Efe em seu ateliê, em Belo Horizonte – Foto: Divulgação

Em suas pinturas aquareladas, Efe Godoy cria um universo mágico (e cor-de-rosa) de criaturas híbridas – mescla de animais com natureza e figuras que poderiam muito bem fazer parte do Folclore brasileiro. Aos 32 anos, a mineira de Sete Lagoas, radicada em Belo Horizonte há mais de uma década, exprime essa vontade de celebrar a diferença com protagonismo de corpos dissidentes em sua arte. “A gente é a mistura de um monte de coisa. Existem muitas nuances dentro de uma pessoa só”, conta à Bazaar. “Essa construção toda, de entender quem a gente é, é uma grande confusão na mente.”

Os desenhos trouxeram consigo um olhar de descoberta há cerca de três anos. E a aproximaram de pessoas que abriram seus olhos para uma transição de gênero ao confrontá-la: “ei, tá na hora de desabrochar”. Era o que Efe, bissexual à época e namorando uma garota, precisava ouvir. “Sempre senti, estava ali. Mas nunca entendi que era, de fato, angústia. Tenho até um trabalho que fala: ‘a angústia é uma semente’. Sinto que poderia brotar ou ficar ali infértil. É um sentimento que está presente em toda criação.”

Próxima da mãe, nunca precisou sair do armário. Na conversa mais recente, disse para dona Tifany Maria, que muito em breve deve levar um “namoradinho” para conhecer. “Minha forma de dizer a ela o que está acontecendo”. Efe se assumiu não binária e flutua entre os gêneros. “Nada está formado, mas em trânsito. Tudo que está acontecendo ainda está vivo. Se a gente está vivo, tudo muda o tempo todo.”

Desenho “Pazes, substantivo feminino” – Foto: Divulgação

Ao criar esse mundo confortável para viver, surgem as tais figuras fantásticas. “Não gosto de ver notícias ruins, claro que se esbarra com isso a toda hora, mas tento fazer com que o mundo seja um pouco mais leve. Quero que coisas ao meu redor vibrem poesia e energia positiva. Só assim para a gente dar conta”, explica sobre seus escudos no País que mais mata transexuais em todo o mundo.

De cabelo descolorido (agora, pintado de rosa), quem bate o olho em seu Instagram, acredita que a artista é albina – pergunta recorrente em suas DMs, por sinal. Mas essa imagem angelical, ar de boneca, faz parte de sua estética em tons pastel. Na escola de artes Guignard, preferiu “gastar prática” nos ateliês, mas acabou não concluindo a faculdade. Jubilou porque estava na estrada com a banda Absinto Muito, de Música Psicodélica Brasileira (ou MPB, como gosta de contar). Ali, assumia as performances “maluquetes” em cima do palco, inspirada por figurões como os Mutantes, Led Zeppelin e Pink Floyd. Desde 2009 (um ano antes de passar no vestibular), era a voz da banda, mas como todo relacionamento tem chances de chegar ao fim, esse momento abarcou em 2015.

Foi quando voltou a se dedicar às artes plásticas e se jogou no universo dos editais. A multiartista Ventura Profana foi muito importante para ela entender essa existência. “Minha grande pastora”, sintetiza a relação com a amiga, que conhece desde os tempos musicais.

“Bichos feitos por bixas” – Foto: Divulgação

Inspirada pelo verso “ramificar, florescer” da faixa “Dilúvio”, de Alice Guél com participações da própria Ventura e Edgar, estreia este mês uma exposição no Museu de Arte de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, ao lado dos artistas Fernanda Azou e Rafael Amorim.

Apoiadora da filha desde a infância, a mãe de Efe vai assinar o texto curatorial. Entre as obras da mostra que pretende ser uma grande instalação, destaca-se “Me Engana que Eu Gosto”, um néon que reproduz uma frase que mãe e filha sempre proferem aos quatro cantos. “Quando a gente joga nas redes sociais o que é, dá a cara a tapa, um monte de gente vem falar coisas, quer mudar sua vida, escrever sua história. Quem tem que fazer é a gente”, resume.

E se tem uma coisa que Efe tem feito bem é traçar sua própria trajetória. Sua poesia vem trilhando a criatividade incentivada pela família desde a infância. De performances ao audiovisual, seu carro-chefe, não há como negar, são os desenhos aquarelados. Ainda que ela se aventure em pintura e objeto, é ali que se realiza, no ateliê com ares de casa de boneca – e onde o papel é sua janela para o mundo.