Foto: divulgação
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Por Michael Koellreutter

Chez Vânia Toledo, a fotógrafa, no seu mega-apartamento de Higienópolis, em São Paulo. Disputadíssimo happening mensal que reunia as tribos social e cultural de A a Z. Em seu templo festivo, La Toledo juntava uma mélange de pessoas: a cantora Rita Lee, o jornalista José Simão, o dramaturgo Zé Celso Martinez Corrêa, além de uma vasta modelada, todos registrados por sua sempre alegre câmera! A noite era das mais trepidantes, porém, o colunista Eduardo Logullo, que assinava a movimentada coluna Stardust, no jornal Última Hora, estava impaciente. Não via a hora de ir a poucas quadras dali, onde sua musa, a cantora Elza Soares, estava recebendo num hotel en petit comité.“Vamos logo, Micha”,dizia. “Festa na Vânia tem toda hora. Mas encontro com Elza Soares ́é coisa rara!”Era inverno de 1987.

A suíte de Elza Soares, num hotel próximo, também era point de diversão, num entra-e-sai frenético.Logo fomos recebidos pelo poeta e multimídia Jorge Salomão, que comentava sobre a terra onde nascera Garrincha: Pau Grande, no município de Magé. Brincava com o fato de que o estilista Luiz de Freitas, então criador da famosa “Mr. Wonderful”, também era de Pau Grande. Queria saber se Garrincha fazia jus ao nome da região onde nasceu. “Ah, meu filho, sempre fui muito bem servida!”, brincava Elza. Eram duas da manhã e, para surpresa de todos, eis que bate na porta o camareiro entrando rosas. “A esta hora?”, surpreendeu-se Salomão. “Pelo número de flores que cobrem este quarto hoje, você está muito bem servida mesmo!” As rosas eram de um amigo que há pouco saíra dali e que, fascinado com as histórias de Elza, correu até a floricultura 24 horas da Rua da Consolação e as deixou na porta do hotel. Elza, encantada explicava que rosas exerciam um fascínio sobre ela e tirou um coelho da cartola: “Vocês sabiam que tenho uma tatuagem nunca revelada?”.

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Contou, então, que casou-se pela primeira vez aos 12 anos, perdeu uma filha aos 15 e, bem cedo, já cantava numa boate. Fazia-o escondido da família, afinal, não eram nada chegados a apresentações  em casas noturnas. Numa dessas noites, ao terminar o show, sentou-se numa mesa, onde percebeu um homem de chapéu, cara de tarado e um buquê de rosas nas mãos, que olhava obstinadamente para ela.Aquela fixação causou certa irritação. Algum tempo se passou, até que o homem se aproximasse, curvando-se diante dela, oferecendo o buquê.

Homem:“Rosas para outra rosa…”

Elza (já irritada): “Olha aqui, meu senhor, não gosto de rosa e o senhor se retire, pois acabei de ficar viúva e não tenho cabeça para cantadas…”

Homem:“Pois saiba que, se não fosse por mim, você não estaria fazendo esse sucesso…”

Elza:“Que sucesso?! Quem é o senhor?”

Homem:“Lupicínio Rodrigues!”

Elza (refazendo-se): “Sr. Lupicínio, que prazer, sente-se aqui, porfavor! Olha,eu adoro rosas, passa já essas rosas para cá…”

Elza, naquela noite lotada, cantava apenas os sucessos do artista! “Eu já havia feito a cagada!”, reconhece.“Como sinal de desculpas e reconhecimento, mandei tatuar várias rosas nas costas para mostrar a ele.”

Filha de operário e lavadeira, nasceu na favela de Moça Bonita, no Rio.Aos 12 anos, por ordem do pai, casou-se com Antonio Soares, ali conhecido como Alaúde.Aos 21, tornou-se viúva, com cinco filhos para criar. O primeiro, João Carlos, ficou muito doente e, para levantar dinheiro para comprar remédios, Elza foi até a RádioTupi e se inscreveu no programa de calouros do Ary Barroso, vencendo e já emplacando, a partir dali, a carreira artística.Aos 32, conheceu o craque Mané Garrincha, seu grande amor, com quem ficou 16 anos e teve mais um filho. Início de relação tumultuado, pois, sendo Garrincha famoso e casado, fez tremer a sociedade.“Fui xingada e alvejada por ovos e tomates”, relembra.“ Tudo porque meu namorado quis se separar da esposa e me acusavam de acabar com o casamento do ídolo do futebol.” Em 1969, veio outra tragédia: Rosaria, mãe de Elza, morreu num acidente de carro. Garrincha, alcoolizado, dirigia o Galaxie que a transportava. . . Em 1983, Garrincha, alcoólatra, morreu de cirrose e, em 1986, veio outra desgraça: Garrinchinha morre, aos 9 anos, também num acidente de carro ao ir conhecer Pau Grande, a cidade do pai.

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Elza Soares nunca se deixou abalar em momentos difíceis. Absurdamente gladiadora! Entre tragédias, gravou 33 discos, sem falar nos incontáveis shows com lotação espantosa. Caiu nas graças de Louis Armstrong, que a chamava de filha espiritual. “Elza tem um saxofone na garganta”, dizia…Abriu os Jogos Panamericanos cantando o Hino Nacional para um Maracanã lotado, saiu em turnês nos Estados Unidos e na Europa, foi indicada para o Grammy… Mas a consagração veio em Londres, quando, em 2000, foi eleita pela BBC a Cantora do Milênio!

Em 1999, caiu no palco e não deu bola: “Continuei dançando nos shows, usando meu famoso salto 15 e, de 2007 pra cá, fiz três cirurgias.Tenho oito pinos na coluna”. Quando ninguém imaginava, Elza reapareceu no ano passado, com seu novo CD A Mulher do Fim do Mundo. Não podia mais sambar, porém promoveu o disco em shows se apresentando sentada.“Meu salto 15 foi para a gaveta… Mas a garganta continua intacta! Tenho muita força de vontade…” E, orgulhosa, acrescenta: “Sou uma abusada!” Duvidar, quem há de…?

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