Foto: Divulgação

Por Rafaela Sehn

“Você quer ser famoso? Por quê?”. Essas foram as perguntas feitas para 4.000 jovens que se aplicaram para a seleção de elenco do projeto do diretor e jornalista de tecnologia americano Nick Bilton, o documentário “Fake Famous”. O conceito do projeto é simples: dos milhares inscritos, apenas três selecionados iriam participar do experimento proposto pelo diretor, de ficarem famosos no Instagram com a ajuda de alguns – e vitais – truques.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

Foi por meio de um exército de bots que ocorreu a compra de seguidores e de falso engajamento, além de falsos cenários para montagem de fotos responsáveis por iludirem os verdadeiros (e falsos) seguidores de que os protagonistas estão de fato nos lugares mais diversos e luxuosos que a criatividade e orçamento dos produtores por trás do documentário puderam inventar.

A fraude dos bots faz dos jovens escolhidos Dominique, Chris, e Wylie, micro-influencers em questão de semanas, e o desdobramento do aumento dos números de seus seguidores no Instagram se torna um fator diferente para cada um dos envolvidos – e um choque para o diretor que diz não ter criado nenhum tipo de expectativa ao idealizar o documentário: “Eu realmente não sabia o que esperar. Não tinha nenhum preparo para entender o impacto que esses números teriam na saúde mental deles.”, contou Nick em entrevista à Harper’s Bazaar.

Mas a fama não era o que eles queriam? Para Chris e Wylie, dois jovens na faixa dos 20 anos, a falta de autenticidade no processo fez com que estes se sentissem expostos de uma maneira negativa, resultando na saída dos dois do experimento e um processo de introspecção e reflexão intensos – outra surpresa tanto para a mente por trás do documentário, quanto para quem assiste!

Já Dominique, atriz aspirante de 26 anos, a compra de seguidores combinada com sessão de fotos em cenários forjados, resulta no ticket dourado da jovem para o universo das influenciadoras e seus benefícios: os famigerados “recebidos” de diversos produtos, viagens pagas em troca de cliques e bem, ainda mais seguidores!

Sua carreira como atriz também começa a apresentar mudanças positivas graças ao aumentos dos números de “engajamento”, a garantindo mais callbacks para audições do que nunca. “Acho que essa relação entre número de seguidores, sejam eles falsos ou não, não se limita apenas à Hollywood. É algo presente em todas as indústrias contemporâneas. Eu tenho uma amiga roteirista que tem executivos perguntando a sua quantidade de seguidores no Instagram, mas o que isso tem a ver com a escrita dela?”, desabafou o diretor.

É assim que o documentário usa fatos para comprovar como a cultura de influencers pode ser considerada ludibriadora e falsa, uma vez que números e cliques comprados são o suficiente para marcas serem vítimas do próprio sistema que fomentam, gerando um ciclo vicioso que reverbera em diversos espectros – principalmente comportamental. Prova disso? A crítica final do documentário surge a partir de um corte de cena em que a pergunta “o que você quer ser quando crescer” ganha um novo significado ao receber a resposta “influenciador digital” de crianças. Provocante, sarcástico e desconfortável na medida certa, o documentário aproveita também para ironizar cenários instagramáveis de Los Angeles e seus significados no mundo, como um bom exercício semiótico.

A tentativa de “Fake Famous” é majoritariamente educar seu público em relação ao novo conceito de fama sem ter que diretamente desmerecer influenciadores e seus trabalhos, e sim criticar o sistema que os sustentam sem contemplar de fato os dados e informações que os rodeiam. “Espero que as pessoas percebam que os números realmente não importam e que é apenas um dado arbitrário que não tem nenhum pacto com a realidade.”, conclui Nick. Fake Famous estreou na HBO no dia 23 de fevereiro e está disponível no streaming HBO Go.