Ex-Miss Febem usa redes sociais para questionar estereótipos do sexo feminino

Aleta Valente se prepara para a sua primeira exposição individual

by Ana Carolina Ralston
Foto: De Benja

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“A presa saiu do isolamento com o bebê no colo e o cordão umbilical ainda no útero.” A frase lida em uma notícia publicada em 2016 ficou por dias na cabeça de Aleta Valente. O presídio feminino onde aconteceu o parto está dentro do Complexo Penitenciário de Gericinó, chamado, até 2004, de Bangu, nome do bairro onde nasceu a artista carioca de 33 anos e onde morou grande parte de sua vida. “Sou mãe e me imaginei na situação de completa privação que essa mulher viveu. Para mim, a maternidade também foi uma experiência carcerária, de isolamento social, já que tive minha filha aos 18 anos”, conta Aleta.

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A notícia do jornal ficou ainda mais impactante para a artista quando soube que o recém-nascido era do sexo feminino. “Isso configura um verdadeiro ouroboros, um ciclo que se repete infinitamente e que retrata a atual situação de muitas mulheres.” Foi a partir desse pensamento que decidiu reproduzir a dramática cena em Bárbara, obra que fará parte da primeira exposição da artista em galeria, “A Gentil Carioca”, no Rio, que inaugura no dia 9 de novembro de 2019.

Foto: De Benja

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A ideia de reunir alguns dos mais emblemáticos autorretratos de Aleta foi da amiga e madrinha na profissão, Adriana Varejão – que também é responsável pela curadoria das obras. Entre as eleitas estão algumas das fotografias em que encarna sua personagem mais famosa, a Ex-Miss Febem, que deu nome à polêmica conta no Instagram, criada em 2015, e que já foi retirada do ar algumas vezes – neste doming (20.10), por exemplo, ele está fora do ar.

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A alcunha, tirada do refrão da música Kátia Flávia, de Fausto Fawcett, tornou-se uma das principais maneiras de a artista afrontar os estereótipos femininos, colocando em pauta a imagem midiática distorcida da mulher. Hoje, a página atua mais como uma curadoria cômica de memes, mas que segue com o mesmo objetivo. “Esse ícone fixo e plástico do que é a beleza feminina nos cria dezenas de problemas e distúrbios. Existem tantas formas de ser mulher como existem mulheres no mundo”, defende.

Antes de estourar como artista e virar finalista, por duas vezes, do Prêmio Pipa, nas edições de 2017 e 2019, ela pensou em estudar cinema. Chegou a atuar como atriz em dois filmes de Domingos de Oliveira e teve sua história contada no documentário “Jogo de Cena” (2007), de Eduardo Coutinho.

Foto: De Benja

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“Logo percebi que não era minha praia. Gostava mesmo é das artes plásticas, mas não imaginava que isso poderia ser uma carreira. Como não desenho ou pinto, comecei a escrever e a estudar a teoria da coisa. Trabalhei como monitora e produtora de exposições e fui assistente de vários artistas”, conta. Um de seus primeiros trabalhos foi uma performance em 2013, enquanto estudava na UFRJ. Nela, Aleta falsificava diplomas de graduação de Belas Artes, com carimbo e até fotos que registravam o dia da formatura.

Apesar da temática que circunda o universo da mulher, ela não intitula seu trabalho como feminista. Reforça a ideia de que suas obras surgem de uma observação do mundo e de experiências pessoais, algo, definido por ela, como um tema muito mais universal. “Minha questão é ligada à realidade que vivo e que, claro, passa pela maternidade, menstruação, sexualidade e pelo aborto, algo, infelizmente, ilegal no Brasil”, explica. “É importante lembrar que a ONU já declarou que os países onde o aborto é proibido estão submetendo suas mulheres a tortura física e psicológica.”

Foto: De Benja

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O fato de ser do sexo feminino, no entanto, acaba levando-a ao tema de forma recorrente, entre os mais recentes, dando luz à precarização da mulher pela baixa remuneração. “A primeira divisão de trabalho foi a sexual, quando ficávamos em casa sem sermos pagas pelo trabalho doméstico. A mulher foi o primeiro escravo da humanidade.”

Foto: De Benja

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A internet é outro tema que faz parte da sua vida desde cedo. Seu pai é programador e a levava para o trabalho com frequência, onde mostrava a diferença entre o funcionamento do telefone, do fax, até a chegada da fibra óptica. A mãe, arquivologista, também viveu de perto o início da era da internet. “Hoje, tenho pouco contato com meus pais. Percebo que só pude desenvolver meu trabalho dessa forma porque não tenho de me submeter à aprovação de ninguém”, conta. “Poder expressar aquilo que se tem vontade é a verdadeira liberdade.” E sua obra é a prova escrachada do lugar que a mulher ocupa (ou pode ocupar) na sociedade.

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