Evangelia Kranioti - Foto: Divulgação
Evangelia Kranioti – Foto: Divulgação

Por Mariane Morisawa, de Los Angeles

Evangelia Kranioti descobriu o cinema no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro. Originalmente fotógrafa, fazia um projeto ao redor do mundo sobre os relacionamentos de marinheiros e prostitutas. “O visual da cidade, o ar elétrico, são matérias fílmicas”, disse a artista grega à Bazaar. Aquele projeto fotográfico foi transformado no longa “Exótica, Erótica, Etc.” e tornou Kranioti uma cineasta.

Antes de partir para seus projetos de ficção, ela sentia ter uma dívida com o Rio de Janeiro. E assim nasceu “Obscuro Barroco”, que levou o prêmio Teddy do júri, destinado a filmes de temática LGBTQI+, no Festival de Berlim. “Queria filmar a cidade de forma mais profunda, com mais atenção”, afirmou. “Mesmo que toque também nos clichês, meu objetivo não era promover o Rio como destino de férias. Queria algo mais sujo, algo mais vívido, real, aquele realismo mágico da América Latina.”

Sua primeira ideia era fazer uma série de curtas-metragens sobre temas aplicados à cidade, tendo a Olimpíada de 2016 como prazo final. Mas isso foi abandonado. “O que me tocava mais no meu entendimento da cidade era o conceito da transformação, da metamorfose.” Kranioti, que fala português fluentemente, também via no Rio um pouco da cultura grega, como o elemento dionisíaco. O carnaval parecia um ponto de partida óbvio. “A cidade gira em torno dele, e ele é como um coro da tragédia grega.”

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Cena do documentário Obscuro Barroco - Foto: Divulgação
Cena do documentário Obscuro Barroco – Foto: Divulgação

Ao pedir autorização para filmar travestis na Lapa, conheceu Luana Muniz (1961-2017), líder da comunidade. “O encontro foi tão forte que acabamos trabalhando juntas”, disse a cineasta. “Começamos a fazer várias experiências artísticas, humanas, coisas que não cabem num documentário. Nunca quis que ela falasse da prostituição. Não queria apresentar esse clichê. Já sabemos que não existem muitas alternativas profissionais para pessoas em transição de gênero. Ela fala disso, mas de maneira mais onírica.”

Não se trata de uma biografia tradicional. Luana recita trechos de “Água Viva”, de Clarice Lispector, e pontua as cenas com falas como “se o Rio fosse uma pessoa, seria uma travesti”. “Quis torná-la uma personificação da cidade”, explica. “Se o filme conseguir unir a identidade dela com a da cidade, entender algo das duas, fico muito feliz.”

As imagens de Luana intercalam-se com cenas do carnaval, com a transformação de pessoas à margem em estrelas da noite, e de um baile funk na Maré, onde crianças pequenas imitam os adultos e simulam atos sexuais. Ela também incluiu protestos relacionados ao impeachment da presidente Dilma Rousseff.

“Me peguei vendo o carnaval virando protesto.” Num momento, mulheres cantam “Apesar de Você”, de Chico Buarque. “Sempre me emociono quando chego lá. Porque vejo claramente, e espero que o público também, que cada pedido tem sua justificativa. Um não é mais importante que o outro. Todos são justos, todos têm direito de querer algo assim, de não ser um fato antropológico, de não se conformar a um destino já imposto.”

Cena do documentário Obscuro Barroco - Foto: Divulgação
Cena do documentário Obscuro Barroco – Foto: Divulgação

Seu filme-ensaio tem “barroco” no nome pela questão da mistura. “Vi que o barroco foi um movimento de resistência local, de pegar uma tradição e fazer algo novo. É uma apropriação”, diz a cineasta. “A própria Luana falava: ‘Ninguém entra no mesmo Rio duas vezes’. É um conceito do filósofo grego Heráclito. Inteligente como era, devorava e transformava as coisas.”

Luana não chegou a ver o filme completo, só alguns trechos. Morreu em 2017, de pneumonia. “Eu estava na Europa. Não sabia como era possível. Para mim, ela era quase uma heroína. Parecia um corpo incansável, que tem outras regras.” Um corpo que era, em si, a síntese da transformação.

Cena do documentário Obscuro Barroco - Foto: Divulgação
Cena do documentário Obscuro Barroco – Foto: Divulgação

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