netflix – Foto: Jef Delgado

Emicida lança na Netflix o documentário “AmarElo – É Tudo Pra Ontem”, que mescla cenas dos bastidores de produção do disco que foi desmembrado em diferentes projetos audiovisuais até seu histórico show no Theatro Municipal de São Paulo, em 2019. No filme dirigido por Fred Ouro Preto, o rapper ajuda a contar o legado de pessoas pretas ao longo do último século, que foram apagadas ou saíram de protagonistas para atores secundários na cultura brasileira.

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“No momento em que o Brasil está oscilando entre uma federação digna de pena e uma piada, as pessoas vão olhar para uma história bonita, que surge no Brasil. Da nossa parte, a gente precisa reivindicar nosso direito de ser grandioso para que a mediocridade não nos sequestre mais”, explica ele à Bazaar. De forma bastante didática, ele ajuda a relembrar – em forma de animação – contribuições de nomes importantes para a história, como os atores Abdias do Nascimento e Ruth de Souza, além da ativista política Lélia Gonzalez – contemporânea de Angela Davis.

Como narrador da história, Emicida traça um paralelo entre o samba, os vanguardistas da Semana de Arte de 1922, o ato de fundação do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978, e a importância da escolha do palco de seu show, que aconteceu no Mês da Consciência, no ano passado. “A gente está na efervescência de um desejo da sociedade brasileira de se ver representada de mil maneiras. Isso, de alguma maneira, também é uma consequência de 22, que se propôs a colocar o Brasil no epicentro da criação”, conta. “Alguns, entenderam isso de uma maneira estética: a Arte precisa retratar o contexto brasileiro. Outros, extremamente influenciados pelos movimentos do exterior, mas ainda tentando trazer materiais daqui da nossa realidade.”

Emicida ao lado de Larissa Luz, Jé Santiago, Pabllo Vittar, Majur e MC Tha – Foto: Jef Delgado

Ao lado de Machado de Assis e outros figurões que foram embranquecidos pela História, Mário de Andrade – de quem Emicida já tinha afeto pela poética, intelectualidade, mas nunca havia emergido na temática – aparece no epicentro do filme, apesar de estudiosos de seu legado pouco explorarem o fato de ele ter sido um “grande africanista” e nem Andrade se reconhecia como tal. “Em 1960, Malcolm X, em um discurso, diz: quem foi que te ensinou a odiar o seu cabelo? Quem foi que te ensinou a odiar a cor da sua pele? Isso é muito f… Isso é muito potente. Essas palavras do Malcom ecoam até hoje”, recorda. Mas 30 anos antes, Andrade já tinha feito isso. “Acho ele genial porque conseguiu entender que a cultura popular era um ótimo lugar para observar a psicologia social de um país, como nos textos A Superstição da Cor Preta (de 1938) ou Linha de Côr (1939), e gosto da transformação pela qual ele passa”, reforça, citando o poeta Sérgio Vaz (Poeta). “É óbvio que nos interessa o Malcolm X. Mas o Mário de Andrade é o centro de São Paulo.”

Na linha do tempo explorada pelo filme e reforçada nesta entrevista, Emicida explica que a origem de Lélia Gonzalez junto com o Candeia, no Grêmio Recreativo Escola de Samba Quilombo, ganha outra simbologia, tirando o Samba apenas como plataforma de entretenimento, mas com um primeiro pensador de Brasil. “Enquanto 22 estava colocando o pessoal – que era mais próximo da burguesia – no palco do Municipal, tentando emular os grandes movimentos da Europa, a vanguarda cultural do planeta – que era Paris – estava convidando os Oito Batutas (formado por Pixinguinha na flauta, Donga e Raul Palmieri no violão, Nelson Alves no cavaquinho, China no canto, violão e piano, José Alves no bandolim e ganzá e Luis de Oliveira na bandola e reco-reco) para ir lá. Então, o samba, em 1922, já produzia resultado prático da civilização do Brasil”, pontua.

Com esse documentário, Emicida quer prestar uma homenagem às figuras invisibilizadas, não necessariamente dividindo bandeiras, mas somando-as – e isso fica bem claro em algumas partes importantes do documentário: a que ele reverencia Wilson das Neves como figura icônica de um passado recente e que ajudou a construir parte de seu legado enquanto cantor, a participação de Zeca Pagodinho, a outra com Fernanda Montenegro e, por fim, rostos das causas LGBTQIA+: Pabllo Vittar e Majur, que fazem parte do dueto que dá nome ao projeto. “Uma amiga me falou que quando terminou de assistir, estava com a sensação de que poderia fazer muito mais. Essa é a intenção em colocar esse filme na rua. Que a gente pode ser muito mais enquanto País”, finaliza, dizendo que a parceria com a Netflix vai permitir que o documentário chegue a mais de 190 países. O documentário estreia nesta terça-feira (08.12) na plataforma!

Show no municipal aconteceu em novembro de 2019 – Foto: Jef Delgado