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Fado bicha: Lila Fadista e João Caçador levam o ritmo ao público LGBTQ+

Conheça a dupla que está revolucionando a tradicional música portuguesa

by Felipe Stoffa
Lila Fadista - Foto: Teresa Lopes da Silva

Lila Fadista – Foto: Teresa Lopes da Silva

Quando sobe ao palco, Lila Fadista abusa de looks coloridos, saias de tule, ombreiras e couro. Costuma aparecer com perucas, tem várias. Gosta também de decorar a barba: já pintou de verde, azul, encheu com glitter, e por aí vai.

Ao lado, João Caçador, com a guitarra elétrica em mãos, é quem dá melodia às letras do duo. Luzes baixas, silêncio total: hora do Fado Bicha se apresentar.

Há mais de um ano, a banda portuguesa ganha fama pela atualidade que transpõe ao fado, ritmo bem tradicional no país ibérico. No caso dos dois, o grito e a poesia são entoados pelo desejo de liberdade e direitos à comunidade LGBTQ+. “O Fado Bicha começou comigo, de forma experimental”, diz Lila Fadista, nome artístico do vocalista Thiago. “Queria responder, principalmente, à necessidade de expressão artística e entender o que poderia fazer no meio do fado”, completa.

Desde que retornou à Lisboa natal, após os estudos, ele sabia que não conseguiria cantar igual aos outros. Era preciso fazer diferente. “A música queer em Portugal é pequena e tem poucas portas. No Fado, então, é praticamente inexistente”, diz.

João Caçador - Foto: Teresa Lopes da Silva

João Caçador – Foto: Teresa Lopes da Silva

João entrou logo depois, após assistir ao futuro parceiro se apresentar no FavelaLx, em Lisboa. “Vi um vídeo de uma performance dele. Decidi conhecê-lo e propus de nos juntarmos.” O primeiro impacto ocorreu em uma escola do ritmo, quando Lila cantou o clássico do fado “Ai, Mouraria” com o verso “o homem do meu encanto”. “Professores e alunos diziam que não era apropriado que o Thiago, enquanto homem, cantasse aquilo. A forma que via o fado me chocava contra o que era imposto”, completa João.

O tom político ganhou força no caminho, e já começa com o nome da banda, primeira camada de protesto. “O termo bicha, tanto em Portugal como no Brasil, é pejorativo para designar homens homossexuais. Para nós, traz subversões e simboliza o que fazemos no projeto, tanto instrumental quanto lírica e visualmente. Engloba o queer e todas as não normatividades de sexualidade e gênero que representamos. É tirar do escuro e trazer para a luz”, diz Thiago.

“Recebemos conselhos que nos anulam, como dizer que era ótimo irmos a uma casa de fado cantar, mas que não era bom eu ir montado, que tínhamos de ir devagar”, relembra Thiago.

Durante as apresentações, o público enfrenta a si mesmo. O choque é positivo, principalmente o envolvimento dos espectadores. Mas o preconceito existe. “Não precisamos de nenhuma aprovação da comunidade do fado”, afirma.

Lila Fadista - Foto: Teresa Lopes da Silva

Lila Fadista – Foto: Teresa Lopes da Silva

Ao compor, um poema favorito pode ganhar novo ritmo. Canções são atualizadas para outros contextos, como no caso da faixa “De Costas Voltadas”, interpretada por Aldina Duarte. “Depois de conhecer um jovem trans que estava sozinho porque a família não o apoiava, achei que algumas alterações poderiam ser fantásticas para falar de rejeição”, diz o vocalista.

Até letras de Amália Rodrigues ganharam outra forma: “”Queria um fado com história de amor entre dois homens”, conta ele. Encontrou a letra “Namorico de Rita”, que passou a se chamar “Namorico do André (com Chico)”.

O desejo de conhecer o Brasil é grande, além dos cantores que apreciam: Johnny Hooker, Linn da Quebrada e Letrux. Já cantaram em festivais em Luxemburgo, Paris, Bruxelas e Ilha da Madeira.

A vontade agora é começar a produção do primeiro álbum. “Até um tempo atrás, achávamos que não fazia sentido pensar em gravar logo. Queremos incluir outras pessoas para gravar e dar força nesse caminho. É uma maneira de democratizar o acesso às nossas músicas, ter disseminação maior”, enfatiza a dupla.

“O fado tem sido preservado, desde sua origem, nas regras e na forma de pensar, cantar, vestir e tocar. Existe todo um protocolo. Ele é pouco aberto à inovação”, diz João. “Gosto da frase brasileira ‘gentileza gera gentileza’. Isso é uma ideia que o Fado Bicha visa. Tudo nos emociona e gera criatividade”, conclui o guitarrista.