“Fevereiros”: longa acompanha Maria Bethânia no Rio de Janeiro

Dirigido por Márcio Debellian, o documentário estreia nesta quinta-feira (31.01)

by redação bazaar
Foto: Divulgação

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Por Ana Ribeiro

Chova ou faça sol, tempo bom ou tempo ruim, Maria Bethânia estará em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, em fevereiro. Na cidade onde nasceu, o mês é tempo de festa, novena e procissão para Nossa Senhora da Purificação.

Com placa de identificação como a atração turística que é, a Casa de Dona Canô, mãe de Bethânia e Caetano Veloso – ele é o sexto de oito irmãos, e ela, a sétima –, está no percurso do cortejo que atravessa Santo Amaro no dia 2 de fevereiro.

Bethânia costuma não perder. “É impossível resistir a esse apelo”, diz ela, no documentário “Fevereiros”, que estreia nesta quinta-feira (31.01) nos cinemas, depois de passar por 29 festivais pelo mundo. “Cada um de nós tem a fagulha de Deus. Sou mariana, devota de Nossa Senhora. Ela me ajuda a compreender as coisas – a mim, inclusive”, conta Bethânia no filme.

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A devoção católica, herança de dona Canô, não deu conta de suprir a complexidade religiosa de Maria Bethânia, que, menina, considerava ameaçadora a ideia de que Deus estaria vendo “tudo”. Educada pelas freiras do Convento de Nossa Senhora dos Humildes, ela logo se interessou também pelos orixás, os “deuses sem Deus” do candomblé.

Chico Buarque, que está no documentário em cenas antigas e declarações recentes, presenciou, atônito e encantado, a paixão com que Bethânia contava as histórias das divindades afro-brasileiras em cena resgatada do filme “Quando o Carnaval Chegar” (1972), de Cacá Diegues. “Não sou religioso. Mas se fosse escolher uma religião pela beleza, seria candomblé”, afirma Chico.

Foram essa “religiosidade mestiça” e esse “Brasil com cara de Brasil” os pontos de partida do carnavalesco Leandro Vieira quando, em 2015, escolheu Bethânia como inspiração para o samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira. “Ela guarda na voz esse universo de orixás, santos, figas, balangandãs; todos os signos que, de alguma forma, trazem proteção”, diz ele.

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Para Leandro, a história de Bethânia, desse “Brasil regional, nordestino, baiano”, é a cara da Mangueira, escola nascida de um terreiro de candomblé no Morro da Mangueira e que, para ele, também é um pedaço do Brasil autêntico. “Sou mangueirense desde 1965, quando cheguei ao Rio”, diz Bethânia.

A festa da Purificação em Santo Amaro e o desfile da Mangueira homenageando a cantora foram os cenários onde o diretor Marcio Debellian colheu as imagens atuais para “Fevereiros”. Fluminense, 41 anos, ele já tinha trabalhado com a artista algumas vezes antes. No seu primeiro filme, “Palavra (en)cantada”, de 2009, ela fala sobre a relação entre poesia e música.

Se aproximaram mais em 2011, com o relançamento do livro “Maria Bethânia Guerreira Guerrilha”, de Reynaldo Jardim, quando Bethânia fez um recital homenageando o autor. Então, veio um vídeo de Bethânia lendo poemas de Lya Luft para o relançamento do livro “O Lado Fatal”, e, em seguida, a cantora o procurou para dirigir “O Vento Lá Fora”, de 2014, em que lia poemas de Fernando Pessoa com a professora Cleonice Berardinelli.

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Para o filme, Márcio Debellian captou cenas quase antagônicas: no desfile da escola de samba – como no palco –, Bethânia é rainha. Na procissão, rezando compenetrada de olhos fechados, ou carregando com suas mãos o pesado andor de Nossa Senhora, é a súdita agradecida e submissa. “Colocamos as câmeras bem distantes, para não invadir o momento religioso dela, de introspecção”, conta o diretor.

No barracão da Mangueira, Márcio mostra como é que acontece esse verdadeiro milagre brasileiro que é ir do nada, de croquis no papel, a um deslumbrante desfile de escola de samba. E as cenas da Mangueira se repetem no sábado seguinte na Sapucaí, na noite das campeãs.

Com Maria Bethânia, a escola venceu o carnaval de 2016, depois de 13 anos sem ganhar. E a cantora ainda transformou o samba-enredo em uma bênção. “Até hoje, quando tenho alguma sensação, mínima que seja, de receio diante de algo, faço o exercício de ouvir na minha cabeça o refrão do samba: ‘Quem me chamou? Mangueira’”.

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