Pagu ao lado da capa do livro “Autobiografia Precoce” (Companhia das Letras), que acaba de ganhar nova edição totalmente repaginada – Foto: Acervo Lúcia Teixeira/ Centro Pagu Unisanta

Por Matheus Lopes Quirino

A escritora, militante e agitadora cultural Patrícia Galvão, mais conhecida como Pagu, é da turma de personalidades que, quando criança, foi beijada por um anjo torto. Ousadias à parte, ela não fez menção ao poeta Carlos Drummond de Andrade em sua “Autobiografia Precoce” (Companhia das Letras), que acaba de ganhar nova edição totalmente repaginada. Não precisava. De versos tortuosos, sua vida foi guiada por um desejo de se autodescobrir, experimentar, com disposição, ao passo que busca uma ideologia para viver. Como quando ingressou no Partido Comunista e, a todo custo, não arredou de lá por maiores que fossem os obstáculos. Primeira presa política que se tem registros, esse fato aconteceu pela primeira vez em Santos, no litoral de São Paulo, no início da década de 1930.

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A personagem que, na história da Arte Moderna brasileira, ficou conhecida  do grande público como pivô da separação do mais famoso casal da época, formado pelo escritor Oswald de Andrade e pela pintora Tarsila do Amaral, Pagu retém os holofotes em tom confessional neste livro. A intensidade de sua vida e produção é um trunfo para sua prosa assertiva, irônica, crua.

Oswald, a bem da verdade, é um ótimo coadjuvante. Sem deméritos, o autor de “Memórias Sentimentais de João Miramar” orbita em torno de Pagu. Libertário, o casal apoiou explicitamente o Partido Comunista, defendeu teses modernistas (Andrade é autor do “Manifesto Antropofágico”), vivendo uma relação poligâmica — muito mais para Oswald — acordada. Estamos falando da década de 1930.

Pagu ao lado de Oswald e do filho Rudá, no início da década de 1930 – Foto: Acervo Lúcia Teixeira/ Centro Pagu Unisanta

Pagu trafega entre dois mundos. Custa rotular-se em algum deles. No mundo burguês, de onde veio, era uma desvairada assanhada. No mundo revolucionário, proletário, era burguesa. Na infidelidade, não pecava. No pecado, era o amor puro, o êxtase, o brilho materno. Na maternidade, era a distância. Como quando deixou o filho Rudá, ainda bebê, para passar uma temporada com os comunistas argentinos. A sensação de sentir-se útil full time é uma necessidade de autoafirmação de sua condição como mulher, emancipada e, sobretudo, consciente. Alinhada aos ideais da Revolução Russa, Pagu chega a ser presa mais de 20 vezes em sua curta vida, perde bens e as raízes. Morreu aos 62 anos, vítima de um câncer de pulmão.

Confessional, o livro joga às claras a paixão definitiva por Oswald, enquanto o companheiro Geraldo Ferraz (escritor, jornalista, que esteve à frente da “Revista de Antropofagia”, na década de 1920), embora tenha lhe dado carinho incomensurável, era um amigo, como a autora mesmo escreve. Ele ficou ao seu lado até os últimos dias de sua vida. Pagu foi uma mulher de despertar paixões intensas nos homens.

Do poeta Raul Bopp, de quem cultivou amizade longeva, a membros de seu partido, ela teve presença e influência em ambientes masculinos, trabalhando no chão da fábrica, literalmente. Ela panfleta, observa, tem medo de errar e ser ridicularizada pelos comunistas. É difícil seguir um rumo certo. Ela busca uma razão para si, vê-se isso em todas as páginas do livro.

Acervo Lúcia Teixeira/ Centro Pagu Unisanta

Ela engole as angústias, desce ao inferno para cumprir com suas atribuições. Pouco a pouco, o partido engole seus mecanismos de defesa e ela cede. Seus ideais entram em choque quando precisa ser informante do partido e levar homens para a cama. Patrícia tem momentos decisivos de reflexão, a solidão a acompanha nessas empreitadas, como ilustra no começo do livro quando “se sente uma boia à deriva no meio de um oceano”. Ágil, comprimida e sem filtro, a escrita de Pagu vai direto ao ponto logo no início do livro, quando confessa que perdeu a virgindade aos 12 anos recém-completados e, aos 14, teve um aborto. Ela reconhece a condição trágica, o desprezo da mãe e a busca por uma imagem que a fizesse aceita – foi assim na militância, idem na literatura. “Ninguém alcançou o máximo da minha oferta”, narra sobre desilusão, retratada em vários pontos do livro, e por aí traça o andar gauche de sua vida sentimental.

Precoce, ela se insere na cena cultural de São Paulo, onde conhece Oswald e outros modernistas aos 20 e poucos. Pagu nutre paixões genuínas por ideias livres, como as revoluções do proletariado, a liberdade da arte e a emancipação feminina. Lembrada como uma co-co-adjuvante da Semana de Arte Moderna de 1922, com os relatos recém-lançados, é possível perceber o tom das condições da escritora que, não fosse sua partida tão cedo, alcançaria o protagonismo que tanto buscou.

Foto: Acervo Lúcia Teixeira/ Centro Pagu Unisanta

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Harper’s Bazaar Brasil.